Marcio Porto
14/11/2016
07:05
São Paulo (SP)

Enquanto o torcedor do São Paulo se empolga com as boas atuações do atacante David Neres, outro jogador também de 19 anos morre de ansiedade. O meia Lucas Fernandes está fora desde junho, quando operou o joelho esquerdo, e não vê a hora de jogar com o parceiro de base. Só será possível em 2017. Mas tanto Lucas quanto Neres já aprenderam que o tempo cura.

Companheiros de time desde o sub-13, Lucas Fernandes e David Neres nem sempre foram parceiros. A verdade é que não se gostavam. Um queria ser melhor que o outro, de acordo com Lucas. Mas o tempo passou e a dupla protagonista no time multicampeão sub-20 agora só pensa em brilhar no profissional. São apostas do São Paulo para retomar o caminho das conquistas a partir do ano que vem.

– Dentro de campo, a gente não se dava bem, não. Era um querendo se dar melhor que o outro, era competição o tempo todo. Mas depois vimos que nós dois juntos podíamos fazer bem mais e foi o que aconteceu. Nos juntamos e melhorou muita coisa – contou Lucas Fernandes, em entrevista ao LANCE!.

Além do joelho em que sofreu rompimento de ligamento, Lucas precisou operar o ombro esquerdo e ainda precisa cumprir algumas etapas para voltar a jogar. Perderá as férias. Enquanto os colegas estiverem curtindo, ele estará em tratamento no CT. Mas não faz mal. O objetivo do garoto, como contou neste bate-papo no intervalo de uma sessão no Reffis, é voltar o quanto antes. O são-paulino e o parceiro David Neres, autor de gol na goleada por 4 a 0 sobre o Corinthians, o esperam.

Como está a recuperação?
Um pouco demorada. Tem de ter paciência. Está evoluindo bem, pelo menos é o que pessoal fala. Tem de ter paciência para voltar.

Como lidar com isso período fora, a ansiedade?
Bate uma ansiedade grande, ainda mais agora que a molecada da base está sendo bem aproveitada. Vontade de jogar com eles, ajudar o São Paulo é indiscutível. Mas tem de ter paciência mesmo.

Ver David Neres e Luiz Araújo entrando, fazendo gols,  dá mais vontade de jogar?
Deixa mais ainda com vontade de jogar porque passamos por um momento difícil e hoje a molecada está dando conta do recado. Queria fazer parte disso, mas ano que vem será um ano bom para a gente.

Já se imagina jogando com eles, fazendo jogadas?
A gente conversa bastante, como que seria jogar nós quatro juntos, eu, Luiz Araújo, David, o próprio Lyanco. A gente imagina repetir agora no profissional o que fizemos na base.

Conta um pouco mais sobre o processo de recuperação. Que etapa está agora? O que ainda precisa trabalhar?
Da cirurgia no joelho estou em fase de fortalecimento, academia, estou liberado para correr, mas ainda o ombro que dá restrição. Vou fazer três meses da cirurgia no ombro, mais um mês posso dar um trote, fortalecer o ombro. Mas o joelho está bem, então é esperar o ombro para dar continuidade no trabalho.

Esse ano ainda volta a correr?
Volto, acho que esse ano ainda volto a correr, em dezembro já faço um trabalho com bola. No fim de janeiro já estou liberado, é a previsão.

Vai ter de fazer algo nas férias, como fica?
Sim, vou ficar direto. Não vou tirar férias, minha prioridade é terminar o mais rápido possível para ficar à disposição o mais rápido possível.

Sem férias?
Sem. Vou pegar só a data das festas, Natal e Ano Novo e voltar logo no começo de janeiro para retornar o mais rápido possível.

E não está incomodado com isso?
Ah, incomoda, mas eu estou acostumado porque na base a gente ficava em preparação para a Copa São Paulo. Faz uns quatro anos que não tenho férias. Para mim, a prioridade é o futebol, é minha saúde para voltar o mais rápido possível.

E o que está imaginando para 2017? Quais são os planos?
Primeiramente, quero voltar bem das duas cirurgias, do joelho e do ombro, sem dor, restrição, e dentro de campo buscar meu espaço, com trabalho, jogando para o time. Isso que vai falar se serei titular ou não.

Acha que 2017 será o ano da molecada?
Tem tudo para ser. Começamos bem em 2016, estreamos bem. Em 2017, a base tem tudo para dar jeito no time do São Paulo e ajudar a equipe a quem sabe sair com vários títulos.

A torcida está empolgada com o David Neres. O que pode falar dele, já que o conhece bem?
Eu jogo com ele desde os 13 anos, então eu tinha certeza de que quando ele entrasse, não sairia mais do time. Ele é muito frio, sabe o que tem de fazer dentro de campo. E é isso, vai ser difícil ele sair do time agora.

Por que tem tanta certeza disso?
Porque ele é craque. É isso. Não tem outra explicação. Ele é diferente, habilidoso, não tem medo de fazer a jogada. Ele é frio, isso que quero dizer.

Desde os 13, o que já fizeram juntos?
Já fizemos bastante coisa. Ganhamos bastante coisa na base. No começo, a gente não era muito amigo, não (risos). Era briga. Não se dava muito bem, não, mas depois foi jogando bastante tempo junto, aí virou amigo, a parceria falou mais alto e ansioso agora para jogar ao lado dele.

Não se davam bem quando tinham 13 anos?

Sim, aos 13, 14, não nos dávamos muito bem. Com moleque você sabe, né? É difícil a convivência. Mas aí o futebol nos uniu e o destino colocou a gente juntos.

Mas o que aconteceu? Discutiam sobre o jogo? O que era?
Dentro de campo, a gente não se dava bem, não. Era um querendo se dar melhor que o outro, era competição o tempo todo. Mas depois vimos que nós dois juntos podíamos fazer bem mais e foi o que aconteceu. Nos juntamos e melhorou muita coisa.

Acredita que suas característica de jogo podem somar ainda mais para ele e o contrário também?
Melhorar eu não sei se melhora, mas facilita. Porque é muito bom jogar com ele, a gente se entende, já sabe o jeito de jogar de cada um. Então é muito fácil jogar ao lado dele.

Como vocês se chamam entre vocês? Qual o nome da parceria?
Ah, eu chamo ele de “fecha”. De fechamento. E ele também me chama assim. Nas redes sociais é sempre assim, é nosso nome que criamos.

O que projeta na sua carreira no São Paulo?
Já planifiquei. Quero voltar bem, para ter meu espaço no time, e fazer minha história aqui. Ser campeão, Brasileiro, Libertadores, quero ganhar títulos aqui e deixar meu nome na história desse clube. E depois, mais para frente, quando tiver ganhado títulos, consolidar minha carreira, quem sabe ir para a Europa. Mas primeiro quero construir aqui.

Tem conversado com o Ricardo Gomes?
Pouco, né? Porque fico muito tempo no Reffis, faço bastante coisa para o joelho, ombro, então é difícil bater um tempo com ele. Mas sempre que dá, venho no campo ver o que ele está passando para os jogadores, os treinamentos, porque é importante ver o que ele está passando para os companheiros.

Qual foi a importância de Edgardo Bauza, hoje técnico da Argentina, na sua carreira?
Foi a oportunidade que ele me deu, de estrear no profissional e a confiança que ele estava me dando. Agora é só manter o trabalho que ele começou aqui dentro do campo com os próximos treinadores que vieram.

Quando ele saiu você ficou chateado?

Não, é coisa do futebol. Um dia você está com um, outro dia com outro. É assim, tem de ter cabeça aberta para saber que um dia você estará num lugar e não terá mais seus amigos. O futebol gira rápido.

Qual a principal lição que tirou desse período parado?
Tirei que a gente não é nada. A gente é muito vulnerável. Trabalha bastante, mas em coisas de segundos, você pode estar em cima, e em segundos pode estar embaixo. É ter sempre a humildade, paciência, para conseguir estar em alto nível sempre.

O que você pode falar para os torcedores que estão na expectativa de te ver jogar ano que vem.
Eu posso dizer que o Lucas Fernandes em 2017 virá com muita vontade, de jogar, ajudar, de não deixar mais o time passar pela situação que passou. Espero ajudar o time a sair com títulos e gols, que é importante. Muita vontade.

O São Paulo nunca teve a base como referencial como o Santos, por exemplo. Chegou o momento de apostar nos garotos?
Chegou o momento, mas sempre pode confiar em Cotia. Sempre saíram grandes jogadores. Lógico que não muitos, mas os que vieram sempre deram conta. E vale a pena apostar na base, sim, a molecada tem força para dar o melhor no São Paulo.