icons.title signature.placeholder Eduardo Moura
11/12/2013
08:03

Há 30 anos, o torcedor gremista explodia em alegria e orgulho. Extasiado, até anestesiado, poderia gritar aos quatro ventos que era campeão mundial. Nesta quarta-feira, completa 30 anos o título mundial conquistado no Estádio Nacional, em Tóquio, na vitória por 2 a 1 sobre o Hamburgo. Os protagonistas daquela partida estarão na Arena, à tarde, para um jogo festivo. O LANCE!Net resgata histórias da preparação gremista, que envolveu uma viagem do então treinador Valdir Espinosa à Alemanha para observar o Hamburgo, motivação por conta da arrogância dos alemães e a "multiplicação" de gremistas.

A preparação para o Mundial em Tóquio começou no dia seguinte ao título da Libertadores, conquistado sobre o Peñarol. O tempo era bem diferente. Não havia informações abundantes sobre o futebol europeu. Ainda mais sobre uma surpresa, que venceu a Juventus de Platini na final da Copa dos Campeões. Espinosa foi para a Alemanha acompanhado do preparador físico Ithon Fritzen para observar os gringos. Ficou decidido que a diretriz do que seria o Grêmio no outro lado do mundo: qualidade.

- Assisti o jogo acompanhado do nosso preparador físico. Depois, o comandante da Varig que fazia aquele voo na época trouxe uma fita e mostramos para os jogadores. A preocupação era fazer o time jogar. Tínhamos o conhecimento dos pontos fortes, era se impor sobre o Hamburgo. Começamos a fazer o trabalho para isso - relembrou Espinosa ao LANCE!Net.

O comandante viu um empate. A escola gremista era muito parecida com o que os alemães colocavam em campo. Força pura. O Tricolor usava deste expediente, também. Mas passou a apostar na técnica do meia-atacante Mário Sérgio e do ponta Paulo Cesar Caju, ambos contratados para a competição.

- Nós tinhamos uma característica de marcação, do Sul, de força, do Grêmio. Só que essa mesma característica tinham os alemães. Empatanos na força e nos ganhariam. O pedido da contratação do Mário, que qualificaria mais, do Paulo Cesar também. Chegou o que a gente queria, que era contrariar o que o Hamburgo fazia. Colocaríamos técnica - revelou Valdir Espinosa.

Multiplicação de gremistas

De León repete gesto com taça (Foto: Divulgação)

No vestiário, antes do jogo, e na preparação, o clima era de confiança extrema. Seriedade. Foco. Os gremistas não queriam chegar tão longe para deixar escapar a chance de subir ao último degrau - Hugo De León criou a metáfora da escada ainda na Libertadores. O resultado foi uma multiplicação de tricolores em campo, por conta da cumplicidade do elenco. Mesmo que nos treinamentos antes do jogo, Renato e PC Caju tenham discutido.

- Era uma clima de confiança, um olhando para o outro sentia que o cara do lado ia ajudar. E ajudava também. Futebol é jogado com 11 contra 11. A equipe tinha que ter 22. Jogar tudo e mais um. Assim, quando um olhava para o outro, sentia que ia dar tudo e mais um. Que não eram dois, eram quatro. Fomos 22 em campo - completa o treinador.

A cumplicidade pode ser vista em campo. Paulo Cesar Caju foi a isca, por ter passagem na Europa, e atraiu a marcação. Mário Sérgio jogou livre. Colocou a qualidade que Espinosa planejou em prática. Renato infernizou na ponta direita. Quase ficou fora do Mundial, por problemas disciplinares. Mas honrou a palavra ao presidente Fábio Koff. Marcou os dois gols e conseguiu conduzir o time ao maior título da história. Com a ajuda de todos os companheiros, claro.

- A equipe estava bem confiante, até porque o foco era muito grande, transmitia uma confiança. Para todos. Você olhava para cada um, todo mundo ligado, dava uma confiança para a partida - confirma o goleiro Mazaropi.

O camisa 1 elege como o lance do jogo, para ele, a defesa quase no final da prorrogação, quando defendeu finalização de dentro da área. Via muito pouco - tinha De León e China à sua frente -, mas no reflexo, voou para evitar o gol de empate alemão.

Arrogância do Hamburgo

No hotel, o tanque de combustível do Grêmio era cheio constantemente. Mas não por comida. A motivação era cada vez maior. O Hamburgo estava hospedado no mesmo local. E nenhum jogador alemão direcionou a palavra a um gaúcho. Nariz empinado, não consideram o Tricolor uma ameaça. E os jogadores conversavam para provar o contrário. O técnico da equipe alemã, Ernst Happel, não cumprimentou Valdir Espinosa, mão gentil estendida - e que ficou ali, sem resposta. O ato irritou os gremistas em demasia.

- No hotel ficávamos juntos com a delegação deles, e eles estavam muito "nariz empinados", arrogantes. Isso nos dava mais força ainda. Estavam ignorando nosso time. Só serviu de incentivo para a gente. A gente queria mostrar para eles em campo. Não tinham nem papo. O Espinosa estendeu a mão para cumprimentar o treinador e ele nem bola. Tudo isso foi servindo de motivação para nós - contou Mazaropi.

A festa gremista veio com atuação de luxo do ídolo Renato, que vive a incerteza da renovação contratual. O Tricolor venceu por 2 a 1, na prorrogação, e chegou ao patamar do Santos de Pelé e do Flamengo de Zico. Com qualidade, com 22 jogadores e com a vontade transbordante de provar aos alemães que o merecimento estava do lado azul, preto e branco.