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30/06/2014
18:04

Torcedor, imagine se seu filho de 11 anos sair de casa em um domingo de manhã, sem avisar ninguém, e seguir para o Morumbi para torcer pelo time do coração. Primeiramente, ele teria de encontrar as conduções até o estádio, depois, teria de entrar, o que atualmente é proibido sem um responsável adulto. E ainda teria de pagar ingresso, já que no estádio do São Paulo a gratuidade é até 7 anos. Pois isso tudo aconteceu com Mauro David Cukierkorn, que tinha essa idade na final do Campeonato Paulista de 1971, no dia 27 de junho, entre o Tricolor, de Pedro Rocha, Gérson e Pablo Forlán, e o Palmeiras, de Ademir da Guia, Leão e Luís Pereira.

- Naquela época, São Paulo era completamente diferente do que é hoje – esclarece Mauro, contando como foi essa aventura.

- Naquele dia, eu, um amigo de 12 anos e um primo de 13 resolvemos ir ao estádio. O jogo era só às 16h, como todos da rodada, mas saímos cedo de casa, no bairro do Bom Retiro, e fomos até o Vale do Anhangabaú, que não tinha nada a ver com o que é hoje. Não havia nem aquele viaduto ao lado da Câmara Municipal. No vale, pegamos o Azulzinho, como era conhecido o antigo ônibus da CMTC, que era gratuito, e fomos até o estádio. Chegamos lá às 11h, entramos sem pagar e ficamos atrás do gol do lado do portão de entrada. Eu só tinha dinheiro suficiente para comprar um cachorro quente e um refrigerante – disse Mauro, que ficou no estádio até depois do jogo, por volta das 18h.

Com um gol de Toninho Guerreiro, aos 5 minutos de jogo, o duelo terminou 1 a 0 para o São Paulo, que se sagrou bicampeão no estádio com 103.887 pagantes. O jogo ainda entrou na história do Estadual por causa de uma polêmica envolvendo o árbitro Armando Marques, que anulou um gol legítimo do palmeirense Leivinha. Seria o empate do Alviverde, mas, mesmo assim, não adiantaria, já que o Tricolor poderia empatar para ficar com o título.

- Não foi o maior público que fui ao estádio, mas era impressionante.

Mauro, atualmente professor da PUC-SP e produtor musical, conta que, quando seus pais descobriram onde ele estava, sua mãe chegou a ligar para o estádio para o sistema de som chamá-lo, mas não conseguiu.

- Na volta, sobrou dinheiro para comprar a “Gazeta Esportiva”, jornal que saía logo depois dos jogos. Em casa, quando cheguei com a camisa do São Paulo, minha mãe ficou toda feliz por voltar são e salvo – relembra.

UMA OUTRA REALIDADE

Lembrando-se de sua aventura de garoto, Mauro explica que sente mais falta é da tolerância entre as torcidas, que admiravam e respeitavam umas às outras.

- O que me incomoda muito atualmente é o não reconhecimento do outro nos estádios. A rivalidade passou a ser quase fascista, já que um não reconhece a vitória do outro. E o pior é quando a torcida fica gritando na arquibancada contra torcidas que nem estão lá. Não faz o menor sentido. Eu me sinto ultrajado toda vez que vou ao estádio. Não estou pedindo padrão Fifa, mas ser tratado como cidadão – desabafa.

Para demonstrar o seu amor pelo futebol e o reconhecimento aos “adversários”, Mauro passou a escrever poemas para exaltar os jogadores rivais.

- Falar do seu próprio time qualquer um fala. Mas eu queria falar dos outros, por isso, fiz poemas para Ademir da Guia, Zico, Pelé e Reinaldo, além de outros – conta o são-paulino.

Confira abaixo algumas das homenagens:


Augusto da Guia

Ele jogava no meu arquirrival
Palmeiras
Mas como não admirá-lo
Seu futebol
É só pensar em Zidane
Melhorado, é claro
Era o maestro
De uma academia memorável
Que quando duelava
Com a orquestra de Pelé
O futebol aplaudia
Ainda duelaste
Com o genial
Pedro Virgílio Rocha
O 10 do meu tricolor
Ademir da Guia
O divino
Falso lento
Que talento
Permita saúdá-lo
Como Augusto da Guia
Aquele que glorificou
O futebol
Arte.


O cavalheiro dos gramados

Muitos reis
Tiveram mais súditos que você
Mas nenhum teve entre seus súditos
Federico Fellini
Foste o rei de Roma
Mas antes disso
Comandara um dos maiores
Times da história do futebol brasileiro
Fizeste do Internacional
Glória do desporto nacional
Era a elegância em campo
Flutuava no gramado
Misturava nobreza
Com a garra plebeia
Me deu a honra
De em um breve momento
Vestir a camisa do meu
Tricolor Paulista
Não foste o maior do mundo
Mas foste único
Pois, afinal
Não veremos outro
Cavalheiro dos gramados
Paulo Roberto Falcão
Obrigado por tê-lo visto jogar.


O artilheiro da fidelidade

Meu pai
Assistiu à estreia de Leônidas
Eu estava no nosso
Primeiro título
De Libertadores
E meu filho
Tem o prazer
De tê-lo como
Primeiro ídolo
Um time começa
Pelo goleiro
O do são Paulo
Com Rogério Ceni
Para meu filho
Não és um goleiro
És um artilheiro
Da fidelidade
Um armador
Da paixão
Do torcedor
És o recordista
Da história
Das emoções
Do tricolor do Morumbi
Valeu ídolo
Da fidelidade
Anacrônica
Valeu por cada sorriso
Que marcou a face
De meninos torcedores.


Saci Pererê

A história não lhe foi justa
E meu Glorioso São Paulo
Ajudou a construir esta injustiça
Em 1977 merecias o título
Mas naquela grande final
Nem lhe deixaram entrar em campo
Meu tricolor foi campeão
Legítimo, estava na regra
Justo?
Isto é uma outra história
Anos depois
No palco das multidões
Contra o místico Flamengo
Provaste que Saci Pererê existia
E jogava futebol
Mas como saci lendário
Foi perseguido e expulso
Do espetáculo
As inúmeras cirurgias
De meniscos
Encurtaram sua carreia
Para quem não viu
Era uma espécie de síntese
Entre o futebol de Romário e Careca
Reinaldo
Permita-me lhe chamar de ídolo
Obrigado
Saci pererê
Do palco das multidões.


A utopia Coimbra

Mal eu sabia
Que naquela noite
Seria testemunha
De uma das maiores exibições
Do mais famoso
Galinho brasileiro
O Morumbi estava lotado
O nosso tricolor
Era comandado
Por uma dupla de zaga
Fantástica
Oscar e Darío Pereyra
Mas eles foram incapazes
De evitar
O inacreditável
Placar final
Do confronto
São Paulo 3X4 Flamengo
Naquela noite
Zico nos deu
O sabor da derrota
Mas naquela noite
A derrota
Teve outro sabor
O sabor
Da utopia
Arthur Antunes Coimbra.
Zico
O Morumbi agradece
Por ter sido palco
De uma de suas inúmeras
Obras primas
Valeu utopia Coimbra!


Majestade Rivelino

Foste o ídolo de Maradona
O reizinho do parque
Na copa de 70
Tiveram que achar
Um lugar para você
Ganhaste a camisa 11
Chegaste a treinar
No meu tricolor
Mas os dos emirados
Jogaram água
No nosso chopp
Ah Roberto Rivelino
Não jogaste no São Paulo
Nunca foste campeão
No Morumbi
Nem com seu time do parque
Mas o tricolor carioca
Lhe deu títulos merecidos
E por sua causa
Meu irmão se tornou torcedor
Do time da marginal sem número
Riva
Só quem o viu jogar
Sabe que você
Era majestade em campo.

(Prof. Mauro David Cukierkorn)