Bauza - São Paulo

Edgardo Bauza, em um de seus últimos treinos no São Paulo (Foto: Maurício Rummens/Fotoarena/LANCE!Press)

Marcio Porto
02/08/2016
13:27
São Paulo (SP)

Em uma de suas últimas entrevistas pelo São Paulo, o técnico Edgardo Bauza tentou explicar sua fala de junho, quando declarou em entrevista ao LANCE! que não deixaria o São Paulo mesmo se recebesse uma proposta da Argentina. Por ironia do destino, na última segunda-feira o treinador foi confirmado como comandante da seleção de seus país. Bauza pagou pela boca.

- É o preço de nossas palavras em algum momento. Não pensava que chegaria a possibilidade. Porém, quando chegou, analisamos com a comissão e creio que me chega num momento bom momento para assumir essa responsabilidade. Tenho pouco tempo e que trabalhar muito. Foram palavras naquele momento, longe de pensar que se passaria o que passou agora - afirmou.

Na sequência, Bauza foi perguntado sobre o que diria ao torcedor que por ventura se sentiu traído com a declaração dele falando de não sair do São Paulo. Na ocasião, o técnico era semifinalista da Libertadores e disse que, se fosse o caso, ainda renovaria contrato. Seu vínculo terminaria no fim do ano.

- Já agradeci (à torcida), pelo todo apoio que me brindou à equipe e a mim. Tratamos de dar o que a torcida queria, uma equipe que se identifique. E não é pouca coisa o que fizemos. Por momentos o torcedor se sentiu orgulhoso, ele se sente identificado. E creio que isso é um valor importante. Agradeço por todo o apoio que tivemos de tudo, e necessitamos que sigam. E a parte que a diretoria vai seguir trabalhando para que a equipe melhore - analisou Bauza.

A entrevista em questão foi publicada em 10 de junho, quando se preparava para disputar a semifinal da Libertadores. Na época, vinha sendo exaltado pela diretoria, com quem sempre teve relação de respeito. Seguem o que disse Bauza na ocasião, quando perguntado se poderia repetir Juan Carlos Osorio, que deixou o São Paulo para assumir o México.

Ano passado, o colombiano Juan Carlos Osorio interrompeu um trabalho aqui para treinar a seleção do México. Isso foi um pouco traumático para o torcedor. Isso pode se repetir?
Não. Não há nenhuma possibilidade. Primeiro porque ninguém falou disso neste momento. Já ocorreu em outros clubes, como San Lorenzo e LDU. Eu tenho contrato (até o fim do ano) com São Paulo e irei terminá-lo. Se quiserem, ainda renovo quando acabar. Não posso dizer que sairei porque alguém me chamou. Não posso, me daria vergonha chegar no presidente e dizer que vou sair porque o Paraguai veio me buscar. Tenho um contrato. Se quero que me respeitem aqui, tenho que respeitá-los.
(Nota da redação: Osorio saiu em meio a um conturbado cenário político, em que não tinha confiança no ex-presidente Carlos Miguel Aidar, que renunciou ao cargo por denúncias de desvio de dinheiro).

Mas tem aspirações maiores?
Claro que tenho. Dirigindo San Lorenzo recebi uma proposta do Paraguai, uma da Costa Rica e uma do Equador. E recusei as três por ter contrato. Disse que não poderia e que terminaria o contrato.

E se fosse a Argentina?
Igual! Por mais que motive mais, é igual. Passa por questões de princípios. Se eles me mantêm mesmo com duas derrotas seguidas, tenho que respeitar o clube. Estamos em pleno processo de construção de um time, que está se consolidando agora. Qualquer técnico gostaria de dirigir seu país. Mas este é um tema político e complicado. Se um dia acontecer, será bem-vindo, mas não é algo que me tira o sono. Há técnicos como Simeone (Atlético de Madrid) que, se Tata Martino sair, o que não acredito, será chamado. Tem Gallardo...

Bauza também agradeceu ao São Paulo e aos funcionários que lhe ajudaram na passagem de seis meses. O treinador disse que deu uma identidade importante ao time, segundo ele o maior legado no período que passou no Brasil. Faltando o jogo de despedida, contra o Atlético-MG na próxima quinta, Bauza tem aproveitamento de 46,5% dos pontos, com 18 vitórias, 13 empates e 17 derrotas.

Confira abaixo os outros trechos da entrevista de despedida do treinador:

Balanço de passagem
É difícil para mim começar os agradecimentos porque são muitos. A primeira pessoa que me encontrei em Quito foi Gustavo, falando de futebol, São Paulo. Fechamos um acordo, e começamos a trabalhar. Agradeço ao clube, porque desde que cheguei me abriram as portas. A mim e a toda comissão. Realmente, nos facilitou tudo para que possamos trabalhar da melhor maneira. E o clube está preparado para isso. Um agradecimento porque me tomo como um prêmio para o momento de minha carreira, em que me encontro seguro, mas também pela minha passagem pelo São Paulo. E uma relação que, fora a distância, vai seguir. Agradecer a todos que colaboraram conosco, a Renê, a Pintado, que estavam permanentemente trabalhando com a gente. A todo o pessoal de imprensa, que também colaborou com a gente. É um agradecimento com todos.

Mais agradecimentos
Agradecer a todos, demos uma identidade ao time, ficamos entre os quatro melhores da América, que é um orgulho. Agradecer à torcida, que sempre nos apoiou. Essa semana não foi fácil, foram dias muito complicados. Depois de ter viajado, conversado, aceitei toda essa responsabilidade. Falando primeiro com a diretoria, clareando tudo a eles, e agradeço a eles pela facilidade com que permitiram as coisas. Agradecer à imprensa, apesar das críticas ruins, boas. E espero voltar um dia para visitá-los e ver alguma partida da equipe.

Que legado deixa?
Lembro que nos dois dias que tivemos em Quito com Gustavo. Planificamos o trabalho, e havia uma ideia entre nós. Dar uma identidade ao time para começar a crescer. Faz mais de três anos que o São Paulo não ganha um título. E para pensar nisso, havia que armar uma equipe. Com essa ideia, começamos a trabalhar e isso conseguimos. Talvez alguns não gostam, ou possa fazer melhor, tudo bem. Mas a equipe tem uma identidade, de acordo com a história do clube e agora estamos tratando de melhorá-lo mais. Vou seguir trabalhando até o último minuto nesse clube. Seja dois dias, uma semana, o que seja. Para mim, isso foi o melhor. Seis meses de trabalho com alguns atletas, trato de dar-lhe ferramentas para seguir crescendo. Mais os jovens, ajudamos mais

Perdas de jogadores foi o que mais atrapalhou?
As saídas foram no fim. O problema maior que tivemos foi no campeonato brasileiro com a Copa Libertadores, porque tivemos de jogar várias partidas com times reservas. As saídas, sabíamos de Calleri, e depois chegaram oportunidades aos atletas. E nisso jamais me oponho, porque se eles pensam que é uma boa oportunidade, e o clube também, não sou de me opor. Aconteceram lesões importantes, como Ytalo, Lucas Fernandes, lesões graves, que também complicaram. São coisas que acontecem e não se pode mudar.

Frustração
Cada partida que perco sempre é uma frustração. E creio que a semifinal, por fatores que não nos ajudaram um pouco, para que a equipe chegasse à final. Fiquei com gana de jogar a final da Libertadores. Essa foi a bronca maior que fiquei. Estava num processo de crescimento, de trabalho. E isso fiquei satisfeito. Estivemos bastante perto de chegar à final.

Como fica Buffarini?
Com Buffarini, o São Paulo tentou trazer quando eu era técnico do San Lorenzo. E o reforço não é para mim, é para o São Paulo. E estou feliz com esse esforço que a diretoria fez para trazê-lo porque acredito que irá muito bem. Conversamos pouco, porque já nos conhecemos muito bem. Não tenho que dar explicações. Mas estou seguro que será um jogador muito importante. Que poderá brindar o que deu em cada equipe que passou