Bruno Grossi e Marcio Porto
26/06/2016
06:10
São Paulo (SP)

– Vivo para o futebol. Me levanto, treino, volto para casa e vejo futebol brasileiro. Jogo futebol no videogame e vejo futebol argentino. Futebol é tudo na minha vida. Trato de não fazer só como um trabalho, é uma paixão que faço e não gosto de quem leva como uma obrigação apenas. Não gosto, porque minha paixão é jogar.

O discurso de um obcecado por futebol é de Jonathan Calleri. Com apenas 22 anos, ele ainda se acostuma à nova vida que leva. Mora sozinho no Brasil, longe da família pela primeira vez. É querido no Boca Juniors (ARG) e tornou-se estrela no São Paulo, mas sabe que precisa de mais. Um título, é claro, e vencer um clássico como o deste domingo, às 16h, contra o Santos no Pacaembu.

– O que falta, depois de tudo o que já aconteceu nesses cinco meses, é ratificar o que fiz com um título. O mais perto é na Libertadores, o objetivo de todos. Oxalá que no Brasileirão, que é um torneio lindo também, possamos dar alegria à nossa torcida. Vai ser uma partida muito importante contra um rival – projetou Jony, em entrevista de quase uma hora ao LANCE!.

No encontro, o artilheiro do São Paulo no ano com 15 gols reforçou o sonho de disputar a Olimpíada do Rio de Janeiro, a ponto de criar dúvidas até sobre sua participação em uma possível final da Libertadores. Da alegria com o canto “toca no Calleri que é gol” ao drama pela da morte, Jony se abriu até para acusar certo preconceito dos árbitros com os estrangeiros.

Já aprendeu o português?
Não (risos), nem acho que vai dar tempo. Mas consigo entender tudo. Estava escutando a partida de quinta-feira (0 a 0 com o Sport) no rádio. Entendi tudo. Estava indo para o estádio, cheguei um pouco tarde, escutei pela rádio. Mais difícil é falar, mas me entendem.

Está como imaginava estar quando chegou ao São Paulo?
Quando vim não sabia o que encontraria. E na verdade estou em um clube muito ordenado. É um clube muito leal, com um presidente muito presente, que está sempre com os jogadores. A diretoria trabalha todos os dias para que os jogadores tenham tudo. E creio que esse conjunto de coisas fez com que o São Paulo viva um grande momento. Na parte econômica sei que não está passando um momento tão bom, mas está caminhando.

Mas reconhece que é uma passagem intensa? São 15 gols, dez amarelos e dois vermelhos...
Quando entro no campo, sinto a torcida. Sobre ter tantos cartões, creio que fazem isso mais com os estrangeiros. Nos tratam de outra maneira, diferente dos brasileiros. Os árbitros explodem rápido.

Flamengo x São Paulo
Contra o Flamengo, Calleri marcou dois gols, mas acabou expulso por reclamação (Foto: Andre Borges/AGIF/Lancepress!)

Na súmula do jogo contra o Flamengo, o árbitro Elmo Resende Cunha disse que o expulsou por dizer: “Só porque sou argentino, c...?” É verdade?
Não sou de falar com os árbitros. Me queixo quando faltam com respeito a um jogador que não havia falado nada. Os brasileiros quase batem neles e nada! Ele reclamou por eu ser argentino e me expulsou. Deve ter algum tipo de problema com isso. Não falo com árbitros, não me interessa falar. Tomam um papel secundário nas partidas, os protagonista são os jogadores.

Existe um preconceito, então?
Outros jogadores brasileiros xingaram e nada fizeram. Mas não tem que falar mesmo, o árbitro tem que dirigir o jogo. Sei que estou mal com esses cartões, tenho que tentar não tomar tantos para poder jogar mais.

Já parou para pensar que, em cinco meses, fez os mesmos 15 gols de 2015 inteiro pelo Boca Juniors (ARG)?
Não me peguei a pensar nisso. Eu não joguei muito no primeiro semestre do ano passado, mas no segundo joguei quase todas. Estou formando parte de uma equipe que joga para um 9 sempre e me sinto muito bem. Toda a equipe quer que eu faça gols. Me sinto muito bem com quem me passa a bola, os que me assistem, e se não fosse por eles, não teria o tanto de gols que tenho. Vamos melhorar e que os gols importantes sejam os próximos e que sirvam para ganhar um título.

Bauza diz que você é importante porque machuca os zagueiros. Age assim desde sempre?
Não, faz tempo que tenho isso. É uma virtude que vem desde a base. É importante que um atacante saiba defender. Serve para ir desgastando os zagueiros, tentar sempre estar ali, para esperar que o defensor falhe. É uma virtude, que melhorei faz tempo, e obviamente Bauza ajuda para ser importante para a equipe.

Bauza o chamou e disse “venha para ser campeão como o 9 na Libertadores”?
Ele pegou o telefone, me chamou e perguntou se viria. Eu disse que sim, que estava completamente seguro disso. Deram a possibilidade de jogar, mas teria de ganhar a posição no campo. Ele me deu confiança e obviamente sou agradecido.

Bauza conversa com Calleri no treino do São Paulo
Bauza tem ótima relação com Jony (Foto: Reprodução L!TV)

No Brasil talvez não tenhamos noção do peso de Bauza para o futebol. Como é na Argentina?
Patón tem um peso importante. É a quarta equipe que ele leva a uma semifinal. Ganhou duas vezes e tem a possibilidade de ganhar a terceira agora. É respeitado, tem uma mística na Libertadores. Ganhou com o San Lorenzo (ARG), um clube que não havia sonhado em ganhar uma em cem anos. Aqui mostramos, com ele, que somos um grande plantel, onde todos estão para o mesmo lado, indo para ganhar a Copa.

E se a final for contra o Boca, isso pode afetar seu jogo?
Não. Respeito o clube que me deu a possibilidade de passar um ano e meio muito lindo, com títulos importantes, realizando o sonho de jogar com Tévez. Mas essas coisas já passaram. Se tiver de jogar contra, tenho todo o respeito, mas hoje estou aqui no São Paulo. Não tem nada a ver. Estou no clube que teve a valentia de me levar quando estava sem jogar. Não tenho nenhum drama com isso.

Bateria um pênalti na Bombonera em uma final?
Sim, não teria problema. Bateria o pênalti em qualquer circunstância.

E uma vitória em clássico, ainda falta? Você jogou três e só conseguiu um empate com o Santos, rival deste domingo.
Sim. Não sei que tipo de clássico é contra o Santos, mas sei que faz muitos anos que o Santos tem sido campeão e jogando melhor. Até ganhou Libertadores recentemente (2011). Jogamos no campo do Santos no Paulistão, e foi lindo jogar. Clássicos são lindos. Ver a torcida vestir a camisa e devolver à torcida o carinho que te brindam no campo. E tomara que a gente tê alegria a eles.

E o que pensa da ação de chegar ao estádio no mesmo ônibus que a delegação do Santos?
É uma boa iniciativa para acabar com a violência nos estádios. A torcida e os jogadores precisam entender que é um jogo. Nos 90 minutos lutamos contra a morte, mas quando termina a partida, termina tudo. Seria muito lindo se tivesse torcida dos dois lados no próximo clássico com o Santos.

Campeonato Paulista - Santos x Sao Paulo (foto:Miguel Schincariol/LANCE!Press)
No Paulistão, Calleri teve atuação discreta no 1 a 1 com o Santos na Vila Belmiro (foto:Miguel Schincariol/LANCE!Press)

Na Argentina os problemas de violência também levaram a clássicos com torcida única...
Faz muito tempo que jogam sem público visitante. E seria muito lindo que voltasse ser como era. É muito lindo torcer para tua equipe, seguir o clube em todos estádios. E creio que no futuro poderá ser. Oxalá que passe!

Você era torcedor apaixonado?
Sim, sempre segui meu time de visitante e de local, por isso queria que voltasse. Sou torcedor do All Boys, o clube onde nasci e que há pouco tempo jogou na primeira divisão por três anos. Fui em vários estádios torcer. Desfruto de ver futebol, de torcer. Torcer é o que eu mais gosto.

Dormia com a bola ?
Sim, sim (risos). Fazia isso e muitas outras coisas com o futebol. Sei que tem gente que se cansa ou que muda de esporte ou vai estudar. Eu tive a oportunidade de continuar jogando e fazer disso um trabalho e uma paixão.

E se não fosse jogador?
Agora já foi (risos)! Não posso falar do que seria se não virasse futebolista. Sempre soube que jogaria. Não sabia se na elite ou nas divisões inferiores, mas sabia que viveria de futebol. Tive essa possibilidade de fazer disso um trabalho apaixonado e quero manter.

O que menos gosta no Brasil?
O trânsito, o fato de ser uma cidade muito grande, mesmo que more perto do CT. Em Buenos Aires também era ruim e eu ainda morava bem longe do Boca. É uma cidade grande, linda, que me recebeu nesses cinco meses longe de minha família pela primeira vez na vida. Tinha que começar meu próprio caminho com minha namorada e criar minha própria família.

Micaella Fusca - namorada doa atacante Calleri, do São Paulo
Calleri e a namorada Mica Fusca (Foto: Reprodução/Instagram)

Já vai casar, então?
Não, falta muito ainda! Estamos bem, namorando há cinco anos. Estamos nos separando dos pais, de casa, para formarmos nossa própria vida, nossa própria família. Me sinto bem nessa experiência.

Você tem muito carinho com seu sobrinho. Sonha em ter filhos no futuro?
Sim, muito! Sou apaixonado por meu sobrinho, que conheceu o CT já, mas ainda não teve a sorte de entrar comigo no campo. Foi um período muito lindo com eles aqui.

Logo depois desse período, seu amigo Vladi morreu. Como tem lidado com essas lembranças?
Recordo das coisas que passamos, dói um pouco. Mas o que melhor posso fazer é recordar dele com um sorriso. Sinto falta todos os dias, é estranho. Passou dez dias aqui e viria agora para a semifinal também. Tenho que recordar dele com sorriso.

Vai homenagear Vladi de novo?
Não gosto de ficar programando as coisas para expressar sentimentos. Trato de fazer por mim, pelo que sinto. Se fiz aquilo, é porque veio de dentro. Por isso mostrei a camiseta. Tenho que lembrar de tudo com um sorriso e um gol é uma forma de dedicar meu carinho a tudo o que passamos.

Se não for campeão, será lembrado de que forma?
Se lembrarem da equipe, lembrarão de mim. E que isso abra portas para que os argentinos sigam chegando a este clube. Que a torcida goste deles e cante para eles como faz para mim. Que eles sejam bem recebidos. Quero deixar uma marca e abrir a porta para novos argentinos defendam o clube com gana.

Depois de ver dois títulos olímpicos da Argentina como torcedor, agora quer ganhar um jogando também?
Oxalá, oxalá esteja na convocação de Tata Martino. É meu sonho há muito tempo vestir a camisa da seleção. Estou dentro dos 35 pré-convocados, mas são muitos atacantes e é difícil eleger entre um e outro. Tenho o desejo de estar no Rio e cumprir meu sonho de criança.

Jovem valor argentino no futebol, Dybala é uma das esperanças do país
Dybala é titular da Juventus, mas não deve ser liberado para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (Foto: AFP / MARCO BERTORELLO)

Quem são seus concorrentes?
Icardi, Dybala e Vietto, de centroavante são esses, todos que jogam na Europa em grandes clubes.

Mas eles podem não ser liberados pelos clubes...
Sim, mas isso também pode acontecer comigo aqui. Tomara que consiga jogar a Libertadores e a Olimpíada. Não gostaria de escolher entre uma e outra. Obviamente tenho o sonho de defender a seleção, seja sub-23, tenho esse desejo. É difícil, mas quem sabe.

Acha que o torcedor do São Paulo entenderia se você perdesse a final da Libertadores pela Olimpíada?
Não sei o que vai acontecer, teria que falar com os dirigentes daqui e da seleção. Sei que a estreia é em 6 de agosto), mas que a apresentação é antes (a primeira data é 4 de julho). Mas ainda não estou na lista final, então não especulo nada e só trabalho para que me vejam aqui.

Mas existe a possibilidade de perder a final?
Não sei. Não tenho ideia. Falarei com os dirigentes, mas sempre disse que um sonho era encontrar lugar entre os 18 da Olimpíada.