icons.title signature.placeholder Felipe Domingues
06/02/2015
08:18

Existe vida após o esporte? Essa é uma das maiores preocupações dos atletas, em especial pela falta de caminhos a seguir quando a aposentadoria chega. Porém, esse não é um problema para Paula Ishibashi, da Seleção Brasileira de rúgbi sevens (modalidade olímpica), que já pensa no futuro quando pendurar as chuteiras.

Ontem, em um evento da etapa de Barueri (SP) do Circuito Mundial, Paulinha, como é conhecida na equipe, se apresentou como a nova capitã da Seleção para esse torneio, em um esporte que, aos poucos, vem crescendo no país.

– A Olimpíada no Brasil e o rúgbi ser uma novidade, ajudaram (no crescimento). A Confederação Brasileira foi crescendo, trabalhando melhor a imagem da Seleção, os clubes foram crescendo... Foi uma mistura de tudo. Casou perfeitamente para evoluirmos e entendermos mais o rúgbi – avaliou Paula.

Para a atleta, ainda há um longo caminho para seguir até que o esporte se consolide, mas os bons resultados recentes, como o oitavo lugar no Circuito Mundial do ano passado, disputado em cinco etapas, as credencia a novos sonhos.

– Para alguns países, era uma surpresa ter a modalidade no Brasil. Quando nossa participação se tornou frequente, as pessoas passaram a conhecer o país. Não vamos só para participar e passear. Agora, para elas, o Brasil também tem rúgbi, não só futebol – disse antes de falar sobre o esporte no país:

– Algumas coisas ainda estão engatinhando. Até porque, culturalmente, não temos o rúgbi inserido. Acredito que, nessa Olimpíada e em 2020, vamos conseguir mais resultados positivos – afirmou.

Porém, o que acontecerá depois dos Jogos no Rio de Janeiro, em 2016? Para Paula, essa preocupação já pode até ter uma solução.

– Sou formada em Publicidade. Depois da Olimpíada, vou ter de me virar. Estou com 29 anos e jogo há 14. Se eu viver em função do rúgbi até 30 e poucos anos, o que vou fazer da minha vida? Não há um planejamento do atleta para o pós-rúgbi, então cada um tem de correr atrás do que é melhor. Preocupa não só a mim, mas a todas – finalizou.

Confira abaixo o bate-papo na íntegra com Paula Ishibashi:

1 - Quando começou?
Jogo na Seleção desde 2004 e atuo no SPAC (São Paulo Athletic Club). Participei das duas edições da Copa do Mundo, em 2009 e 2013. Comecei no rúgbi em 2000, aos 15 anos de idade.

2 - O que te fez jogar rúgbi?
Engraçado que, eu jogo no SPAC, e na época não tinham muitas meninas jogando, mais os meninos mesmo. Mesmo assim, não tínhamos torneios como hoje. Mas a forma como a gente recebe as pessoas no rúgbi é o diferencial. Mesmo você sendo novato, as pessoas te incentivam, querem que você jogue. Tudo isso foi importante. Não tínhamos torneios para jogar e nem meninas para treinar, mas era sempre divertido e gostoso estar ali com elas. Isso torna o rúgbi diferenciado.

3 - Mas o que te fez escolher o rúgbi?
Talvez porque eu não fosse boa no futebol (risos). Sempre gostei de esporte, mas me encontrei no rúgbi, assim que comecei a entender a estratégia do jogo. Encontrar espaços. E para mim é uma característica do jogo que faz diferença. Gostei da estratégia. E ter de derrubar o adversário para recuperar a bola é bem bacana. Quando você aprende a tacklear é bem legal!

4 - Você praticou outros esportes?
Eu jogava handebol no colégio, e até que era melhor. Mas nunca fui fiel de ficar treinando, igual sou no rúgbi, ele me despertou isso. Treinar, toda a terça e quinta, me preparar para torneios, me concentrar, isso é bem diferente.

5- Qual a responsabilidade de ser capitã do Brasil?
A responsabilidade é leve, porque as meninas no grupo me ajudam muito. Nada sobrecarrega, porque elas me ajudam em tudo. Inclusive fora de campo, todas são comprometidas. Não é uma super-missão, e sim uma honra.

6 - Vocês revezam na posição de capitã?
A gente não tem uma capitã fixa, porque antes ficava muito em cima de uma pessoa, que teria de lembrar de tudo e tal. Começamos a fazer um rodízio, e tem uma capitã da etapa. Quem está liderando bem o grupo na etapa, fica com a responsabilidade, e o treinador escolhe. Trabalhamos a questão da liderança de cada uma dentro do grupo.

7 - O rúgbi era desconhecido há três anos atrás. O que deu mais visibilidade a isso?
A questão da Olimpíada no Brasil e o rúgbi ser uma novidade ajuda muito. A Confederação Brasileira foi crescendo, trabalhando melhor a imagem da Seleção, os clubes foram crescendo. Foi uma mistura de tudo isso. Casou perfeitamente para que nós pudéssemos evoluir, e entender um pouco mais o que é o rúgbi. Hoje você ouve alguém te falando que viu uma reportagem sobre rúgbi, e isso é muito legal. Pessoas que nem sabiam o que era o esporte, estão comentando sobre isso.

8- O rúgbi ainda está engatinhando. O que dá para esperar de resultados?
Culturamente, não temos o rúgbi inserido, como na Nova Zelândia. A questão do esporte em si é muito difícil. Uso muito o exemplo dos Estados Unidos, onde desde pequeno você atua nos esportes, no colégio e na faculdade. Temos essa barreira que atrapalha um pouco. Mas a medida que vamos trabalhando, os resultados vão aparecendo. Acredito que, nessa Olimpíada e em 2020, vamos conseguir mais resultados positivos. Ainda é difícil, por exemplo, encarar a Nova Zelândia, a Austrália, bater de frente com elas. A habilidade que elas têm, vem muito da base que elas recebem no país. Aqui a gente começa tarde. Mas vamos vencendo isso com organização e trabalho.

9 - Você vê o Brasil um dia nesse patamar? De Austrália e Nova Zelândia?
Acredito que um dia sim. O trabalho talvez seja a longo prazo. Tem muitas questões fora da nossa área de atuação. Questões políticas, culturais, o rúgbi se tornar conhecido... Temos outros esportes mais influentes no país. Se conseguirmos, depois da Olimpíada, trabalhar mais e seguir investindo em cima do esporte, chegaremos no patamar das grandes seleções.

10 - Você ouve muitas comparações sobre o futebol americano e o rúgbi? Acha que o rúgbi subiu um pouco pelo sucesso da NFL?
Às vezes para explicarmos o rúgbi, recorremos ao futebol americano. As pessoas perguntam: "Mas é tipo futebol americano?". E a gente fala: "É tipo futebol americano, mas não tem nada a ver" (risos). Pensam pela bola ser oval, a questão do contato... Mas as regras são bem diferentes. É muito difícil comparar. Essa comparação acontece ainda por falta de conhecimento. Acho que mais pra frente isso vai acabar. A bola deixa todo mundo meio confuso (risos).

11 - Como vocês vêm esse torneio?
A Austrália é o melhor time dessa chave. Um time bem difícil, bem perigoso. Com a bola na mão elas são habilidosas e velozes. Fiji e China, já jogamos contra e ganhamos no Mundial. A China temos uma vitória e uma derrota, sempre chegamos perto. São equipes que estamos próximas a conseguir um resultado favorável. Nossa meta é chegar no Top 8 e disputar a Taça de Prata.

12 - Já jogou no exterior? Acha que isso faz falta para as jogadoras? Aprender outra cultura, outro jogo...
Não atuei. Acho que talvez ajude. Lá fora, elas jogam muito o rúgbi de 15, aqui só jogamos o sevens, até pela questão de não conseguirmos manter as meninas com uma rotatividade grande no clube. Ora por lesão, ora por não conseguirem pagar. O SPAC, por exemplo, tem uma mensalidade alta, e não é todo mundo que consegue arcar com isso. Para agregar todos, a gente tem que trabalhar duro. Uma ou outra ir para fora, ganha experiência. Tem algumas que já foram para lá, mas quando chegamos aqui, temos de nos adaptar ao que temos. Cada país tem sua característica, e o Brasil precisa achar a sua. Se nos basearmos só nos outros times, não vamos chegar na nossa cara.

13 - E qual a cara do Brasil hoje?
Acho que a gente tem encontrado. Temos um time mais habilidoso, tentamos chutar mais, temos passes em falso, enfim. Nossa característica é mais habilidosa. Um time que gosta de usar a velocidade nos espaços. Aos poucos a gente vem montando nossa característica.

14 - O que mudou na rotina de vocês nesses últimos dez anos?
Treinamos todos os dias juntas. A gente treina no campo, na academia, vê vídeos, faz fisioterapia, tudo juntas. Estamos mais entrosadas hoje. Antes, era difícil fazer um treino a cada mês. Primeiro tínhamos de juntar dinheiro pra isso, e era uma hospedando a outra em sua casa, não tínhamos tudo como temos hoje, tudo certinho. Hoje temos nutricionista, psicóloga, médico... Esse trabalho em conjunto em função da Seleção é bem diferente do que tínhamos em 2004.

15 - E qual o papel da Confederação nisso?
Eles correm atrás de patrocínios, sempre da melhor forma possível, até para despreocupar a Seleção. Hoje não preciso me preocupar com meu uniforme, porque sei que a Confederação vai fornecer, hoje temos um CT para treinar. Enfim, a Confederação sempre vai correr atrás de patrocínios e projetos para arcar com as despesas de tudo.

16 - E como são essas despesas? Vocês moram juntas, não?
Eu não divido com as meninas, mas temos uma casa e um apartamento. Na casa elas estão em oito meninas, no apartamento, tem seis. Então é aquela coisa, tem que dividir tudo. Fazer compras juntas, dividir tarefas, elas tem planilhas pra saber quem tira o lixo, quem lava a louça, elas tentam se organizar dessa forma. É muita gente morando dentro da mesma casa. Não estou lá direto, mas elas devem discutir algumas vezes (risos). Mas elas resolvem dentro da casa, nunca levam para o campo.

17 - Dá para sobreviver só com o rúgbi hoje?
Na verdade, a maioria das meninas é formada. Mas todas nós largamos para viver em função do rúgbi. É bem difícil. A gente tem de se virar para ir aos treinos. Então, todos sentimos no bolso como é. Hoje, não conseguimos ter uma carreira em paralelo ao rúgbi.