icons.title signature.placeholder Daniel Bortoletto e Walter de Mattos Junior
25/03/2014
07:03

Ary Graça Filho, presidente da Federação Internacional de Vôlei, quebrou o silêncio e, em entrevista exclusiva ao LANCE!Net, deu suas explicações para a recente crise que se instalou no esporte no país.

Em uma série de reportagens da ESPN Brasil, a relação entre CBV e Banco do Brasil foi colocada em xeque. Segundo a emissora, R$ 20 milhões foram pagos pela entidade, após a renovação do último contrato com o banco (valor estimado no mercado em R$ 350 milhões por cinco anos), para as empresas S4G (de Fábio Azevedo) e SMP (de Marcos Pina), que intermediaram o negócio. Ary não nega a participação dos dois: o primeiro trabalha atualmente no alto escalão da FIVB, enquanto o segundo deixou a superintendência da CBV após as reportagens. Mas contesta os valores.

Em quase duas horas de entrevista, o dirigente dá sua versão, admite contradições e sugere um complô para assumir o controle da entidade.

Da noite para o dia, sai o festejado Ary, que chegou a um posto internacional da maior importância, deixou o vôlei no Brasil como uma modalidade gloriosa, e entra alguém que está no meio de acusações sobre irregularidades, favorecimento a amigos. Como explica?
Me pegou de surpresa. Não imaginava que após a minha saída fosse acontecer isso. Houve uma briga pelo poder. A verdade é essa. Não só interna, mas com inspiração externa. Como diz o velho ditado: “o gato sai, os ratos fazem a festa”, de uma maneira que eu nunca imaginei. Deixei estrutura bem montada, pensei que tudo iria correr tranquilamente. Não foi o que aconteceu. Houve essa briga interna e uma aproveitamento deste pessoal para tomar o poder.

Você fala em disputa pelo poder. O nome do Bernardinho foi citado, em uma reportagem do Erich Beting, no site Máquina do Esporte, como um dos responsáveis pelo dossiê. É uma surpresa para você?
Uma corrente diz que temos antipatia mútua, mas não é verdade. Eu a vida inteira gostei e continuo gostando dele. Se da parte dele o sentimento não é o mesmo, eu não sei. Mantivemos um relacionamento profissional, cumprindo o combinado, tudo certinho. O nome dele ter surgido, para mim, é uma surpresa. Gostaria de ter confirmação disso.


Marcos Pina deixou a CBV após as denúncias em fevereiro
(Foto: Divulgação/CBV)

   

As denúncias da ESPN Brasil apontam R$ 20 milhões em pagamento de comissão para empresas do Fábio Azevedo e do Marcos Pina. Quanto você pagou para eles?
Não foram R$ 20 milhões e não é comissão. Vou explicar: a oferta do Banco do Brasil girava em torno deR$ 20 milhões a 24 milhões por ano para a quadra, e mesmo valor para a praia. Combinei o seguinte com o Fábio, em contrato. Se você aumentar isso de R$ 30 milhões a R$ 50 milhões,sua remuneração por desempenho será de R$ 1 milhão. Se ele arrumasse R$ 49 milhões, era R$ 1 milhão para a empresa dele. Se foi R$ 31 milhões, ganharia o mesmo. Mas ele mais o Pina aumentaram em 70% o valor, assinando o maior contrato da história do esporte olímpico.

O contrato tem duração de cinco anos. Então você pagou R$ 2 milhões por ano para a S4G?
Não. R$ 2 milhões pelo total e mais nada. Não tem nada de pagamento anual. O trabalho dele, neste caso, foi
encerrado assim que o contrato do Banco do Brasil foi fechado.

E para o Pina?
O contrato dele era diferente. Como ele era encarregado por prospectar, além de gerir e estar com todos os
patrocinadores durante o prazo do contrato, ele ganharia R$ 2 milhões por ano, já que tinha o acompanhamento do projeto, diferentemente do Fábio. Em cinco anos, Pina ganharia R$ 10 milhões. Paguei R$ 2 milhões até agora e mais nada. Mas era para ele ganhar bem mais.

Como assim?
O contrato da empresa do Pina previa pagamento de 20% sobre os valores fechados de patrocínio. Fiz este contrato, mas depois mudei.

Então você já pagou R$ 2 milhões para um e R$ 2 milhões para outro. A conta não fecha, já que você disse, em nota oficial, que pagou de 3% a 4% dos contratos.
Existem mais R$ 2 milhões, totalizando R$ 6 milhões já pagos, para outras empresas que trabalharam no acordo.

Quais são essas empresas?
Elas me pediram para não serem citadas.

Mas o que elas fizeram?
Cuidaram da parte jurídica, também fizeram pesquisas de valorização de quanto valia a marca da CBV para negociação com os potenciais patrocinadores.

Mas voltando ao Pina. Ele ainda tem R$ 8 milhões a receber. Ele não vai cobrar o restante?
Pagamos R$ 2 milhões e não pagamos mais. Nos chantagearam durante oito meses.

Quem chantageou?
Um grupinho lá.

Você não vai dizer quem estava chantageando?
Não. Eu não posso provar.

Foi diretamente com você?
Não, nunca.

Chegou através de quem?
Do Pina, que era o superintendente, relatada ao presidente Toroca.

   
Fábio Azevedo foi superintendente
da CBV (Foto: Divulgação)

O que os chantagistas queriam?
Tomar o poder. A alegação deles é que é para moralizar. Em tese, moralizar o que está moralizado.

Você errou ao fazer o contrato com o Pina, que previa 20% sobre os acordos fechados?
Não imaginava que o acordo com o Banco do Brasil chegaria aos valores que chegou. Por isso foi mudado. Que fique claro: a mudança só beneficiou a CBV, como sempre.

Me parece que há uma contradição. Você confirmou em nota oficial que negociava diretamente com o Banco do Brasil. Mas disse agora que o Pina negociou.
É verdade. Pelos valores envolvidos, existe um trabalho técnico muito grande. Desta vez eu não fiz. Fiz no
passado, quando os valores eram bem menores. Agora eu contratei as empresas para fazerem toda essa
parte. Eles negociaram cláusula por cláusula.

A discussão é se existe um benefício aos amigos do Ary nesta negociação...
A negociação com o Banco do Brasil foi feita pelo Pina. Eu só participei no finalzinho. Posso provar que ele e o Fábio negociaram. Tenho ata das reuniões, com o diretor da época (Marcos Medeiros), o gerente antigo do BB, um advogado deles.

O Banco do Brasil reagiu com uma nota oficial ameaçando romper o contrato. O que você acha queirá acontecer?
Acho que não vai haver problema nenhum na relação, pois o banco está atendido em todas as cláusulas do
contrato.

A consciência, então, está tranquila?
Aqui não tem nada ilegal. Estão questionando que é muito, estão questionando moralidade e que dei dinheiro a mim mesmo ou para o Banco do Brasil. Não existe nada.

Mas tem algo imoral?
De jeito nenhum.

Romário já falou na Câmara dos Deputados em CPI...
Acho que ele se precipitou, se baseando no que saiu na imprensa. Vamos provar que não é verdade. Não pagamos R$ 20 milhões. Vai na contabilidade da CBV e veja que ninguém pagou isso.

Você foi questionado por dirigentes da FIVB?
Nada. Fiz uma reunião na outra segunda-feira lá em Lausanne (Suíça). Fábio também tomou a mesma iniciativa com a equipe dele. Vou chamar o Comitê Executivo e dar a explicação.

Você acha que, olhando em retrospectiva, no momento em que foi para a Federação Internacional, não poderia ter deixado a CBV? Dois chapéus diferentes podem atrapalhar...
Na verdade são até três, pois tenho a Sul-Americana. Em março do ano passado, enviei uma carta,que está consignada, me licenciado do cargo. Em dezembro, depois que vi que o Toroca estava no comando efetivo da operação, entreguei a carta em 20 de dezembro.

Entregou pessoalmente?
Pessoalmente, em um jantar com o Toroca e com o Pina. Então nao procede dizer que sai devido à pressão das acusações.

Como você está se sentindo, pessoalmente?
Traído. É a sensação mais desagradável do mundo saber que amigos seus estão lhe traindo. Pessoas que você ajudou a ganhar muito dinheiro, fama, agora estão se voltando contra você.

Você sempre apareceu como nome para assumir o COB. Vê alguma tentativa de minar isso?
Alguém tem algo pessoal contra mim para fazer esse ataque. Me pergunto por qual motivo? Todo mundo que eles queriam que saísse da CBV, já saiu. Já botaram os homens deles lá dentro. O que mais eles querem mais? E que fique claro: nunca fui pretendente ao COB, única e exclusivamente por respeito ao Nuzman. Nunca serei contra o Nuzman.

Você é ou foi sócio do Marcos Pina ou do Fábio Azevedo?
Está maluco? Em nenhuma circunstância.