icons.title signature.placeholder RODRIGO CERQUEIRA
10/07/2014
07:49

Dia 20 de junho de 2000, Eurocopa. O relógio apontava 26 minutos do segundo tempo quando o meia português Sérgio Conceição marcava o terceiro gol da goleada de Portugal por 3 a 0 sobre a Alemanha. A partir daquele momento, de fato, tinha início uma revolução completa no futebol alemão, eliminado de forma humilhante na primeira fase da competição continental, num grupo que, além dos portugueses, contava também com Romênia e Inglaterra. Um ponto apenas conquistado e saldo negativo de quatro gols.   

A partir daquele jogo, os dirigentes da Alemanha tiveram ciência de que era preciso mudar, investir, estudar e planejar para evoluir. O futebol tricampeão do mundo precisava muito mais do que força física e um bom sistema defensivo. A saída, então, foi focar nas categorias de base, levando em consideração a infraestrutura e a capacitação dos profissionais. Cerca de 20 milhões de euros foram investidos por ano nas primeiras temporadas do processo pela Federação Alemã (R$ 60,3 milhões), totalizando R$ 1,5 bilhão ao longo deste período.

A Federação Alemã fez um minucioso planejamento neste sentido. Foram construídos 366 centros de formação de talentos, usando como base a infraestrutura de clubes locais com boas instalações. Cerca de 14 mil jovens, entre 11 e 14 anos, participam do programa de treinamento especializado, além do treinamento em seus respectivos clubes.

Além disso, no país, existem 46 academias de futebol instaladas em clubes. E 29 escolinhas foram transformadas em escolas de futebol de alto rendimento.

Além de todo o investimento, profissionais do futebol do país fizeram cursos e acompanharam o treinamento das categorias de base em outros países, como a Espanha.



Todo este processo, porém, não tem como objetivo somente o futebol. Os jovens que participam destas academias também têm uma formação escolar. E recebem uma educação "especial" também voltada para o esporte. Tudo isso fez aumentar o número de jogadores alemães de alto nível nos clubes da Bundesliga, que são destaques na Europa.

Todo o processo de reformulação das categorias de base da Alemanha teve como objetivo revelar novos talentos para o futebol do país. Porém, claro, uma nova metodologia de jogo foi implantada. A era modera não permite mais jogadores com posições fixas em campo. Com isto, os alemães trabalharam a versatilidade com a eficiência ofensiva.

Antes um futebol de força, a Alemanha passou a jogar de forma técnica e tática, sempre buscando o gol. Seja atacando, seja pressionando a saída de bola do adversário. Os números são incríveis e mostram esta evolução ofensiva da equipe hoje comandada por Joachim Löw.


Löw participa intensamente da reformulação da Alemanha (Foto: Odd Andersen/AFP)

Em 2006, quando foi sede da Copa do Mundo e terminou na terceira colocação, a Alemanha teve o melhor ataque da competição com 14 gols, média de dois por jogo. E o artilheiro foi Klose, com cinco gols. Já no Mundial da África do Sul, em 2010, o poder ofensivo aumentou. Novamente os alemães foram os que mais balançaram as redes: 16 gols, com média de 2,29 por jogo. Desta vez, Müller foi o artilheiro da competição, com cinco gols.

Na Copa de 2014, estes números já foram superados. Até agora, em seis jogos, os alemães marcaram 17 gols, com média de 2,8 por partida. O artilheiro, porém, é James Rodríguez, da Colômbia. Müller tem cinco, mas um jogo ainda por disputar: a final.  

Bate-bola: Paulo Rink, ex-jogador da seleção da Alemanha

1- Qual é sua avaliação deste momento histórico da Alemanha?

R: Vejo como a premiação de um planejamento. Quando eu fui convocado pela primeira vez, isso em 1998, a Alemanha não teve uma boa participação naquela Copa e perdeu a final de 2002. Além da Eurocopa de 2000, quando acabou eliminada na primeira fase. Por conta disso, os clubes foram obrigados a ter, pelo menos, dez atletas das categorias de base no elenco profissional. A partir dali, os clubes começaram a investir nas divisões de base. Porque, até então, se comprava muito jogador do exterior. Como foi o meu caso. Mas em uma cota de até 25 atletas ter dez da base se tornou uma obrigação. O jogo era ter um elenco de 30 nomes. Isso ajudou a Alemanha a formar grandes talentos como Müller, Özil... Hoje, eles têm uma safra melhor, com melhor qualidade técnica e favoritismo para a Copa. Foi um planejamento que começou em 2000 e vai dando resultados.

2- Você, então, participou de perto de todo o processo de reformulação do futebol alemão. Como é sua relação com a seleção da Alemanha hoje em dia?

R: Sempre fui bem recebido. A revista "Kicker" fez uma pesquisa após a Eurocopa de 2000 (que participou) sobre quem deveria permanecer na seleção após aquele fracasso. Meu nome teve 78% de aprovação da opinião pública. Hoje, faço uma coluna para a Federação Alemã semanalmente. Então, vejo que sou reconhecido até hoje. Mesmo sendo presidente da Comissão da Copa de Curitiba, só acompanhei a Copa por ter sido ex-atleta da Alemanha. Acompanho a seleção nos jogos.

3- Você foi o primeiro brasileiro a defender a Alemanha. Depois vieram Kuranyi e Cacau. Agora, com tantos talentos e toda essa reformulação, estrangeiros devem ter cada vez menos espaço?

R: Kuranyi e Cacau vieram depois de mim. Kuranyi, pela questão da família, e Cacau, pelo tempo de país. Foram dois grandes jogadores. Acho que sempre que o jogador tiver talento e chance pode defender a Alemanha. Mas pelo projeto deles, hoje é quase impossível.

Talentos do planejamento alemão:

Özil:
Revelado nas categorias de base do Schalke 04, Özil é um dos talentos lapidados no trabalho de base alemão. Clássico, tem um ótimo passe. Aos 25 anos, já defendeu Werder Bremen, Real Madrid e Arsenal.


Özil é o motorzinho pela esquerda da Alemanha (Foto: Patrik Stollarz/ AFP)

Götze:
Considerado um dos fenômenos da base alemã, tem muita velocidade e habilidade e faz um papel de meia-atacante. Tem 22 anos e na temporada 2012/13 trocou o Borussia Dortmund pelo Bayern.


Götze é um dos mais jovens, com apenas 22 anos (Foto: Thomas Kienzle/AFP)

Schürrle:
Atacante moderno, joga centralizado e também como um falso camisa 9. Tem 23 anos e defende o Chelsea. Foi revelado pelo Mainz, mas também defendeu o Bayer Leverkusen.


Camisa 9, Schürrle dá o gás à Alemanha no segundo tempo (Foto: Christophe Simon/AFP)

Reus:
Jogador dinâmico que é fruto da moderna escola alemã. É meia-atacante, mas faz diversas funções em campo. Tem 25 anos e defende o Dortmund. Passou por Mönchengladbach e Rot Weiss Ahlen. 


Reus foi cortado poucos dias antes da Copa do Mundo (Foto: Daniel Roland/AFP)

Toni Kroos:
Meia clássico, que chega bem ao ataque. Tem 24 anos, chegou ao Bayern em 2006, ainda nas categorias de base. Já passou também, por empréstimo, pelo Bayer Leverkusen. Pode ir parar no Real depois da Copa.


Atuação de Kroos destroçou o Brasil nas semifinais (Foto: Vanderlei AlmeidaAFP)

Thomas Müller:
É o maior símbolo da nova era alemã. Joga centralizado, como meia e também aberto pelos lados do campo. Com 24 anos, é um dos craques da seleção da Alemanha e do poderoso Bayern de Munique.


Muller é o artilheiro da Alemanha na Copa, com cinco gols (Foto: Ari Ferreira/LANCE!Press)