Marcio Porto
08/12/2016
13:50
São Paulo (SP)

Rogério Ceni voltou. Um dos maiores ídolos da história do São Paulo foi apresentado como técnico do clube nesta quinta-feira, quase um ano depois de ter encerrado sua gloriosa carreira como goleiro. Não à toa, a sala de imprensa do CT da Barra Funda estava lotada de jornalistas, torcedores, dirigentes e profissionais do Tricolor. Tudo para a primeira entrevista do novo treinador, que disse ter sido movido pelo coração e que buscará a glória agora em nova função.

- Meu coração diz que se o São Paulo me chama para uma oportunidade como essa, eu jamais poderia recusar. O que me moveu foi mais ou menos o que me moveu a bater uma falta em 1997, quando nenhum outro goleiro brasileiro tinha feito isso. O que me move são os grandes desafios. Como em toda minha carreira, passei por todas as situações, de glórias, títulos, grandes dificuldades. Meu pai sempre diz que só erra quem decide. Quero ser julgado como treinador, não mais como jogador. E vamos tentar montar um elenco forte para o próximo ano - proferiu Rogério Ceni, depois de ser apresentado pelo presidente Carlos Augusto de Barros e Silva.


Rogério Ceni assinou contrato de dois anos com o São Paulo e começará a trabalhar mesmo no campo a partir de janeiro, durante a pré-temporada nos Estados Unidos com a disputa da Flórida Cup. Durante a entrevista, que durou cerca de 40 minutos, Ceni detalhou como foi seu processo de preparação até fechar com o Tricolor.

- Eu tive o segundo semestre fora. O primeiro aproveitei para descansar, acompanhar o São Paulo na Libertadores, no Morumbi, em especial, e pela TV, nos jogos fora de casa. Vi um semestre promissor, de possibilidade de grande conquista. E no segundo semestre fui para a Inglaterra. Passei vários dias, fazendo curso da federação. Para aprimorar o inglês, primeiramente, e o aprendizado que a federação oferece. Minha intenção era fazer níveis mais avançados do curso, mas apareceu esse convite, essa oportunidade. E como conversei com o técnico do West Ham, Slaven Bilić, ele me dizia que a gente fica esperando uma oportunidade, e ela nem sempre acontece. E eu resolvi interromper os estudos para ser treinador - disse Ceni.

Na coletiva, Ceni confirmou que trabalhará com dois profissionais estrangeiros em sua comissão técnica: o inglês Michael Beale, que era técnico do Sub-23 do Liverpool, e o francês Charles Hembert, especialista em logística, mas que num primeiro momento auxiliará Michael com o trabalho do campo por falar fluentemente o português. Ceni contou que o inglês já está fazendo aula de português para assumir suas funções no São Paulo.

Abaixo, você confere alguns trechos da entrevista coletiva de Rogério Ceni:

Papel de torcedor no desempenho do time
Vai ser fundamental durante toda a caminhada, mas especialmente neste início. Temos primeiro a Flórida Cup, depois o Paulista que nos permite apenas seis jogos no Morumbi. E acho que uma política adotada com inteligência pelo nossa presidência, marketing, os anéis superiores com preços acessíveis, para que tenhamos sempre 40 mil pessoas nos ajudando. Mais do que o time colocado em campo, o apoio do torcedor sempre foi e será fundamental.

O que pautará a relação com os jogadores, como vai ser?
A lealdade, a sinceridade, a objetividade, o falar olho no olho. Como sempre gostei que fosse assim comigo. Lamentavelmente tenho que dar esse exemplo, do Mário Sérgio, que veio a falecer. Em 1998, ele me chamou numa sala, disse que não gostaria que eu batesse falta, ele queria que eu fosse o goleiro, organizasse a defesa. Eu não bati nenhuma falta, mas ele foi sincero. Nem sempre você vai conseguir agradar a todos os atletas. Mas acredito no senso de justiça da meritocracia, como me trouxe até aqui. E conto com isso para formar um grupo forte e saiba lidar como homens, olhando diretamente para cada atleta, tratando de forma verdadeira.

Qual percentual de influência de um treinador em um jogo?
Eu não tenho como avaliar o percentual de um treinador porque ainda não exerci essa função. Eu me considero apenas uma parte de um todo de um clube, incluindo atletas, comissão técnica. Não tenho como avaliar um percentual exato da importância de um treinador. Acredito que o importante no ambiente de trabalho é que você se sinta à vontade naquilo que você exerça.

Exigências aumentarão como treinador?
Sempre fui muito exigente comigo mesmo, antes de ser exigente com qualquer companheiro. Eu penso que o coração, a alma, é algo que já está inserido no profissional de futebol. Não precisa que eu faça isso. E vejo que existe na grande maioria aqui. Talvez precise um pouco de ajuste, que ainda foge do meu conhecimento. Mas não tenha dúvidas de que eu gostaria que eles vivessem o futebol como eu vivi. Até porque acredito que uma das razões de eu estar aqui é como foi meu perfil como atleta.

Já pensa no primeiro título? Quando será?
Eu penso na minha primeira vitória, que é meu primeiro jogo. E depois daí tentar construir vitória após vitória para conseguir títulos. Méritos para ter títulos. Eu faço planejamento de vitórias. O Atlético-MG entrou como favorito, ontem o Grêmio segurou o empate, foi campeão. Um detalhe ou outro.

O que aprendeu com cada treinador?
Garanto a você que aprendi com todos eles. Tive uma discussãozinha com um, com outro. Mas com todos os treinadores, aprendi as coisas que se deve fazer, e as coisas que não se deve fazer, e tento tirar isso como uma mescla, além de todos que conversei ao longo dos anos. Não só os que treinei, mas os que enfrentei, com certeza todos eles fizeram parte da minha formação como indivíduo e como treinador.