icons.title signature.placeholder Raphael Martins
30/03/2014
08:00

O que um jogo entre duas equipes do interior sergipano, teria a ver com o maiorclássico do futebol argentino? A princípio nada. A não ser que se trate de um Boca Junior, sem o "s" mesmo, e River Plate. Pois o duelo entre os homônimos dos famosos Boca Juniors e River Plate serviu de material para o cineasta argentino Santiago Dulce promover uma campanha de paz em torno doSuperclássico original, batizada "El Otro Superclásico".

Neste domingo, Boca Juniors e River Plate se enfrentarão mais uma vez na Bombonera, em Buenos Aires. Como sempre ocorre, há o temor de confrontos violentos. Não só entre as torcidas rivais, mas também entre setores dissidentes de uma mesma torcida.

A ideia de Santiago Dulce é mostrar ao torcedor argentino que o Superclássicopode ser de paz, e que a "destruição" do rival só servirá para enfraquecer oclássico.

- É uma história mais de contrastes que coincidências. Os dois rivais de Sergipe vivem em perfeita harmonia. Um sabe que depende do outro para sobreviver. Então me deparei com algo que há muito tempo nós perdemos no futebol argentino, que é o respeito pelo rival - disse ao LANCE!, Santiago Dulce.

Video conta histórias da versão brasileira de clássico argentino

A intenção é que a campanha, que chegou a ser veiculada na TV argentina, se repita a cada Superclássico. Na opinião do cineasta, a Argentina vive um momento crítico na questão da segurança nos estádios de futebol. Santiago Dulce critica a medida de impedir a entrada de torcedores visitantes nos estádios.

- Infelizmente, na Argentina, quem está pagando o preço pela falência do estado são os torcedores de bem. Ao invés de tirarem 100 ou 200 pessoas que causam problemas dentro dos estádios, resolveram tirar 10 mil não-violentos. Claro que, no passado, também havia insulto, uma confusão isolada, mas havia também respeito ao adversário - disse o cineasta.

Uma lição de convivência que os primos distantes, e praticamente desconhedicos, do interior de Sergipe poderão dar nos gigantes da capital argentina.

Bate-Bola
Santiago Dulce, cineasta

Como você chegou aos dois clubes?

Primeiro eu soube, por um amigo, que havia um Boca Junior. Pesquisei e, para minha surpresa, descobri que havia também um River Plate. Achei incrível, dois dos maiores clubes argentinos sendo homenageados no interior do Brasil.

A partir de que momento surgiu a ideia da campanha anti-violência?

O Boca venceu um Superclássico no Monumental, sem a presença de sua torcida. Venceram, e não havia ninguém nas arquibancadas comemorando. Então quando vi no Brasil esse clima tão inocente, uma verdadeira festa, a ideia de paz me bateu. Um clube precisa do seu rival para sobreviver, para manter viva a rivalidade. Isso é a essência do futebol.

Em sua opinião, o que fez a rivalidade entre torcedores chegar ao ponto que chegou na Argentina?

Creio que o problema do futebol argentino passou a ser quando a política entrou no circuito. Muitos políticos entram na gestão dos clubes para ganhar força política. Com três mil votos um indivíduo pode ser presidente do Boca Juniors, o que é mais importante que ser governador de muitas províncias na Argentina. Então, nesta posição, um dirigente com ambições políticas utiliza estes torcedores organizados para atos políticos.