Ataide Gil Guerrero

Ataíde Gil Guerreiro deixou a vice-presidência de futebol do São Paulo, mas segue no clube (Foto: Divulgação)

Marcio Porto
22/03/2016
08:05
São Paulo (SP)

A saída de Ataíde Gil Guerreiro da vice-presidência de futebol do São Paulo não foi da maneira que o dirigente de temperamento forte esperava. Após quase dois anos no cargo mais cobiçado do clube abaixo da presidência, Ataíde sai sem provar o gostinho dos títulos, com baixíssimo nível de popularidade entre conselheiros e torcedores e ainda com o time em crise, sem vencer há cinco partidas no ano, e à beira da eliminação na Copa Libertadores.

Cenário inimaginável por aquele que o ex-presidente Carlos Miguel Aidar queria transformar no novo "Juvenal Juvêncio". Ataíde sempre foi conhecido no clube pela sua postura firme, muitas vezes briguenta, e era a aposta de Aidar, recém-eleito, de que a partir de abril de 2014 o Tricolor voltaria ao caminho das vitórias. Não faltou muito.

No primeiro ano da gestão Aidar - Ataíde, o São Paulo formou um "esquadrão", como assim definiu o vice após a contratação de Kaká e sempre que negava a saída de alguma estrela do elenco. O time que também tinha Ganso, Michel Bastos, Pato, Alan Kardec e Luis Fabiano, além de Rogério Ceni, bateu na trave duas vezes: foi vice-campeão brasileiro e semifinalista da Copa Sul-Americana, sendo eliminado pelo Atletico Nacional (COL), do técnico Juan Carlos Osorio.

Ataíde fechou o ano sem conquistas, mas com gosto pelo cargo. A sensação do quase o motivou para seguir dando as cartas no CT da Barra Funda, onde não permitia "intrusos". Durante toda sua gestão, o ex-vice foi marcado por blindar o local de trabalho dos jogadores e a proteger aqueles por quem tinha apreço profissional. Por esses passam o técnico Muricy Ramalho, hoje no Flamengo, o hoje diretor-executivo Gustavo Vieira de Oliveira, seu fiel escudeiro e principal influência, e até um dos assessores de imprensa do clube, com quem formou uma relação de muita confiança e respeito mútuo.

Explosivo, também deu muito trabalho a esse e outros assessores do clube. Sincero ao extremo na maioria das vezes, sempre acabava entregando algo que os companheiros não queriam que viesse a público. Mas esse era Ataíde, que em sua primeira entrevista como dirigente, em Maceió, antes de uma partida pela Copa do Brasil de 2014, disse que "não entendia nada de futebol". A franqueza, por outro lado, e como já visto, contribuiu para relações intensas no clube.

Leco
Leco apresentou Luiz Cunha (Foto: Erico Leonan/saopaulofc.net)

2015: fator Muricy e pressão

A situação do dirigente começou a ficar complicada em 2015. O péssimo início de temporada, sobretudo pela expectativa do time vice-campeão brasileiro, gerou pressão. Ao mesmo tempo, o ex-vice via crescer a tentativa do ex-presidente Carlos Miguel Aidar em interferir no futebol. Ataíde tentava brecar, mas sentia-se minado pelo vazamento de informações contra seu departamento e a fritura interna ao então técnico Muricy Ramalho. Na época, era sabido por todos que Aidar defendia a saída do treinador, que passava por um problema de saúde, enquanto Ataíde o bancava. No fogo cruzado, estava Gustavo Vieira, em quem Aidar não confiava. Muricy e Gustavo não demorariam a cair.

Muricy saiu em abril, em comum acordo, versão sustentada na época. Em maio, Aidar chamou Ataíde para uma conversa e comunicou que pretendia dar novos ares ao futebol do clube. Por isso, passava a demissão do então gerente Gustavo Vieira. O ex-vice tentou demover o ex-presidente da ideia, mas a decisão estava tomada. Gustavo deu lugar a José Eduardo Chimello e Ataíde perdeu força nas decisões sobre o CT. Mas continuou no cargo, algo que, para alguns, demonstrou o quanto estava apegado, já que houve até um pacto de que se o filho de Sócrates saísse, ele tomaria o mesmo rumo.

Treino - Sao Paulo - Bauza
Ataíde e Gustavo Oliveira ao fundo, no CT (Foto: Érico Leonan)

Caso Iago Maidana e soco no presidente

A chegada de Chimello fez Ataíde perder o controle sobre as negociações. Aidar passou a participar mais das tratativas. Nesse tempo, houve o desmanche, com oito jogadores negociados. E começaram-se as suspeitas de Ataíde sobre o modus operandi de atuação do ex-presidente.

Apesar da desconfiança de que se teve conhecimento depois, Ataíde continuou avalizando os negócios feitos pelo ex-presidente. Foram vendidos Denilson, Souza, Paulo Miranda, Rafael Toloi, Boschilia, e Jonathan Cafu. Além deles, Dória retornou de empréstimo. Rodrigo Caio chegou a ser anunciado como vendido ao Valencia (ESP), mas a negociação melou. Em contrapartida, o time contratou um zagueiro da base do Criciúma, de nome Iago Maidana. Era o início do embate Ataíde x Aidar.

A contratação de Maidana foi obscura e colocou Ataíde no centro de uma polêmica. Isso porque a transação, ao que tudo indica, feriu recomendações da Fifa. Maidana, de 19 anos, foi contratado do Monte Alegre, clube da terceira divisão de Goiás, onde ficou registrado apenas dois dias após deixar o Criciúma. Ou seja, suspeita de uma ponte, algo que a entidade máxima do futebol proíbe, ainda mais com participação de terceiros, no caso, a Itaquerão Soccer, que admitiu ter investido no jogador.

Toda a lambança fez o São Paulo ser julgado pelo STJD e levou Ataíde à loucura quando Aidar disse que tinha sido o seu vice quem cuidara do negócio. Todos no clube, inclusive Aidar, que admitiu depois, sabiam que não tinha sido assim. Tanto que Ataíde fez o ex-presidente admitir na frente de seus pares que tinha sido o responsável pela negociação com suspeitas de superfaturamento.

Dias depois o episódio, Ataíde gravou uma conversa com o ex-presidente em que eles conversam sobre a polêmica e Aidar acena com a possibilidade de comprar um jogador da Portuguesa e dividirem a comissão entre eles. Isso foi num sábado. Na segunda-feira, Aidar e Ataíde voltaram se encontrar numa reunião de praxe da diretoria. O ex-presidente pediu que o vice chegasse mais cedo e, assim feito, aumentou a proposta de repartição da comissão do jogador da Portuguesa. A conversa esquentou o clima e, em frente a outros membros da diretoria que chegaram depois, Ataíde agrediu Aidar em um hotel na capital paulista. O ex-vice seria destituído do cargo no dia seguinte, mas a divulgação do conteúdo da gravação na sequência gerou a renúncia de Carlos Miguel Aidar, em outubro.

Aidar e Ataíde Gil Guerrero (Foto: Ale Cabral/LANCE!Press)
Ataíde, Aidar e Gustavo no CT  (Foto: Ale Cabral/LANCE!Press)

A redenção e o fracasso

A renúncia de Aidar levou Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, à presidência e um de seus primeiros atos foi recolocar Ataíde e Gustavo no departamento de futebol. No entanto, a imagem de Ataíde, apesar de ser o pivô da queda do ex-presidente, estava arranhada. A torcida não o perdoava e a o mau início de 2016 só fez elevar a temperatura das críticas, seja da arquibancada ou dos conselheiros. 

Em contrapartida, Ataíde ganhou tempo para tempo negociar com a Globo e Esporte Interativo os direitos de transmissão de TV fechada a partir de 2019 e conseguiu, na visão de muitos, seu maior feito na diretoria. Conseguiu melhorar e muito a oferta das duas emissoras e acabou fechando com a Globo com luvas de R$ 60 milhões e condições melhores do que o Corinthians, na visão da cúpula são-paulina.

Mas a pressão em Ataíde era tamanha que o dirigente precisou tomar certos cuidados. Ao contrário de quando agrediu Aidar e ganhou até jantares de torcedores por isso, o ex-vice teve de se proteger. Na semana do jogo contra o River Plate, em Buenos Aires, por exemplo, o dirigente decidiu dar uma volta pelo centro da capital argentina, mas recusou quando viu torcedores organizados concentrados na região do Obelisco, um dos principais cartões postais dos hermanos. Foi o símbolo da queda, sacramentada na semana passada, com o anúncio oficial da saída.