icons.title signature.placeholder Bruno Quaresma
16/12/2013
08:27


Preocupado com a cirurgia, Carleto não conseguiu dormir do dia 12 para 13 de junho. Ele foi internado às 5h e, duas horas e meia depois, uma mulher entrou em seu quarto e o surpreendeu. Para reconstruir os ligamentos do joelho direito, o lateral-esquerdo do São Paulo seria submetido a um transplante e receberia enxerto de um cadáver. A notícia fez a tensão aumentar e o bom humor foi a forma encontrada para relaxar.

– A mulher falou que teria de fazer dois enxertos. Eu falei: “Enxerto? Enxerto de quê?” Ela respondeu: “De cadáver”. Eu até tentei levar na brincadeira e falei para ela que podia ser o do Garrincha. Seria legal, iria voltar no ataque (risos). Tentei levar na brincadeira, mas aquilo me deixou mais tenso do que eu estava – lembra ele, que agradece ao departamento médico do São Paulo, em que diz sempre confiar.

O procedimento atípico aconteceu porque Carleto lesionou os ligamentos anterior e posterior no jogo contra o Atlético-MG, em 2 de junho. A previsão de retorno era de nove meses, mas ele caminha para voltar a jogar antes. E só o fato de saber que continuará exercendo a profissão já é um alívio para o lateral que sofreu nos primeiros meses.

O campo foi substituído pela cama. De lá, ele não tinha condições nem vontade de levantar para ir ao banheiro ou comer. E o sofrimento aumentou com a situação do time.

Carleto era titular quando se lesionou. Pouco depois, Ney Franco foi demitido, Paulo Autuori não resolveu os problemas da equipe, que ficou na zona de rebaixamento até o início do trabalho de Muricy.

A vontade do lateral era de estar no Morumbi, mas ele nem sequer conseguia ir do quarto para a sala:

– Eu falava para minha esposa me levar para a sala porque a televisão do quarto é muito pequena. Duas vezes eu tive de chamar o porteiro do prédio para me carregar até a sala. Essa fase do São Paulo me deixou muito chateado por não poder ajudar. Eu sofri muito, sofri dentro de casa, sofri calado. E é o pior sofrimento que tem porque você guarda pra você e não consegue soltar.

Assim como o time, o tempo e o trabalho foram curando Carleto. Ele não deixou o grupo de lado. Assistiu a preleções, ficou na concentração e agora trabalha durante as férias para começar os treinos com bola no início de 2014. Ele já corre no campo e se imagina entrando novamente no Morumbi. O sonho deve virar realidade, no máximo, em fevereiro.

Você achou mesmo que não iria mais conseguir jogar bola?
Toda lesão que envolve cirurgia é complicada. E hoje o joelho é o coração do jogador. Então, você imagina uma lesão muito grave, e eu tive uma um pouco mais. Eu nunca imaginava que iria conversar com uma mulher sobre transplante. Nos dois primeiros meses, pensei que não voltaria a jogar ou, se eu voltasse, era para tentar, tentar de novo. Eu passei um mês chorando de dor, mas estou muito melhor do que antes, minha perna está forte.

Qual foi a pior etapa?
Foram duas. Foram esses dois primeiros meses, que minha vida parou. E o que mais me machucou foi ver o São Paulo nessa situação e não poder ajudar. Sei lá, com carrinho, pedindo a torcida, um chute para o gol ou uma bola roubada. Esse foi o momento mais difícil porque isso afeta muito no tratamento. O São Paulo perde um jogo e o fisioterapeuta chega meio chateado. Eu pensava que não ia dar, a gente ia amargar, íamos acabar caindo, eu senti isso e foi muito difícil.

O que projeta para a disputa da lateral esquerda em 2014?
A gente vê muita coisa falando na imprensa, que o São Paulo vai atrás de tal jogador (clube tem interesse em Fabrício, do Internacional). Só que não posso pensar agora em ser titular da lateral esquerda. Eu tenho que pensar em me recuperar. Quando eu voltar, eu vou poder falar: “Agora eu voltei, agora vou poder brigar pela vaga.” E tem que dar todos os méritos pelo que o Reinaldo fez neste ano, chegou desacreditado, assim como eu cheguei quando o Cortez era titular. Não foi um ano perdido, foi um ano em que eu aprendi muito. Claro que sempre vou respeitar quem estiver, mas sei que posso voltar para a posição de onde eu acho que não deveria ter saído. Eu saí pela lesão.

Qual seu desejo para 2014?
Se tem uma pessoa que ama esse clube e sempre foi são-paulino sou eu. Então estou desenhando uma imagem de eu voltando ao Morumbi e jogando. Estou com isso na cabeça desde quando operei. Sei que vou voltar melhor do que estava. Meu maior presente para 2014 será poder entrar no Morumbi de novo e voltar a fazer o que estava fazendo, gols, honrando essas cores e dando alegrias. O ano de 2014, se Deus quiser, vai ser um ano de muitos títulos para o São Paulo.

Academia LANCE!, Rene Abdalla
Diretor - Instituto do Joelho do HCor e médico que operou Carleto:

O aloenxerto é a colocação de tendão de cadáver, como se fosse um transplante de coração, de órgãos... Ele é colhido, desinfetado, todo tratado para que não tenha contaminação. Ao invés de usar o tendão da pessoa, usa direto (o de outra). Isso minimiza a invasão da cirurgia, ao invés de recuperar e cicatrizar outra área. Permite que tenha recuperação mais rápida.

O tendão vem congelado, desinfetado, aí você descongela no momento da cirurgia. Ele vem um tendão bruto, recortamos ele e deixamos ele parecido com os ligamentos. Desenhado igual. Por artroscopia a gente implanta.

O procedimento é muito comum nos Estados Unidos, na Europa... Aqui tem poucos lugares que captam e coletam, que preparam o doador para o aloenxerto. Você pode usar o do próprio paciente. Mas pega a lesão do Héracles, do Avaí... Ele lesionou praticamente todos os ligamentos do joelho. Você usa isso (tecido de outra pessoa) e fica mais fácil.

O (ligamento) posterior do Carleto era frouxo, aí lesionou o anterior. Obrigatoriamente tem que reconstruir o posterior.