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01/07/2014
14:45

Além do amor pelo Grêmio, que o fez viver uma aventura no jogo que ficou conhecido como a Batalha dos Aflitos (confira aqui a batalha pessoal de Airton para assistir ao jogo contra o Náutico), o jornalista Airton Gontow também não esquece de agradecer a quem ajudou a construir a história vencedora do seu clube do coração, e também dos rivais.

Esse agradecimento é feito por meio de crônicas, que homenageiam alguns personagens marcantes do futebol, como Airton Pavilhão, o melhor jogador da história do Tricolor gaúcho e que deu origem a seu nome, e Escurinho, atacante do Internacional que brilhou em campo e sofreu fora dele. Confira abaixo as crônicas feitas pelo torcedor-jornalista para esses craques do passado.

Airton Pavilhão, que não fazia faltas, fará falta para sempre!

Por Airton Gontow

Alto, forte e extremamente clássico, o jovem Airton despertou o interesse dos dirigentes gremistas. Jogava pelo pequeno Força e Luz, time portoalegrense, que tinha gramado, mas não possuía um estádio. O Grêmio fez uma boa proposta. Acima das suas possibilidades. Mas o Força e Luz quis mais, bem mais. Foi aí que aconteceu a mais surpreendente das ofertas: 50 mil cruzeiros e mais o Pavilhão Social do estádio da Baixada.
Era o ano de 1954 e Airton foi para o Grêmio. Ou melhor, agora o Tricolor gaúcho tinha o Airton Pavilhão, o homem que foi trocado por um estádio de futebol.

O ato aparentemente insano da diretoria - de trocar um patrimônio por uma simples promessa, de 19 anos, que poderia nem mesmo vingar ou até sofrer alguma contusão em um período em que a medicina esportiva era tão insipiente - se mostrou o maior negócio da história gremista.

Airton valia mais que um estádio!

Em 12 temporadas, ganhou cerca de 17 títulos, entre eles de pentacampeão gaúcho de 1956 a 1960 e o hexacampeonato estadual de 1962 a 1967. Tinha a companhia de craques, mas era o grande nome da equipe. Durante os anos em que atuou no Tricolor dos Pampas, aconteceram 52 Gre-Nais. Com ele, foram 42 jogos, com 22 vitórias, oito empates e 12 derrotas. Sem ele, nenhuma vitória tricolor. Foram dez jogos, sete ganhos pelo Inter e três empatados.

Ficou famoso também por uma jogada que só ele era capaz de fazer: em muitos jogos, levava a bola em direção à bandeirinha de escanteio, levando com ele alguns jogadores adversários. Aí virava o corpo e, colocando uma perna por trás da outra, recuava, de letra, a bola para as mãos do goleiro e, claro, para o delírio dos torcedores.

Nunca errou, mas alguns consideram que esta aparente irresponsabilidade foi responsável por sua não permanência na Seleção Brasileira, apesar de ter até conquistado o título de campeão Pan-Americano, em 1956.

Segundo o conceituado comentarista gaúcho Ruy Carlos Ostermann, que viu atuarem pelas equipes gaúchas zagueiros como Calvet, Figueroa, De Leon, Anchieta e Gamarra e que acompanhou inúmeras Copas do Mundo, Airton Pavilhão foi o melhor defensor que assistiu em campo: “Não conheci zagueiro melhor do que ele...marcava sem pontapé, sem esforço físico, marcava naturalmente” diz Ostermann. Para o jornalista e escritor Paulo Sant’Ana, conhecido por seus belos textos e também pelo seu fanatismo pelo Tricolor gaúcho, Airton Pavilhão foi o maior craque da história gremista, acima de jogadores como Ronaldinho Gaúcho, Eurico Lara e Renato Portaluppi.

Ídolo da torcida, foi admirado até pelos grandes rivais. No ano passado, estive no Beira-Rio e entrevistei Claudiomiro, ex-centroavante do Internacional. “Qual é o melhor zagueiro que enfrentaste?”, indaguei. Ele foi taxativo? “Airton Pavilhão!” e explicou: “Além de ser quase impossível passar por ele, nunca dava um pontapé, era incapaz de fazer uma falta”.

Ao jornalista gaúcho Diogo Olivier, o histórico centroavante gremista Alcindo, que atuou pelo Santos nos anos 1970, contou que Pelé tinha a mesma admiração. “Era quase impossível driblá-lo. Aquele cara me marcou sem fazer falta! Sem me tocar. E me marcou. Realmente, me marcou! E ainda por cima não fazia uma única falta. Marcou-me sem me tocar”, disse o Rei do Futebol.

“Se eu desse um pontapé, morreria de vergonha. Deus me livre de querer machucar alguém que tem família. A prejudicada seria a família. Acho que por ano eu fazia umas cinco faltas. Faltas com o corpo. Eu nunca machuquei ninguém”, contou-me o jogador.

Apenas duas vezes encontrei Airton Pavilhão pessoalmente. A primeira foi há quase 20 anos, durante uma destas crises que praticamente todos temos em alguma etapa da vida e emergem questões como “quem sou?”, “era mesmo essa profissão que eu queria seguir?”, “sou feliz?”... Fui a Porto Alegre, minha cidade natal, se não em busca de respostas, ao menos para recarregar as energias.

Visitei o apartamento da infância, a antiga escola, o Olímpico... E quando me aproximava do estádio, vi uma casa azul, simples e digna. De repente, como em um sonho, saiu do portão um homem alto, forte, queixudo e de cabeça erguida. Era o Airton Pavilhão!

Sem pensar, fui até ele e exclamei: “Eu me chamo Airton por tua causa!”. E contei que meus pais queriam que meu nome começasse com letra “a” e que estava resolvido que seria Arthur ou Ana. “Mas jogaste tantos jogos fantásticos naqueles meses que meu pai decidiu que seria Airton, em tua homenagem!”

De repente, estávamos abraçados. Abraçados e chorando. Choramos pelo Grêmio. Pelo futebol. Pela história. Pelas perdas, pelos ganhos. Pela vida! No dia seguinte eu estava pronto para voltar a São Paulo e recomeçar a batalha do dia a dia.

Nosso segundo e último encontro foi no ano passado. Aconteceu depois que li nos jornais que ele havia retornado para casa, após dias no hospital.
Recebeu-me deitado, no quarto da filha. Estava abatido, falava com a voz bem baixa. Perguntei se sentia dor. Respondeu que não doía o corpo, mas a alma. Pouco depois desabafou: “Sinto muita falta de jogar. Eu queria muito jogar um Gre-Nal, entrar em campo...”.

Olhei estupefato para aquele senhor de 76 anos. Ele não havia parado há poucos meses. Nem mesmo há poucos anos. Tinha parado nos anos 60! E sentia muita falta de estar em campo!

Continuei a conversa: “Tu às vezes sonha que estás jogando?”

Ele olhou-me nos olhos e respondeu: “Sonho sempre, mas é muito difícil.”

Eu quis saber o motivo; e Airton Pavilhão prosseguiu:

“É que sempre que sonho, o estádio está cheio e quando vou entrar em campo não acho a botina, a chuteira, a camiseta, o gramado. É uma coisa que tortura a gente. Uma coisa que a gente não entende”, disse.

Ontem, terça-feira, dia 3 de abril, recebi notícia de que Airton Ferreira da Silva, o Airton Pavilhão, conselheiro do Grêmio e grande nome da história do time gaúcho, morreu por infecção generalizada nos órgãos, no hospital Ernesto Dornelles.

O ano de 2012 ficará marcado para sempre no coração dos tricolores gaúchos como o ano em que o Grêmio ganhou sua imponente Arena, mas perdeu o seu Pavilhão.

Aquele zagueiro forte e clássico que nunca fazia faltas fará, ironicamente, falta para sempre.

Não posso saber se em alguma das noites de último ano de vida, Airton Pavilhão conseguiu sonhar que estava em campo, mas posso assegurar que, como maior craque da história do nosso clube, ele está no time dos sonhos de todos os gremistas.

- Descanse em paz e entre em campo, Pavilhão!

(Essa crônica foi escrita no dia 4 de abril de 2012, um dia após a morte de Airton Pavilhão, grande ídolo da história gremista)

A morte de Escurinho

Por Airton Gontow

Eu não lembro bem em que Gre-Nal foi. Mas o Grêmio ganhava por 1 a 0 e parecia que dessa vez tinha tudo para quebrar a terrível e torturante hegemonia colorada no futebol gaúcho. A torcida gremista, em maioria no estádio Olímpico, festejava o resultado e a ampla supremacia do time na partida. Até que, faltando poucos minutos, 15 talvez, o treinador colorado mandou Escurinho aquecer.

Um murmúrio tomou conta do lado azul. No canto do estádio, os colorados se agitaram. Até que ele, negro, alto e esguio, entrou em campo. Parecia que já estava escrito. Ao primeiro cruzamento, os até então inexpugnáveis zagueiros gremistas sentiram as pernas pesadas. A torcida tricolor sentiu a espinha gelada, como se um vento minuano tivesse rapidamente passado pelo estádio. Escurinho subiu alto, muito alto, mais alto ainda do que você, leitor, imagina e, de cabeça marcou o gol de empate do Inter.

Como poucos, Escurinho personificou o jogador “Camisa 12”, aquele que entra no segundo tempo e resolve o jogo. Aquele herói que nunca consegue conquistar um lugar na equipe titular, mas que é decisivo ao entrar para salvar a Pátria, fundamental nas partidas difíceis, essencial para a conquista de títulos. Nunca vi alguém cabecear como ele.

Chego a dizer que daquele time colorado que foi octocampeão gaúcho e tricampeão brasileiro (Escurinho participou de sete conquistas estaduais e de duas nacionais), eu não temia os craques, mas sim o Escuro, que tinha o poder de tornar meus domingos menos azuis.

Nos últimos anos, o ídolo colorado teve uma vida muito difícil. Com diabetes e insuficiência renal passou longos períodos hospitalizado. Chegou a ter amputadas ambas as pernas, triste ironia da vida para quem saltava tão alto nos tempos de jogador. A direita, em 2009. A esquerda, este ano. Felizmente, encontrou a solidariedade e o reconhecimento dos antigos colegas, da torcida vermelha e da diretoria colorada, que doou para ele a bilheteria do filme “Nada vai nos Separar”, que narra os cem anos do time gaúcho.

Ontem, terça-feira, 27 de setembro, recebi ao final da tarde de um lindo dia a notícia de que Luís Carlos Machado, o Escurinho, morreu, de parada cardíaca, aos 61 anos. Olhei para o céu. Nuvens vermelhas começavam a tornar meu dia menos azul. Imaginei o Escuro subindo, subindo, subindo... Um frio congelou minha espinha. Mas logo abri um sorriso. “Escurinho finalmente pode voltar a saltar, a voar sobre todos nós”, pensei, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto. Olhei novamente para cima. Agora não havia nem azul, nem vermelho. O céu estava quase escuro. Estava Escurinho...

Descanse em paz, meu querido e inesquecível rival...

(Texto escrito em 28 de setembro de 2011, um dia após a morte do ex-jogador do Internacional de Porto Alegre)