Bruno Cassucci
10/08/2016
08:00
Enviado especial a Salvador (BA)

Este texto é para você que acha que falta vergonha na cara dos jogadores da Seleção Brasileira. Também para você que vaiou Renato Augusto a cada toque na bola no segundo tempo da partida contra o Iraque, que acha Rogério Micale mais um "Professor Pardal' e que acredita que amor à camisa e força de vontade trarão o inédito ouro olímpico. Te escrevo pois acho que você pode (e até deve) criticar à vontade a equipe, seus atletas, treinadores e dirigentes. Mas não pelos motivos que tem usado e muito menos quando a bola ainda está rolando.

Vamos por partes, começando do ponto que me parece mais simples. Se você é torcedor e não consumidor, não faz o menor sentido ficar xingando, vaiando ou gritando contra a Seleção enquanto a bola rola. Aliás, talvez você nem perceba, mas esse foi um dos motivos pelos quais a Seleção fez duas partidas bem abaixo do que pode contra África do Sul e Iraque.

"Pronto, esse jornalista agora quer me convencer que a torcida é a culpada pelo início pífio do futebol masculino brasileiro na Olimpíada", você deve estar pensando. Não é isso. Mas sabe aquele passe de dois metros que o Renato Augusto errou? Aquela decisão bizarra tomada pelo Gabriel Jesus? Aquela bola dominada toda torta pelo Felipe Anderson? Sinto te informar, mas o clima negativo criado por quem não incentiva e só pressiona no estádio gera isso.

A atmosfera no Mané Garrincha no último domingo é difícil explicar para quem não estava lá. Eu nunca vivi nada igual em um estádio de futebol - como torcedor e também como repórter. Se das tribunas eu já me sentia sufocado, imagina quem estava no gramado...

O que não quer dizer que o problema da Seleção venha de fora para dentro, ok? A questão emocional e todo o peso de jogar uma competição em casa depois do 7 a 1 afetam um grupo de garotos, mas há muito mais. E aqui entra o segundo ponto.

Não falta vontade a esse time. Se você não acredita, basta lembrar que Marquinhos e Felipe Anderson brigaram com seus clubes para serem liberados, que Renato Augusto viajou mais de 30 horas e treinou na sequência, que Neymar escolheu a Olimpíada em vez da Copa América e que é até óbvio que garotos de vinte e poucos anos estejam sedentos para ganhar um título em casa.

Há inúmeros componentes que decidem jogos de futebol e "vergonha na cara" é um deles, inclusive. Entretanto, acompanhando a Seleção olímpica por quase três semanas não diagnostiquei esse problema. Mas existem vários outros...

Um deles está na escolha de jogadores. Repare que Micale teve como única alternativa substituir um lateral por outro no fim dos dois jogos que o Brasil teve na Olimpíada. A opção por atletas sem ritmo, em especial Rafinha, que mal jogou neste ano, também parece equivocada. Você também pode não gostar da formação com quatro atacantes, do posicionamento de Renato Augusto, da escolha de Weverton...

Por falar no goleiro, é inegável a falta que faz Fernando Prass. Mais como líder até do que debaixo da meta. Neymar já deu mostras de que talvez não seja o mais indicado para a função de capitão, o que não é um defeito, mas apenas a falta de uma qualidade.

Em conversa com o amigo e jornalista Renato Rodrigues, analista de desempenho que hoje trabalha na ESPN, refleti sobre um outro suposto erro de Micale. O técnico definiu um modelo de jogo ousada e complexo mesmo tendo pouco tempo para treinar. Não é fácil assimilar e executar alguns dos conceitos que ele deseja em tão pouco tempo. Assim, pensando em ter organização, se obtém exatamente o oposto, a desordem - no sentido negativo, não o "caos" ofensivo que o treinador deseja.

Apesar de tudo, ainda confio em uma melhora da Seleção e na classificação às quartas de final da competição. Seja lá qual for o resultado nesta noite contra a Dinamarca, fique à vontade para criticar o Brasil, um dos mais tradicionais hobbies do torcedor daqui. Mas faça isso com argumentos e quando a bola não estiver rolando.