Igor Siqueira
08/06/2016
07:40
Teresópolis (RJ)

Três talentos garimpados no Velho Continente estão tendo nesta semana a primeira experiência em uma Seleção Brasileira de base. São nomes de uma geração nascida no ano 2000 – que a CBF não quer ver vestindo camisa de seleções rivais e estão sendo observados no período de treinamentos na Granja Comary, em Teresópolis.

Do trio de “estrangeiros”, dois vêm da Espanha – Gustavo Henrique, do Atlético de Madri, e Lucas de Vega, do Barcelona, ambos meio-campistas. Da Itália, o meia-atacante Emanuel Vignato, que defende o Chievo. Todos foram convocados após uma viagem do comando das categorias de base da Seleção à Europa.

Gustavo, que tem recebido ensinamentos de Diego Simeone no vice-campeão europeu, é quem mais tem intimidade com o Brasil. Filho do ex-volante Paulo Assunção, ele não tem a menor dúvida do desejo de vestir a amarelinha.

Lucas de Vega é do Barcelona e impressionou nos primeiros treinos com a sub-17 do Brasil

– Eu gostaria que fosse definitivo. É a Seleção da minha vida. Toda minha família é brasileira. Meus pais deixaram na minha mão, mas eu me sinto brasileiro – disse ao LANCE! o volante, paulistano de nascimento, mas integrante do time colchonero desde 2008.

Emanuel, que é meses mais novo, é de um contexto diferente. Ele é italiano de nascimento, mas conta que, apesar disso, aprendeu a falar português antes do italiano. E com direito a sotaque nordestino, já que a mãe é de Fortaleza. Ele ainda prefere não esquentar a cabeça sobre qual camisa vai vestir.

– Não tomei decisão ainda não. É difícil tomar agora. Ainda não estou pensando no time que vou escolher. Em dezembro do ano passado, fiz treinos e um amistoso com o sub-15 da Itália. Acho que daqui a dois, três anos vou tomar uma decisão. Estou muito feliz por estar aqui no Brasil. Não estou pensando nisso não – disse Vignato, cujo pai também é italiano e não reprovou a vinda do filho para o Brasil:

Emanuel Vignato nasceu na Itália e fala português com sotaque nordestino: a mãe dele é de Fortaleza (CE)

- Meu pai gostou da convocação. Ele estava feliz. Falou para eu jogar bem. Não teve ciúme. Está feliz, tudo tranquilo.

Lucas de Vega é o mais reservado do trio. Filho de pai espanhol, não fala português com a mesma desenvoltura dos outros. E por causa de um veto do Barcelona, não dá entrevistas. Mas tem mostrado qualidade nos treinos. O pai coruja tem mantido contato frequente com a comissão técnica para saber como está o “estágio” no Brasil. Se escolher a amarelinha, tem tudo para ser muito bem usado.

Os treinos da sub-17, comandados pelo técnico Carlos Amadeu, vão até sexta-feira. Ele conta com a contribuição do treinador da sub-15, Guilherme Dalla Dea, além da presença do técnico da sub-20, Rogério Micale. 

BATE-BOLA COM GUSTAVO HENRIQUE, DO ATLÉTICO DE MADRI

Qual sua primeira impressão dos período de treinos na Seleção Brasileira?​

O futebol é mesma língua para todo mundo. Aqui na Seleção a estrutura é toda arrumada, tudo organizado, a melhor do mundo. Nos conceitos, eles estão tentando passar o mesmo para nós: consistência defensiva e depois não perder a bola.

Qual a filosofia do Atlético? Você tem contato com Simeone?
O Atlético aceitou a filosofia do Simeone. Tudo que o Cholo passa temos que aplicar na categoria de base. Quando vamos treinar, ele aparece, dá conselho. Ele fala que a chave do sucesso é jogo a jogo. E sempre trabalhar com máximo de força e sacrifício porque aí vai ter resultado.

Como se identifica como jogador?
Eu sou um meio-campo, volante. Faço o que o treinador precisar. Gosto ali de ficar na frente do zagueiro, distribuindo o jogo.

E quem você tenta "imitar"?
Eu tenho um ídolo lá que é o Tiago, eu gosto muito do cara. é muito gente boa, sempre me dá conselho. Eu fico olhando como ele joga para tentar fazer a mesma coisa.

Gustavo Henrique recebe dicas de Simeone no Atlético de Madri: "O sucesso vem jogo a jogo"

Como foi o primeiro contato com os outros garotos que jogam no Brasil?
Chegamos aqui, conhecemos todo mundo. Eu pergunto porque é diferente o futebol, como funciona o campeonato. Sempre trocamos ideias.

Você torce para qual time?
São Paulo e Palmeiras. São os dois que eu gosto.

O que acha do futebol brasileiro?
Sobre o futebol, eu não acompanho muito os jogos, por causa do horário. Mas na Libertadores eu vejo, os times do Brasil sempre estão lá brigando. Eu gosto do futebol brasileiro.

BATE-BOLA COM EMANUEL VIGNATO, DO CHIEVO

O que está achando da experiência com a Seleção?
Eu estou muito feliz. É a primeira vez que eu estou aqui, conhecendo outro tipo de jogo. Eu venho quase todos os anos ao Brasil. Muitas vezes para Fortaleza, mas também para o Rio e Natal.

Você se identifica com o Brasil, mesmo tendo nascido na Itália?
Eu gosto do Brasil, também da Itália, mas eu gosto mais do Brasil. Eu me sinto mais brasileiro, porque minha mãe sempre me ensinou a cultura. Minha mãe me ensinou primeiro português do que italiano.

E em relação aos treinamentos e característica do futebol?
É muito diferente do que tem na Itália, Lá é mais tático. Aqui é muito técnico, tem muita "fantasia".  Eu gosto de ter espaços para jogar. Em campo pequeno, fica mais difícil. Jogo de meia atacante ou ponta esquerda.

E você tem time favorito?
Eu torço para o São Paulo. Porque meu tio é São Paulo. Lá eu torço para o Milan.

Como entrou no futebol?
Quando eu era pequeno, tinha 4 anos, comecei na cidade onde morava. Depois. com seis, sete anos, fui para o Chievo. Tinha o Luciano na época e também o Amauri.

Você vê o futebol brasileiro atrasado?
Eu acho que em alguns aspectos, sim. Na Itália, tem muita tática, os times são organizados. Aqui no Brasil é diferente. A Seleção principal não é um time muito bom. Nem a Itália é. Mas eu acho que na tática o futebol brasileiro está ultrapassado. Mas o Brasil é melhor na técnica. Acho que falta um atacante. Tinha Ronaldo, Romário e agora não tem mais nenhum.