CPI

Vandenbergue atua para a CBF nos bastidores do Congresso desde as primeiras CPI's do futebol (Foto:Reprodução)

Marcelo Damato
28/07/2016
08:05
Especial para o LANCE, de Brasília (DF)

O encerramento melancólico da CPI do futebol na Câmara dos Deputados pode ser considerada mais uma vitória de um personagem desconhecido do grande público mas figurinha fácil nos corredores do Congresso: Vandenbergue Sobreira Machado, o chefe do lobby da CBF em Brasília que conhece como poucos os bastidores do poder. Em boa parte por sua articulação, o que seria uma investigação da Câmara acabou na sexta-feira sem que nenhum sigilo bancário, telefônico ou fiscal tenha sido quebrado e sem que qualquer dirigente da CBF tenha sido chamado a depor.

Vandenbergue é um especialista nos assuntos parlamentares e sabe bem como conquistar a lealdade de deputados e senadores, em benefício do presidente de plantão da entidade, desde os tempos de Ricardo Teixeira. Em quase 20 anos no cargo, ganhando salários que começaram em cerca de R$ 40 mil por mês e hoje estão perto de R$ 100 mil mensais, o diretor de Relações Legislativas da CBF, tornou-se a face da cartolagem em Brasília, distribuindo ingressos de jogos e kit com uniformes da seleção e- segundo seus desafetos- alguns presentes bem mais substanciosos.

Para chegar a esse status, Vandenbergue, facilmente reconhecível por sua cabeleira branca e ternos impecáveis, usa a experiência acumulada em cerca de 40 anos circulando pelos palácios e os bastidores da Capital Federal.

Nos anos 70, ele deixou a terra natal de São José do Belmonte, cidade do sertão de Pernambuco que hoje tem 35 mil habitantes, a 472 Km do Recife, para fazer faculdade no CEUB – tradicional instituição de Brasília que já teve até um time profissional de futebol, disputando o Brasileiro de 1973. Formou em direito, em 1975, e logo depois prestou concurso para o Senado, onde trabalhou por cerca de 20 anos até aposentar-se forma precoce antes dos 50 anos de idade, recebendo cerca de R$ 32 mil mensais.

Desde aquela época em na capital federal, Machado não perdeu contato com suas raízes. Por exemplo, até hoje é torcedor do Náutico. Ao mesmo tempo, contudo, foi tornando-se um funcionário cada vez mais graduado e poderoso.

Em 1986, o então presidente da República José Sarney criou uma honraria chamada a Ordem do Mérito Militar. Em princípio era apenas para homenagear militares, que haviam deixado o poder no ano anterior, pondo fim a 21 anos de ditadura. Mas Sarney decidiu estender a homenagem a civis. Na primeira entrega de medalhas, entre os homenageados estavam todos os ministros, os membros do STJD, alguns parlamentares mais importantes e... Vandenbergue.

Dali até 1997, quando se aposentou há poucos registros de sua atuação. Mas nesse período ele se aproximou muito de um jovem deputado federal, que ficou conhecido por ser amigo do sucessor de Sarney, Fernando Collor de Mello, que governou de 1990 a 1992. Por isso, quando Renan Calheiros foi nomeado por Fernando Henrique Cardoso para ministro da Justiça em 1998, este se lembrou de Vandenbergue, recém-aposentado, e o nomeou chefe de gabinete. Os dois ficaram juntos nos durante os cerca de nove meses de Calheiros no cargo

A amizade com Calheiros fez aumentar o poder de Machado no Congresso depois que esse se tornou, já na primeira vez, presidente do Senado. Mesmo sem ser funcionário, possui autorização para passar caixas fora da revista e transita pela Casa com mais desenvoltura do que muitos senadores. Frequentador habitual do gabinete da presidência, Machado carrega a fama de sempre agir respaldado pelo amigo. Se é verdade, eles não admitem. Mas, por via das dúvidas, todos agem como se fosse.

O Leão mostra as garras
Machado contrasta um estilo aparentemente suave, reforçado pelo cuidado que dá à sua aparência, com uma prática muito agressiva, muitas vezes contra os próprios aliados. Com senadores e deputados, mostra-se sempre cortês, mas, especialmente quando existe alguma CPI em curso, faz questão que os parlamentares da bancada da bola sigam suas orientações. Em sessões da CPI do Senado, presidida por Romário, distribui bilhetes com instruções e intimida os senadores a tal ponto que estes só deixam a sessão com a permissão do “cartola”.

Mesmo dentro da CBF, Vandembergue compra brigas pesadas, sempre que vê seu poder e sua influência de alguma forma ameaçadas. Não é por acaso que acumula uma série de desavenças com diretores e vice-presidentes da entidade.

O primeiro foi o ex-vice Weber Magalhães, seu colega de funcionalismo do Senado que em 1999 o indicou para Ricardo Teixeira. Nem a dívida de gratidão com o amigo, impediu que Vandembergue entrasse em choque com Magalhães, a ponto de até hoje estarem rompidos.

Machado também se atritou com vários jornalistas que trabalharam na CBF, como o gerente de Comunicação Rodrigo Paiva e o assessor especial Mario Rosa. Ambos os casos aconteceram no começo dos anos 2000.

No ano passado, foi a vez do secretário-geral da entidade, Walter Feldmann, entrar na lista. Quando foi criada a CPI do Futebol, no Senado, em maio, Feldmann, ex-deputado federal tentou usar sua experiência e prestígio para comandar o lobby parlamentar em favor do chefe, Marco Polo Del Nero. Mas, quando tentou colocar Machado sob suas ordens, o caldo azedou. Del Nero teve de enfrentar um racha em suas próprias fileiras e, aconselhado por alguns senadores - supostamente Romero Jucá entre eles- decidiu segurar Feldmann no Rio e manter Machado no comando em Brasília. E Machado continuou a fazer o que vem fazendo desde 1999. 

Estreia foi nas CPIS de 2000-01
Vandenbergue Machado tornou-se conhecido no mundo do futebol em 2000. Naquele ano, também foram criadas duas CPI, a da Nike-CBF, na Câmara, e a do Futebol, no Senado. Vandenbergue, com o dinheiro da CBF, montou uma casa no setor de mansões que serviu de base para o lobby junto aos congressistas.

Houve denúncias de que as reuniões eram regadas não só a comida e bebidas sofisticadas como que em algumas ocasiões, eram contratadas garotas de programa para satisfazer os parlamentares que apareciam por lá. O que nunca chegou a ser provado.

O seu primeiro grande trabalho de lobby teve resultados divergentes. Na Câmara, a bancada da bola conseguiu formar uma maioria e só não aprovou um relatório que negava a existência de qualquer atividade ilícita, porque o presidente da CPI, Aldo Rebelo, já em 2001, a encerrou antes, sem aprovar qualquer documento.

No Senado, entretanto, semanas depois, o relatório do senador Geraldo Althoff foi aprovado com vários indiciamentos. O Ministério Público abriu processos contra Ricardo Teixeira, mas este conseguiu vencer todas as batalhas judiciais.