icons.title signature.placeholder Thiago Correia
13/02/2015
09:21

O Real Madrid enfrenta um princípio de crise. O time perdeu, na última semana, para o Atlético de Madrid por 4 a 0, e tudo piorou com a extravagante festa de aniversário de Cristiano Ronaldo horas depois. Mas nada capaz de abalar o prestígio do craque. Tanto que agora ele é tema de uma matéria do quarto ano do curso de Sociologia da University of British Columbia, em Okanagan, no Canadá.

Idealizado pelo português Luis Aguiar, o curso tem três objetivos: entender a relevância e o fenômeno sociais e as forças para construir um atleta global; discutir e examinar os discursos de identidade e nacionalidade; e, por fim, compreender o personagem pela diáspora portuguesa – influência nas ex-colônias da Terrinha.

– Começa tudo pelo futebol. Se ele não fosse um jogador espetacular dentro de campo, talvez não fosse tão popular. Ele tem um certo "look", tem um tipo "sex symbol", é atraente para empresas que criam uma marca global. E tem uma máquina empurrando para ser algo além do futebol. As companhias, através de agentes, que andam ao seu redor, tentam construir o Ronaldo com mais capacidades do que as futebolísticas, atinge outras esferas, como cultura, branding... – explicou o professor ao LANCE!Net:

O professor ao dar sua aula (Foto: Divulgação)

– Começa pelo Cristiano Ronaldo, mas falamos de assuntos fundamentais que interessam ao estudante de sociologia. não há coisa tão importante como o esporte, e que ele é uma via para explorar coisas que são muito importantes socialmente, como uma cultura de dinheiro, de visibilidade, de imagem, de como a civilização se comporta. Vamos muito mais além de um curso que fala só de Ronaldo, há muito a oferecer.

Benfiquista, mas não tão apaixonado quanto em sua infância, Luis Aguiar nasceu nos Açores, assim como a Madeira, terra de Ronaldo, uma ilha que pertence a Portugal. Ainda jovem, foi morar no Canadá, e chegou até ser jogador amador. E foi justamente ao ver uma partida da seleção que teve a ideia do curso.

- Veio antes da Copa, quando acompanhava um jogo de Portugal, e o narrador Nuno Matos descrevia o jogador de uma maneira em que era construído como um herói nacional. Isso me chamou a atenção. E neste momento Portugal vive uma crise econômica, e ele vem como um orgulho em um momento em que o país vive dificuldade. Foi neste momento, e ao fazer a análise, quis ver o que ele representa não só para o país, mas também fora.

O que também é muito estudado é sua influência no país. Em crise, Portugal tem hoje, segundo o professor, o seu maior símbolo da história, superando Eusébio, José Saramago, Amália Rodrigues, António Salazar, Luis Vaz de Camões, Florbela Espanca, Fernando Pessoa...

– Ele já ultrapassa esses personagens, para bem e para mal, dependendo de como se analisa. Não há rivalidade em Portugal em termos de poder, imagem e visibilidade. Talvez existam personagens mais interessantes em algum tipo de análise mais aprofundada... Ronaldo não tem se apresentado com uma política específica, e por uma grandeza da imagem, não há na história de Portugal um personagem desse tamanho. No mundo, não vejo outro personagem, seja jogador, atleta, artista, que conteste essa imagem – disse.

Em muitos lugares, como no Brasil, Ronaldo é visto por muitos como uma pessoa arrogante. Se é verdade ou não, a resposta é subjetiva. Porém, é estudada no curso a preocupação em desconstruir essa imagem marrenta.

– Tem uma representação que talvez algumas pessoas o vejam como arrogante, muito envolvido em si próprio. Outra coisa que a gente discute no curso, há uma via entre CR7 e sua equipe para mostrar um rapaz mais humanitário, preocupado com muitas questões, e aparece muito em causas sociais, de ajudar meninos que precisam de operações, que não têm dinheiro, e ele aparece com esse dinheiro, há uma variedade de atividades que tem se apresentado de uma certa forma a contestar essa imagem de que só pensa em muito si.

Messi também é abordado em sala de aula (Foto: FAbrice Coffrini/ AFP)

Além de Cristiano Ronaldo, outro nome bem famoso pelo faz nos campos é citado: Messi.

- Acho muito interessante como se constrói uma imagem dos dois. O Messi como humilde, uma pessoa normal, bom estudo, e o Ronaldo é completamente diferente. Com glamour. A gente explora o Messi, mas falamos também de outras questões como racismo. Ronaldo teve uma experiência quando jovem, por causa do seu sotaque, usamos como um trampolim para falar de discriminação - explicou.

E Neymar? Será que o craque brasileiro poderia, daqui a alguns anos, ser objeto de estudo como Cristiano Ronaldo está sendo agora? Para Luis Aguiar, dificilmente o camisa 10 da Seleção poderia chegar nesse patamar.

- Futebolisticamente, Neymar estará no topo. Mas quanto à imagem, é difícil. Vários fatores contribuem, como o fato de não falar inglês. O Ronaldo é branco, Neymar não, e são coisas que são importantes nesta questão. Sou sociólogo e sei a representação feita para pessoas brancas e que não são. Não sei se pode atingir esse patamar, essa visibilidade, em termos culturais - disse.

CR7 abraçando fã que invadiu amistoso contra o Chelsea nos EUA (Foto:Don Emmert / AFP)

Luis Aguiar conta ainda que, desde que o curso foi lançado, o que mais tem feito é dar entrevistas. E que toda a repercussão é justamente por causa da forte imagem do craque. O professor quer um dia levar o jogador à sua sala de aula, nem que seja através do Skype, e que pensa em escrever um livro sobre o tema:

- Infelizmente não tive ainda contato com ele. O vídeo foi construído para chegar mais perto dele. Estive na Madeira com um primo dele, e disse que gostaria de falar com ele, pois queria fazer uma entrevista para um livro que quero escrever depois desse curso. Deixei lá as minhas intenções, mas nunca se comunicaram comigo. Não imagino que o Ronaldo e pessoas ao seu redor não estejam cientes do curso.