Luiza Sá
08/10/2017
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

Emily Lima foi a primeira mulher a assumir o comando da Seleção Brasileira Feminina e fez história com isso. Porém, diferente do que era prometido, ela teve pouco mais de 10 meses para trabalhar e, depois de quatro derrotas consecutivas, foi demitida. Nem mesmo uma carta feita pelas jogadoras pedindo para que a comissão técnica fosse mantida para o ciclo olímpico foi o suficiente.

Ex-volante, Emily, de 37 anos, disputou 13 partidas, conquistou sete vitórias consecutivas, um empate e perdeu cinco jogos. Nenhuma competição oficial foi disputada nesse período, mas, mesmo assim, a CBF decidiu que era hora de encerrar o ciclo e recontratar Oswaldo Fumeiro Alvarez, o Vadão. Em entrevista ao LANCE!, ela conta a dificuldade do trabalho.

- A partir da contratação do Vadão eu comecei a me questionar e ver que a demissão não era só por conta do resultado. Um treinador que teve dois anos e alguns meses à frente da Seleção, teve o maior investimento da história do futebol feminino, jogou Pan-Americano, Sul-Americano, que são obrigações nossas ganhar, Mundial e Olimpíada, que fomos mal. As pessoas não querem a evolução da modalidade, mas novamente o que não deu certo. Eu não poderia me calar vendo isso acontecendo. Posso sofrer muito, mas não tenho medo - disse Emily.

LANCE: Qual foi o cenário que você encontrou quando assumiu a seleção com relação a planejamento, situação da modalidade e de preparação?

Emily: Quando chegamos para iniciar o trabalho não tinha nada em vista para 2017 e 2018, então tivemos que correr atrás para fazer esse calendário. Dados das jogadoras tivemos pouquíssimos, quase nada. Então tivemos que preparar o planejamento em cima daquilo que tínhamos. Fizemos um mapeamento do que temos no Brasil em relação ao futebol feminino, quantas equipes em atividade, quantas atletas praticavam o esporte, os campeonatos estaduais.

Dentro disso nós criamos as convocações de observação, que foram divididas em quatro regiões (Sudeste, Nordeste, Centro-oeste e Norte). Na parte física, fizemos um levantamento desde 2013 e planejamos fazer três avaliações completas, no começo, meio e final do ano. Fizemos isso em todas as convocações. Temos muitos números, uma coisa completa, e agora a próxima comissão técnica terá números reais de todas as atletas que forem convocadas.

Como você pode descrever seu trabalho nesses quase 10 meses? Te deram condições pra trabalhar e liberdade?

O trabalho da comissão técnica nesses 10 meses foi algo que nunca teve na CBF no futebol feminino, isso eu posso garantir. Fomos os primeiros que ficaram trabalhando diariamente no escritório na sede da entidade. Fizemos o que acreditávamos que era o certo. Fomos atrás de jogos, de atletas, de números, criamos uma observação das atletas. A avaliação que eu faço é positiva.

Quando falo que não tivemos o respaldo necessário, foi quando pedíamos algo. Por exemplo, pedia dois três dias antes da convocação, dentro da Data Fifa, para que pudéssemos concluir o que havíamos planejado a médio/longo prazo. Digo que eu tive tudo sim, não pelo coordenador Marco Aurélio Cunha, mas pelo respaldo que o presidente Marco Polo del Nero dá a todas as categorias. Em nenhum momento tivemos o apoio dele (Marco Aurélio) quando foi questionado por nossas derrotas. Não quero que ninguém defenda a gente, mas que diga do trabalho que estava sendo feito. Se o coordenador não servir para nada, não sei porque ele está lá. Comecei a me questionar.

Como você vê essa decisão de algumas jogadoras em não jogar mais pela seleção pela saída da comissão?

Acredito que elas viram o que um trabalho pode fazer de diferente. Elas perceberam que o que estava sendo feito é algo possível dentro da CBF e que elas sempre receberam uma negativa, que não dava. A CBF dá esse respaldo para fazer. Basta quem está lá dentro como comandante trabalhar em prol da melhora da modalidade. Vejo que o trabalho foi reconhecido por essas que saíram e pelas 24 que assinaram a carta pedindo a permanência da comissão. Fica um lado negativo, pois foram atletas que fizeram história na Seleção, que doaram a vida ao futebol feminino. É muito triste por essa parte.

O Marco Aurélio Cunha disse que sua demissão não foi por machismo e que isso vem um pouco do lado das mulheres. Você, sendo a primeira mulher treinadora da seleção, como se sente sobre isso? Acha que há machismo nessa área?

Eu nem entro na polêmica de machismo porque deve ser muito difícil para ele ter uma mulher no comando da Seleção, algo de extrema dificuldade. Deve ser um aperto diário no peito saber que do outro lado da parede tinha alguém que fazia convocação, direciona o trabalho, conhece e tem uma vivência na modalidade. Ele disse que eu fui imatura por querer ser gestora do futebol feminino. Se eu fiz isso é porque o cara que faz a gestão não estava em atividade. Eu queria sim fazer diferente, fazer as coisas acontecendo. Eu não estava realmente no lugar certo, pois sempre gostei de trabalhar. O machismo vem de todas as partes, mas eu me apego a pessoa que não é capacitada para estar nesse lugar.

"Essa foi a minha "imaturidade". Querer me preocupar com a modalidade. Vivi isso a vida toda. É inadmissível e triste."


Acha que nesse cenário as mulheres podem voltar a ter oportunidades dentro do comando do futebol? Seja feminino ou masculino?

Acho que sim, mas teremos que aguardar mais dois, três anos. Porque acredito que eles vão comandar a seleção por mais tempo. O problema não vai mais ser resultado e sim o trabalho, como o coordenador disse em 2015 e se contradisse. Acho que até 2020 as portas estão fechadas para mulheres lá dentro. Espero estar muito enganada.

Muito se fala sobre a falta de apoio da CBF e seus dirigentes ao futebol feminino. Como é essa realidade? Tem alguém dentro da própria CBF fazendo algo pra mudar isso?

São esses os fatores que foram se desgastando lá dentro. Volto a dizer que o presidente deu todo o respaldo necessário, mas infelizmente ele não nos acompanha diariamente. Ele tem que acreditar no homem de confiança dele, que é o Marco Aurélio Cunha. Eu levantava questionamentos sobre isso e o nosso coordenador dizia que não era problema nosso. Que tínhamos que focar na seleção. Mas como podemos focar nisso se não ajudarmos os campeonatos nacionais? Precisamos conhecer a realidade dos estaduais, conversar com os times e as federações. Posso estar enganada, mas se eu estivesse na coordenação da seleção eu pediria a permissão para orientarmos no que fazer.

Acontecem coisas lamentáveis nos jogos e tudo bem. Ninguém está preocupado com isso. No ano que vem vai acontecer de novo. Então essa foi a minha "imaturidade". Querer me preocupar com a modalidade. Vivi isso a vida toda. É inadmissível e triste. Ainda não conseguimos bater de frente com outras seleções, porque os outros países já estão mais desenvolvidos.

Você falou que a CBF te alertou sobre "jogadoras-problema" quando você chegou. Como acabou sendo sua relação com elas? Deu pra entender depois porque eles consideravam elas assim?

Eu já passei por essa situação em um clube em São Paulo. A diretoria me numerou umas cinco atletas-problema e eu disse que a decisão era minha e nós não teríamos problema nenhum com elas. Dito e feito. Trabalhei dois anos e nunca aconteceu nada. Na Seleção não foi diferente. Eu disse que queria trabalhar e conhecê-las. Eu não poderia julgar uma coisa pelo que os outros estão falando. Usei os mesmos critérios que uso com os clubes e não tenho nada para falar delas de algo que elas não fizeram. Estaria sendo muito injusta. Elas são as pessoas que temos mais a agradecer pelo trabalho feito. Todas merecem o nosso respeito.

Como você avalia agora o futuro para a Seleção e do futebol feminino no Brasil em geral? Quais são seus próximos planos?

Torço para que tudo dê certo, para que as meninas tenham sucesso e a seleção consiga os objetivos, que são difíceis. Vou descansar no próximo mês e depois começar a pensar na conclusão das licenças que a CBF exige. Já estou estudando algumas propostas que estão acontecendo e chegando ao meu empresário. Minha ideia é ir para fora do país, tentar fazer a carreira lá fora. Se aparecer algo interessante aqui, posso voltar. Ficaria perto da minha família, passei a vida longe deles.