Carlos Alberto Parreira (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Carlos Alberto Parreira tem participado das reuniões na CBF (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Igor Siqueira
14/04/2016
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Carlos Alberto Parreira abandonou o futebol depois da Copa-2014. Mas não completamente. Ele não quer saber mais de treinar equipes ou seleções, tampouco ser coordenador de qualquer coisa. Mas Parreira aceitou o convite da CBF para participar do Comitê de Reformas da entidade, especificamente para discutir o calendário brasileiro e quais mudanças ele poderá sofrer para os próximos anos.

Nesta entrevista ao LANCE!, Parreira admite a deficiência no calendário brasileiro e, claro, fala sobre como enxerga o momento da Seleção Brasileira. Política? Ele prefere não se envolver.

Qual a importância do Comitê de Reformas e por que decidiu participar?
Exatamente pela necessidade e importância de atualização do futebol brasileiro dentro e fora das quatro linhas, principalmente na área de gestão. Chegamos à conclusão que fora das quatro linhas precisa evoluir muito. Esse processo de reforma tem muita gente envolvida, com talentos diferentes, gente diferentes, de clubes, ex-jogadores, técnicos, dirigentes... Todos estão no espírito de colaborar. Estamos numa fase de brainstorming, trazer ideias para depois chegarmos a uma conclusão. A fase mais complicada é do calendário. Eu costumo dizer que é equação para gênio. Há três pilares quase inconciliáveis, que são técnico, financeiro e político. Quando atende um, perde no outro. Temos muitas competições para poucas datas. Tem que haver um reajuste.

"Casamento" com o calendário europeu está fora de questão agora, né?

Pelo que chegamos a sentir, é uma coisa que ainda não está na hora. Não dá para pensar em fazer uma adequação do calendário quando você não tem um que esteja apropriado. Temos que equacionar o nosso para depois pensarmos se vamos adequar ou não. As dificuldades são muito grandes... lado cultural, férias escolares, clima...

Qual sua posição sobre os regionais?

Temos que equacionar isso tudo. Temos um primeiro semestre com 25 datas até maio. Isso ainda não foi equacionado. Todo mundo tem consciência. Estamos botando na mesa as reformas.

Pretende dar alguma contribuição mais direta em relação à gestão da CBF?

Essa parte de estatuto tem um comitê lá. Nossa contribuição maior é o calendário, que é o calcanhar de aquiles.

Como vê a situação política atual? Porque temos um preso, outro licenciado e o Coronel Nunes no poder, Del Nero voltou..

Eu não vou falar de política da CBF. Vou falar de Comitê de Reforma.

E qual sua avaliação da Seleção nas Eliminatórias?

É evidente que todo mundo esperava que estivéssemos em uma posição melhor agora, com seis rodadas, um terço da competição. É claro que preocupa, mas a Seleção, faltando 12 jogos, vai se classificar, não tenho a menor dúvida. O time é bom, passando por um momento difícil... Mas tenho certeza que ela vai ser recuperar e se classificar. Essa é a eliminatória mais equilibrada de todos os tempos. Temos sete times brigando por cinco vagas em igualdade de condições. Talvez algum desgarre na penúltima...

"Temos bons jogadores, mas não são protagonistas".

Acha que falta talento?
Temos um grande jogador, que faz a diferença, que é o Neymar, protagonista do futebol brasileiro. Temos bons jogadores, mas não são protagonistas. Temos jogadores de ponta que há anos são indicados como os melhores, como Daniel Alves e Marcelo. Tínhamos Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Rivaldo... Mas são fases do futebol. No momento, não temos isso. Temos bons jogadores, a Seleção é boa. Mas protagonista só tem um, o Neymar, isso é muito claro.

Como vê essa situação envolvendo o Thiago Silva, que é apontado como um dos melhores, mas não é chamado mais?

Isso aí é problema do Dunga. Não vou entrar no mérito se tem vaga para um ou para outro... Cabe ao treinador decidir se ele serve ou não serve.

Você manteria o Dunga?
O problema de treinador é um problema do presidente da CBF.

Como tem visto o comportamento do Neymar...
Não vou falar de jogador, pelo respeito que tenho ao Dunga, meu grande capitão. deixa o Dunga com a seleção.

Os técnicos brasileiros estão ultrapassados?
É uma covardia dizer que estão ultrapassados. Compara as condições de trabalho que tem um treinador europeu e o daqui. Sabemos o que fazer, mas falta know-how, pela falta de capacitação a nível nacional. Acho que a CBF tá cuidando disso agora para que os treinadores possam exercer. Mas tem que botar um calendário legal, né. Dar condições, pagar, deixar o cara trabalhar... Dar sequência ao trabalho. As concepções são boas, mas o difícil é implementar isso na prática.

"Tite é um dos melhores do Brasil, sem dúvida alguma".

Tite é o melhor treinador do Brasil?
Hoje, é o treinador que está fazendo um trabalho maravilhoso. Não é que seja o melhor. É difícil comparar. Sempre falo e vou repetir: qual o melhor compositor? Beethoven, Mozart... E pintor? Van Gogh, Monet... É difícil comparar talento. O Tite é um dos melhores do Brasil, sem dúvida alguma.

O 7 a 1 ainda te atormenta, a forma com a qual você saiu da Seleção?

Não. Não... Claro que o Brasil saiu de uma maneira que ninguém esperava. Não é perder, mas perder de 7 a 1, que foi realmente vergonhoso. Mas a vida tem que seguir. Aconteceu e acabou. Foi uma lição muito grande. A experiência serve para ganhar em outras áreas.

O esquema tático da Seleção hoje é o ideal?
Esquema tático bom é o que ganha. Isso eu ouvi de um treinador há muitos anos. É aquele que aproveita melhor as características dos jogadores. E são todos muito parecidos, todo mundo faz quase a mesma coisa. Não ganhou porque jogou no 4-1-4-1. Ganhou porque o time compacta, tem velocidade, marca, diminui espaços, tem penetração, segura a bola, é comprometido. Tem princípios hoje que são universais. Está aí o Bayern, o Barcelona... O Brasil sempre fez isso também: ficar com a bola, jogar em 30 metros, 40 metros, fazer as transições rápidas. Não é fácil de uma hora para a outras, mas quem conseguir sai na frente. E tem, evidentemente, a qualidade. Só falamos de Barcelona, Real Madrid, Bayern, PSG que têm 11 estrangeiros no time. E todos de seleções nacionais. A gente gostava quando tínhamos sete, seis protagonistas nas grandes equipes.

Como tem sido a vida de aposentado? Dá vontade de voltar?
Tenho me envolvido muito com coisas pessoais. Venho aqui participo... Foram 45 anos, é evidente que você não vai jogar isso pela janela. Mas quando pensa, pensa com saudade positiva, o fato de ter ido a dez Copas do Mundo, conhecido pessoas, culturas e países. Chega um momento que a vida muda e a minha mudou.