Marcio Porto
10/12/2016
07:00
São Paulo (SP)

Quando deixou o Boca Juniors (ARG) após ser comprado por um grupo de investidores ingleses, Jonathan Calleri imaginava que ficaria seis meses no Brasil e partiria para a Europa realizar o sonho de dez entre dez jogadores. Mal sabia que a passagem pelo São Paulo o marcaria de uma forma capaz de estabelecer o laço que hoje ele e a família consideram para toda a vida.

– No Brasil, só jogo no São Paulo. E um dia voltarei. Não sei quando, mas voltarei – afirma Calleri, em entrevista ao LANCE!, em sua casa em Buenos Aires, deixando claro seu carinho pelo Tricolor logo após revelar que foi procurado pelo Palmeiras.

Calleri deixou o São Paulo em julho e, embora não tenha conquistado títulos, terminará o ano como artilheiro do time na temporada com 16 gols. Foi o suficiente para cair nas graças da torcida. Dia após dia, são-paulinos criam campanhas em redes sociais na tentativa de promover o retorno do atacante, atualmente no West Ham (ING). Atento e com saudade, Calleri acompanha tudo à distância. Tenta responder o máximo de mensagens. Em dia de jogos do Tricolor, sai à caça de um link para acompanhar os ex-companheiros e o time para o qual aprendeu a torcer.


É que emoções não faltaram. Do São Paulo, Calleri recebeu um gesto que o tocou. No dia 11 de junho, quando estava a caminho do Morumbi para jogar contra o Atlético-PR, pelo Brasileiro, o argentino recebeu a notícia mais triste de sua vida: Sebastian Vladi, um de seus melhores amigos de infância, morrera em Buenos Aires, vítima de um acidente de moto. Tinha 23 anos. Naquele momento, Calleri desabou. No vestiário, chorando, ouviu do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva que estava livre para viajar ao seu país e acompanhar o velório do amigo. Jony foi imediatamente e, talvez sem saber, Leco tinha conquistado o respeito da família Calleri.

– A morte do amigo o abalou demais. Não tem um dia que ele não lembre do Vladi – conta Guillermo Calleri, pai do atacante.

Guille, como é chamado o patriarca da família Calleri, também se apaixonou pelo São Paulo. Ele mesmo conseguiu sentir de perto o carinho dos torcedores pelo seu filho. Ele e a esposa Bettina estavam em Belo Horizonte quando o Tricolor conquistou a vaga nas semifinais da Libertadores ao eliminar o Atlético-MG. Após a derrota por 2 a 1 no Horto, que garantiu a vaga, Guille foi festejado pelos são-paulinos no hotel onde estava a delegação.

– Perguntavam se eu era pai do Calleri e me pagavam cervejas. Um carinho enorme. Aquilo me tocou o coração – lembra o pai.

Ali, a paixão já se estendia à mãe Bettina e às irmãs Estefânia e Guadalupe. De Buenos Aires, não perdiam um jogo do São Paulo. No Pacaembu, assistiram à goleada de 4 a 0 sobre o Água Santa, no Paulista. Choraram quando surgiu a música “Ô, ô, ô, toca no Calleri que é gol!”.

Seis meses após a despedida, o São Paulo voltou a procurar Calleri. O técnico Rogério Ceni precisa de um camisa 9 e o argentino, sem jogar, não está feliz na Inglaterra.

– Ainda tenho o sonho de brilhar na Europa. Mas um dia eu volto.

Até lá, o são-paulino espera.

DIRETORIA VÊ CHANCE DE CONTRATAR O ATACANTE EM MAIO

O São Paulo monitora a situação de Calleri e já está ciente de que ele dificilmente voltará ao clube agora. A esperança da diretoria é que haja uma negociação em maio, quando acaba o contrato de empréstimo do argentino com o West Ham (ING).

Quem cuida do assunto é o diretor-executivo Marco Aurélio Cunha, responsável por falar com Calleri e seu pai. O contato entre as partes tem sido muito amigável, e os argentinos têm deixado Marco ciente de que a volta agora é difícil.

O maior entrave é a participação dos investidores ingleses, que desembolsaram cerca de R$ 40 milhões para tirar Calleri do Boca Juniors. Eles querem que o jogador permaneça na Europa porque necessitam de uma transação para recuperar o dinheiro investido. Uma volta agora seria vista como desvalorização.

O atacante também tem intenção de permanecer lá, mas em um clube em que atue com frequência. Ele não vem sendo relacionado e chegou a jogar no Sub-23 do West Ham. Se continuar assim, Calleri e seu pai cogitam pedir rescisão de contrato. Mas só em uma situação extrema. O Tricolor aguarda.

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA COM CALLERI:

Sente saudade do São Paulo?

Tenho saudade de tudo. A torcida, o estádio, tudo que vivi. Foi muito forte o que vivi em cinco meses, o que a torcida me reconhece, nas redes sociais é algo muito lindo. É o melhor que o futebol pode te dar. Em algum momento, como sempre digo, voltarei e jogarei outra vez no São Paulo antes que me aposente, que falta muito. Foram cinco meses muito lindos.

E você volta?
Sempre se pensa. Hoje, faz quatro meses que saí, estou muito contente na Europa e meu sonho é jogar lá. Estou me adaptando, tentando jogar, e quando terminar meu contrato, veremos. Foi muito forte o que vivi, mas estou tentando meu lugar.

Marco Aurélio Cunha o procurou?
Sempre estou falando com ele, é uma pessoa que sempre se preocupa com o jogador e pelo São Paulo. Sempre falamos de voltar algum dia. Mas ele também sabe que é muito difícil, porque tampouco depende de mim, e meu sonho é jogar na Europa.

Teve contato do Palmeiras?
Sim, falaram com meus empresários, e sabem que sempre digo que no Brasil o único lugar que eu jogaria é no São Paulo. E sempre vou manter.

Como é para você terminar o ano como o artilheiro do time?
Para mim é um prêmio pessoal. Me deixa contente e tranquilo que fiz tudo. Algumas partida se jogam bem, outras se joga mal. Mas a atitude e vontade de ganhar sempre foram as mesmas. E isso me deixa contente, ser o goleador do ano não é fácil.

Segue acompanhando o São Paulo na Inglaterra?
Sim, vejo as partidas. Sempre que posso, e quando a internet não trava (risos). Pelas redes sociais ou televisão, tento sempre seguir, porque deixei muitos companheiros que me fizeram bem.