icons.title signature.placeholder Marcio Porto
17/04/2014
07:00

A sala da presidência do São Paulo ganhará um computador a partir de hoje. O aparelho será a principal máquina de trabalho de Carlos Miguel Aidar, eleito ontem presidente do clube. E, além da diferença substancial entre Aidar e o antecessor Juvenal Juvêncio, simboliza os rumos que o Tricolor deve seguir nos próximos três anos.

Aidar é uma figura completamente diferente de Juvenal, embora também seduza pelo discurso.

– Sou plugado – define, ao falar de seu gosto pela tecnologia.

Juvenal não usava computador no Morumbi e portava um “telefone jurássico”, segundo definição de Aidar. Um dos principais aliados do ex-presidente conta que ele nunca respondeu um e-mail. Já o atual  não larga o smartphone, moderno aparelho celular. Frequentemente também é visto com um tablet. O Whatsapp, aplicativo para troca de mensagens, é seu preferido.

– Tenho escritório de advocacia e recebo de 300 a 500 e-mails por dia, mais o lixo eletrônico que nosso sistema não bloqueia. Meu celular tem conexão com tudo isso e coordeno muitas questões por ele. Sou o velhinho do escritório – brinca.

– Foi a única coisa que pedi até agora, do suporte de informática. Pedi o computador. Antes, as notícias chegavam todas em papel, era o estilo do Juvenal. Comigo, será tudo eletrônico – completa Aidar.

O fascínio pela tecnologia, porém, não resistiu ao Facebook, rede social mais acessada no mundo.

– Fiquei 24 horas. Não aguentei. Você fica escravo daquela coisa. E tem pessoas que mandam um testamento. Fico louco. Gosto do objetivo, seja direto – reclama Aidar.

O estilo moderno e objetivo apresentado permeiam sua personalidade, segundo relatos de quem convive com o dirigente há anos. E é com ele que Aidar pretende conduzir o clube em sua volta, após ficar quase 30 anos afastado – foi presidente entre 1984 e 1988.

Inspiração e primeiras noemações. Com papel...
Aidar garante que não revelou a ninguém o nome daqueles que farão parte de sua diretoria. Nem a  Juvenal. É um segredo guardado a sete chaves. Na verdade, em um pedaço de papel, no qual diz ter rabiscado o nome dos que já foram escolhidos. Nesse momento, o homem plugado dá lugar ao precavido.

– Está tudo à lápis. Vai que esse negócio é hackeado. Na época em que presidi a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) saíram as urnas eletrônicas e provamos ao Governo que o sistema era vulnerável. Os caras invadem até o Pentágono – diz.

O presidente pretende anunciar o novo organograma em 15 dias. O Estatuto do clube dá prazo de 30. Muita coisa deve mudar. Novas diretorias e departamentos serão criados, outros perderão força.  No futebol, por exemplo, Aidar disse que tentará achar um novo Juvenal. Foi ele quem lançou o ex-presidente na política do clube, nomeando-o diretor de futebol em seu primeiro mandato. Ele, por sua vez, vai tentar repetir um estilo. Familiar. Paterno.

Carlos Miguel é o segundo membro da família Aidar a ser presidente do São Paulo. Henri Aidar, seu pai, comandou o clube entre 1972 e 1978. O primeiro título nacional, o Brasileiro de 1977, veio em sua gestão. Anos antes, teve participação ativa na construção do Morumbi. Faleceu em 1998, aos 77 anos. E até hoje serve de inspiração para o filho.

– Apesar de ter falecido em 1998, ele até hoje me ajuda. Muita gente vem até a mim com respeito por conta dele. Não tenho a liderança familiar que ele teve, mas sou paciente, deixo as pessoas falarem. E ajudo todos que posso ajudar.

A trajetória política, porém,  foi diferente. Henri enveredou pela política pura. Chegou a ser chefe da Casa Civil do governador Laudo Natel, ex-presidente e patrono do São Paulo. Carlos Miguel se restringiu à política profissional, como a OAB, e esportiva. Foi fundador do Clube dos 13.

– Na época, tive visibilidade com a Globo, e recebi muitas ofertas, muitos partidos interessados. Mas não me deixei contaminar – garante.

Hoje, ele nega que pretenda usar o São Paulo como trampolim para presidir a CBF, como acusou um de seus opositores na campanha.

– Isso é coisa para presidente de Federação, não para mim – diz.

Sem trauma e ‘sozinho’
A idade de Juvenal Juvêncio sempre foi um dos maiores tabus dentro do São Paulo. Ai de quem perguntasse. Mas o complexo não se estende ao novo gestor. A resposta é na lata!

– Tenho 67. Faço 68 em agosto. Eu me sinto um menino. Faço questão de dizer minha idade, todo mundo acha que tenho menos – gaba-se Aidar, até o hoje o presidente mais jovem da história do clube (37 anos).

A naturalidade é a mesma para falar da vida familiar e até amorosa. Divorciado, o dirigente diz que mora sozinho há 20 anos, mas há seis mantém um relacionamento sério.

– Tenho uma companheira, uma dermatologista muito famosa. Mas ela na casa dela e eu na minha. Ela tem 61 anos e sou o melhor cartão de visita dela (risos) – brinca.

– Viu?! Não estou atrás de rabo de saia de menina – emenda.

O presidente tem três filhas (Domitila, Mariana e Veridiana), um neto (Matias) e duas netas (Penélope e Maitê). A filha do meio, Mariana, é a mais ligada ao futebol. Já atuou como agente Fifa representando jogadores e foi uma espécie de braço direito do pai na campanha. Ao falar dela, o bom humor reaparece.

– Ela me ajuda muito no clube. É uma grande empresária e milita em defesa do animais. Tem uns dez cachorros, dez gatos, tartaruga. A casa dela parece um zoológico.

Com a vitória na eleição, Aidar sabe que a partir de agora deverá ter menos tempo para se dedicar à família e ao lazer. Mas vai tentar arrumar um tempinho para utilizar o luxuoso barco que mantém no Guarujá, litoral sul de São Paulo. Velejar é uma de suas paixões. A folga é esperada.

– Se o time jogar no sábado, de repente dá para dar uma fugidinha no domingo. A última vez que fui foi no ano passado. E lá é muito gostoso. Minhas filhas e amigos é quem usam mais – explica o homem cuja carreira profissional concedeu tranquilidade financeira à esta altura.

Certo é que a rotina será intercalada com sessões de fisioterapia. No ano passado, Aidar teve um problema lombar, princípio de hérnia e desde então precisa exercitar. Mas nada que atrapalhe o trabalho, garante. Juvenal, por exemplo, precisou lidar com um câncer durante o mandato.

– Todo velho tem isso que tive. Fazia cinco sessões por semana de fisioterapia. Hoje, faço duas – explica.

Futuro tricolor
O primeiro ato de Aidar na presidência será contratar uma empresa para mapear o clube e elaborar um plano de gestão. Ele diz que manteve-se afastado na campanha.

– Vou chamar o gerente de RH (Recursos Humanos), informática, futebol, tomar conhecimento da rotina e estabelecer as diretrizes. Tenho algumas empresas em mente e vou contratar alguma – diz.

Desde que foi escolhido como candidato da situação, em setembro do ano passado, Aidar tem pensado no que fará. Pretende fazer de  Cotia uma unidade comercial, descentralizar o poder, a marca de Juvenal, e montar um time competitivo. Para isso, herdou um adiantamento da Rede Globo, um dos últimos atos da gestão anterior.

O dinheiro, ele mesmo admitiu, vai facilitar o processo nos primeiros passos. Passos de uma trajetória que promete ser permeada por modernidade, diálogo, sorriso fácil. Tudo muito pouco de Juvenal.