icons.title signature.placeholder Bruno Andrade, Fellipe Lucena e Thiago Ferri
04/02/2015
07:05

“O Palmeiras”, “nós”, “nossos profissionais”, “nossa equipe”... Alexandre Mattos tornou-se o centro das atenções nos últimos dias, mas nem por isso ele se coloca como único ou principal encarregado pela reestruturação do futebol do Verdão. Sem deixar se levar pela fama de “Mittos”, o dirigente alviverde sabe que no futebol a "alegria dura apenas 30 segundos" e considera que o fenômeno de 2015 no clube não foi as 18 contratações, mas, sim, a explosão no número de associados do programa Avanti (passou de 90 mil).

Camisa 10 nos tempos de várzea e responsável pela montagem do elenco do Cruzeiro bicampeão brasileiro, o mineiro Mattos agora é paulistano. O sotaque permaneceu, mas, na correria do trabalho, engordou e perdeu cabelos, tudo isso para ajudar a recuperar a credibilidade do Verdão, e fazê-lo voltar a brigar de igual para igual com os rivais também nos bastidores.

LANCE!Net: Na correria para montar o novo elenco do Palmeiras, quanto já gastou com telefone e gasolina, quantos almoços já perdeu...?
Alexandre Mattos: Não (risos)... Quando você faz um trabalho que você gosta, e no meu caso eu gosto muito, é normal. Eu amo o que faço, por isso é tudo muito prazeroso. A gente faz o trabalho por amor, não tem isso de números exatos. O que tem é um profissional que gosta muito do que faz. Mas estamos apenas no começo, ainda tem muita coisa pela frente para atingirmos o objetivo principal, que é montar um time competitivo.

L!Net: Todos jogadores que chegaram falaram de “projeto”. O que você fala para os jogadores na hora de contratar? Se puder detalhar...
AM: É bom deixar claro uma coisa: a competição é normal dentro do mercado (de negociações). O Palmeiras, por ser um grande clube, vai atrás de grandes jogadores. O Palmeiras está mostrando que tem valor, camisa, tradição e estrutura. E vale ressaltar tudo o que o presidente fez também, e lembrar que ele recebeu muitas críticas. Talvez críticas técnicas, jamais administrativas. O Palmeiras, hoje, é muito bem administrado. Jogadores e empresários, eles observam isso, eles querem profissionalismo. A gente tem conseguido falar um pouquinho melhor a parte técnica e colocar bem firme os interesses daquilo que o Palmeiras imagina atingir no futuro. O projeto vai dentro daquilo que o Palmeiras imagina: uma arena linda que nós temos, uma torcida de 16 milhões de pessoas, uma camisa, uma tradição e uma estrutura muito boa.

L!Net: O Palmeiras trouxe 18 jogadores por causa da tradição e da estrutura... Mas muitos colocam as negociações na sua conta. Te incomoda ou te deixa feliz?
AM: Eu sou mais um que chegou nesse ano. Então, na verdade, não são apenas os jogadores que chegaram. Chegou treinador novo, chegou gerente novo, chegou diretor novo, chegou um coordenador científico novo... Está tendo uma mudança na estrutura do Palmeiras, uma mudança muito benéfica. O fato de as pessoas imaginarem que um diretor executivo só contrata e dispensa... Na verdade, o diretor executivo tem uma função muito maior do que apenas contratar. Quer dizer que agora eu posso entrar de férias, então? Não é isso. O torcedor do Palmeiras criou uma empatia por ver que eu sou um cara que veste a camisa, um cara que tem muita paixão pelo que faz. A gente mexe com emoção. Eu quero que o Palmeiras ganhe. O Palmeiras é a grande vitrine. Não tem herói aqui dentro. Aqui tem as pessoas que trabalham, e trabalham muito pelo clube.

L!Net: Como foi processo de montagem do time. Como é seu scout?
AM: Primeiro: nunca sozinho. Por isso a gente tem um departamento de análise de desempenho, por isso a gente tem o Cícero (Souza), que é um super-gerente e um fenômeno. E a gente tem uma larga experiência nisso, nós temos banco de dados e também confiamos em pessoas do mercado. E, além disso, tem a questão da oportunidade. Nós estamos dando oportunidade para alguns desses atletas para, realmente, comprovarmos aquilo que temos de expectativa. A gente sabe que não é só contratar. O atleta, na verdade, precisa se envolver no projeto e fazer por merecer a permanência dele aqui. Isso é processo que a gente vem criando de know-how. Mas nunca sozinho. Tenho a felicidade de ter grandes profissionais ao meu lado.

L!Net: Você não trabalha sozinho, mas a torcida já te chama de “Alexandre Mittos”. Como encara a fama?
AM: Isso aí, na verdade, é a exposição que o Palmeiras dá. Porque se você buscar (o apelido), isso vem de longa data, isso começou lá atrás quando a gente reformulou o Cruzeiro. E, de novo, a “gente”, porque não é a apenas uma pessoa que faz. Eu coloco muita paixão e visto a camisa mesmo. Isso tudo (elogios) só me traz mais responsabilidade. Se existe a confiança de milhões de pessoas no nosso trabalho, isso faz com que a gente tenha uma responsabilidade muito maior. Não é que há incômodo, mas existe uma situação em que você deita a cabeça no travesseiro e sabe que essas pessoas estão confiando muito no seu trabalho.

L!Net: Quais são seus defeitos?
AM: Tenho vários... A gente vai evoluindo e amadurecendo. As pessoas que me conhecem sabem, a gente vai amadurecendo, sabendo lidar com situações difíceis e percebe que no futebol os momentos de alegria duram apenas 30 segundos. Na grande parte do tempo, é pancada, porrada, crítica, cobrança. Temos que saber lidar. Falar de defeitos, não sei dizer. Tenho vários e convivo com eles, tentando melhorar cada vez mais.

L!Net: Você disse que engordou e tem encontrado cabelos brancos por causa da correria do trabalho... Encontra tempo para relaxar?
AM: Tenho que encontrar, isto era um defeito. Temos que ter tempo, distrair um pouco, até para render mais no trabalho. Não tenha dúvida que procuro fazer isto muito bem.


Alexandre Mattos chegou ao Verdão com status de reforço de peso (Foto: Miguel Schincariol)

L!Net: Hoje você tem recebido elogios e virou referência no meio da gestão esportiva. Mas está preparado para as críticas?
AM: Claro. Não comecei a minha carreira agora. Mas referência é o Palmeiras. O que todo mundo comenta é o Palmeiras que vem se remodelando. Mas foi o que eu disse: a alegria dura 30 segundos no futebol. O resto é crítica, cobrança, pancada, algo normal. Quem não souber lidar com isto não pode trabalhar no futebol.

L!Net: Já deu autógrafos?
AM: As estrelas brilham dentro de campo, são os jogadores, o nosso treinador, a nossa comissão técnica, o nosso presidente... A estrela é o cara que faz o gol, que dá o passe, que defende, que briga pela bola... Eles dão alegrias ao torcedor. O Palmeiras é uma unidade que vai brilhar se conseguir as vitórias.

L!Net: Como era o Alexandre Mattos antes de trabalhar com futebol?
AM: Joguei em categoria de base, fui professor de Educação Física e mexia com academia. Era apaixonado por futebol, tinha o sonho de trabalhar com o futebol e corri muito atrás para hoje ter a honra de estar neste clube grandioso que é o Palmeiras.

L!Net: Jogava bem futebol?
AM: Já joguei, hoje não...

L!Net: Qual posição?
AM: Camisa 10, tá me tirando? Era craque (risos)... Tô brincando.

L!Net: Você, no início de trabalho no Cruzeiro, contratou bastante. Nem todos deram certo. Outros deram, tanto é que o time foi campeão. Vale a pena contratar bastante, ser campeão e ver a maioria não ser aproveitada?
AM: No futebol você vai errar sempre. Não existe clube no mundo que acerta 100%. O que você tem que fazer é acertar mais do que errar. Errar, eu estou te falando, nós vamos errar, errar muito. Alguns jogadores vão dar certo, outros não. Porque, na verdade, são seres humanos com necessidades, com capacidades psicológicas, capacidades físicas, e cada um se ajusta. Então errar, nós vamos errar, não tenha dúvida. E vamos continuar errando, né? O que nós temos que fazer é acertar bem mais do que errar. Eu acho que no Cruzeiro foi assim. Vieram erros, mas houve acertos muito maiores do que erros. Não tem um segredo no futebol. A sequência facilita o trabalho, mas o Palmeiras precisava dessa reformulação. A imprensa mesmo vivia dizendo que o Palmeiras tinha que mudar todo o elenco, tinha que mudar tudo. E nós fizemos isso. O que foi feito não é o certo, mas era o necessário.

L!Net: Com a chegada de 18 jogadores, a chance de errar é maior do que a de acertar, certo?
AM: É, então é por isso que você tem que minimizar os riscos e tem que saber quem você está contratando. Erros vão acontecer e a gente tem que saber que a gente tem que acertar mais do que errar, ninguém acerta 100% no futebol. A única certeza que você tem no futebol é que se você não fizer tudo absolutamente com convicção, com a certeza de fazer correto, você não vai ter chance nenhuma das coisas acontecerem bem. Porque mesmo fazendo tudo certo, pode ainda não dar certo.

L!Net: Se o Palmeiras não ganhar nada, neste ano ou no próximo ano, vai ser uma surpresa?
AM: O Palmeiras já vem ganhando. O fenômeno não é o que está acontecendo aqui, o fenômeno é o que está acontecendo em números de sócios-torcedores. O Palmeiras já é hoje o segundo no programa sócio-torcedor. O Palmeiras já ganhou a sua credibilidade no mercado, o Palmeiras hoje é visto pelos grandes jogadores e pelos grandes agentes como uma porta boa. Hoje o Palmeiras já ganhou muita coisa, o Palmeiras resgatou a alegria do torcedor. É claro que ainda precisamos colocar isso em prática dentro de campo. Então, eu acho que não (se surpreender caso não conquiste título), eu acho que nós vamos fazer um trabalho sério. Prometer títulos ninguém jamais vai fazer isso, porque você nunca tem certeza de nada. O que a gente tem certeza é que nós vamos cobrar e exigir muito que esse time dê muito orgulho. E quando digo orgulho, não necessariamente estou falando de ganhar títulos. Mas para ganhar do Palmeiras vão ter que correr muito.


Alexandre Mattos virou 'Alexandre Mittos' nas redes sociais (Foto: Reprodução)

L!Net: Hoje o Palmeiras briga de igual para igual com os adversários?
AM: Já deu demonstração disto. Isso era o que rapidamente tínhamos de fazer: ter a competência de recolocar o Palmeiras no mercado. E conseguimos porque o presidente arrumou e segue arrumando a casa.

L!Net: Reformulação do departamento médico, novos aparelhos, novos profissionais... Tudo isso partiu de uma avaliação sua?
AM: Nunca só do Alexandre. Isso que a gente tem que tocar muito forte. O Alexandre veio para ser mais um e para somar. Para acontecer uma mudança, da maneira que vem acontecendo, as primeiras pessoas que opinam são os profissionais da casa, entende? Eles conhecem o Palmeiras muito mais do que qualquer um e muito mais do que o Alexandre. Então, a gente se baseou, escutou muita coisa, conversamos com o presidente, que é um presidente que tem modernidade na cabeça, que sabe que precisa investir para conseguir o resultado. O Palmeiras está construindo um local bem moderno, daqui a pouquinho, acredito que até o fim do ano, as coisas devem acontecer e evoluir para nossa obra andar. E não tenha dúvidas que com isso o Palmeiras vai ganhar e vai estar muito forte e muito firme por muitos anos.