Bruno Grossi
21/05/2016
07:30
São Paulo (SP)

Rodrigo Caio completa, em maio deste ano, cinco temporadas como profissional do São Paulo. Aos 22 anos, já passou por duas cirurgias delicadas de joelho, encarou negociação frustrada que colocou em xeque sua condição física por irresponsabilidade dos envolvidos e ainda sofreu críticas públicas de um assessor da presidência do São Paulo, que o tachou de “zagueiro de condomínio”. Uma avalanche de problemas para quem ainda dá os primeiros passos na carreira.

– Se eu não tivesse uma cabeça tão forte, já teria desistido, já teria deixado meus sonhos de lado. De jogar, de ser alguém na vida. Passei momentos muitos difíceis em minha pequena carreira, aos 22 anos, mas sempre acreditei que enfrentaria e passaria desses obstáculos para conquistar tudo o que sempre sonhei. Tudo o que acontece na vida é aprendizado e só tiro coisas boas das dificuldades – afirmou.

A capacidade de sempre extrair a positividade das situações faz de Rodrigo uma pessoa leve, desprendida. Na visita que fez nesta sexta-feira à redação do LANCE!, rabiscou uma lousa para explicar a tática da defesa do São Paulo e mostrou a piada que contará para os veteranos da Seleção Brasileira quando passar pelo trote na chegada ao grupo que disputará a Copa América.

A trajetória cheia de obstáculos do jovem terá neste domingo um grande capítulo com a viagem para os Estados Unidos. Por lá, pode ficar até 26 de junho se levar o Brasil ao título, um de seus três objetivos para os próximos três meses. Ainda com a amarelinha, buscará o sonho olímpico no Rio de Janeiro. Antes, porém, lutará pela Libertadores com o Tricolor e se for campeão, já avisa: quer ficar para o Mundial mesmo que seja vendido no meio do ano.

Qual o balanço da temporada?
Acredito que nosso time cresceu bastante. Aumentou o respeito um com o outro quando conseguimos dar a volta por cima. Individualmente, acredito que é um ano muito importante para mim. Sempre deixei claro que meu maior sonho era jogar a Olimpíada. Dei um passo muito grande para isso. Estou concentrado e focado nesse objetivo, comecei bem o ano física e tecnicamente, me sentindo confortável. Agradeço a Deus por esse momento de estar na semifinal da Libertadores e convocado para a Copa América. E logo em seguida tem a Olimpíada, que é meu sonho.

Dá para dizer sua carreira, até aqui, foi moldada para você chegar à Olimpíada?
Claro que, no começo não pensava. Fui convocado para uma Seleção pela primeira vez no fim de 2012, no sub-20. Era um sonho muito distante. A primeira chance foi em um quadrangular Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, quando fiz o gol do título sobre a Argentina. Ali começou, sendo reconhecido e crescendo com as portas que a Seleção pode abrir. Há um ano, esse sonho olímpico ficou ainda maior, quando conquistei meu espaço em amistosos. Me sinto preparado. Não é certo que eu vou, mas dei um passo muito grande.

Em algum momento, entre a lesão de 2014 e a venda frustrada de 2015, você pensou que seu sonho falharia?
Nunca. Sempre acreditei muito que eu iria passar. Acreditei na minha recuperação, no Reffis, que deu todo o suporte que precisava. Já havia sofrido uma lesão quando mais jovem e sabia que começaria tudo do zero, mas que só dependeria de mim, de ter a cabeça forte. Voltei e logo teve a negociação que não deu certo. Ali, não desconfiei de mim. Pelo contrário. Assim que vi que as coisas não eram como tinha me prometido, resolvi voltar para mostrar que era capaz. Mais para frente outras coisas virão e eu nunca achei que ficaria marcado negativamente. Minha família e meus amigos mantiveram minha cabeça no lugar. Graças a Deus estou colhendo os frutos neste ano iluminado. Espero que tenha alegrias, com três títulos que podem sair em quase três meses e mudar minha vida.

Já se passaram 11 meses desde que a venda ao Valencia (ESP) não deu certo. Quem te levantou até a Seleção Brasileira?
Minha família. Tudo o que passei com minha família entre a lesão e a questão da negociação foi muito difícil. No meio disso, meu pai teve um problema grave no coração. A força que meus pais me deram mesmo com esse sofrimento e esse desespero foi demais. Eu e meu irmão estávamos prestes a viajar e eles deram todo o apoio. Foi fundamental. Quando falei para minha mãe que voltaria ao São Paulo e que não achava certo o que tinha acontecido, ela disse que me apoiava até o fim. A decisão foi pensando na Olimpíada também. Qualquer passo errado e eu estaria fora. Não poderia ficar escanteado (ver mais detalhes na matéria ao lado).

Rodrigo Caio
Rodrigo Caio na redação do LANCE! (Foto: Ale Cabral)

Seu pai já está melhor?
Recuperado, 100%.

Qual foi o problema no coração?
Ele sentia muitas dores no peito e teve que fazer seis pontes de safena e só tem 46 anos. As veias estavam 95% entupidas. Eu viajaria numa quinta-feira para a Espanha, vim para São Paulo na terça para me despedir do São Paulo, dei coletiva e levei meu pai à tarde no médico para ver as dores. O médico pediu para fazer um cateterismo no dia seguinte e foi aí que viram a situação das veias. Logo internaram, operaram na outra terça e eu esperei tudo isso para viajar. Só fui quando ele pôde ir para o quarto.

Já tem outro empresário desde que rompeu com Deco e Luizão?
Eu tive, até pouco tempo, um contrato assinado com outro empresário, mas que já acabou. Hoje não tenho nada além do meu advogado (Régis Villas-Bôas), meu irmão, que também se formou em direito, e meus pais.

Depois das decepções, é melhor confiar na família?
Sim. Tudo o que aconteceu fez com que eu ficasse ressabiado, desconfiado de tudo. Agora venho analisando com meus pais as opções que existem no mercado. Em algum hora precisarei.

Quem tem mais participação no seu crescimento Juan Carlos Osorio ou Edgardo Bauza?
Eu tive um crescimento com o Osorio. Voltei a jogar com ele, tive um momento muito bom e terminei o Brasileirão muito bem. Claro que o momento de agora é melhor, pela classificação à semifinal da Libertadores. É meu melhor momento física e tecnicamente, mas tenho muito a crescer. Sou muito jovem e tenho muito a evoluir.

Você trabalha com Bauza e Lugano, zagueiros de Copa do Mundo, e Maicon, com experiência de Europa. O quanto isso ajudou a chegar nessa melhor fase?
O Bauza é um treinador que preza muito pela parte defensiva, e isso ajuda muito os zagueiros. Ele orienta, passa tudo. Muitas coisas que ele fala eu nunca tinha ouvido. Quesitos táticos, de marcação, de dar um passo atrás quando adversário carrega a bola, ter mais atenção para evitar mano a mano. Coisas diferentes do que tinha ouvido. Apesar de ter jogado pouco com Lugano, converso muito com ele. Antes dos jogos, ele fala demais comigo, me orienta muito. Nesse jogo contra o Atlético ele deu muitas dicas para marcar o Pratto. E eu, por ser jovem, pergunto muito. Gosto de ouvir. Não sou uma pessoa que quer estar certa sempre. É isso que me faz crescer.

Quando essas dicas funcionam, a segurança no trabalho do Bauza aumenta? O elenco confia?
Esse sucesso que tivemos agora na Libertadores é por isso. Compramos a ideia dele, o que ele fala e pensa. Pegamos tudo de forma positiva e desempenhamos, o que faz o time crescer. Hoje ele conseguiu mostrar o que gosta de um time, que é defender em conjunto, com ordem a todo custo.
O quanto isso vai te ajudar na Copa América com o Dunga?
Vai, muito. Mesmo sendo muito diferente pelos jogadores que estão lá, vou aprender muito. O nível deve ser muito alto e eu espero mostrar meu potencial nos treinamentos.

Depois da pré-lista, naturalmente você criou uma expectativa para a convocação final. Mas e para a pré-lista, como reagiu?
Fiquei surpreso demais, porque há jogadores de qualidade na Europa. Mas não desacreditei, continuei trabalhando. Um jogo antes da final, contra o Toluca (MEX, nas oitavas de final da Libertadores), tive uma atuação muito sólida e tudo o que você faz em campo por um clube grande é visto. Essa vitrine que é o São Paulo é forte. Fiquei feliz por ter meu potencial reconhecido. Agora é treinar forte.

Pode levar a pegada da Libertadores para a Seleção na Copa América?
Acredito que sim, porque as seleções sul-americanas também são competitivas. Só ver que nas Eliminatórias os jogos são truncados, de contato, como na Libertadores. É muita dividida e isso pode me ajudar a ajudar meus companheiros. Eles também já estão acostumados à pegada da Europa, a um nível alto.

Já falou com Rogério Ceni, que será auxiliar pontual de Dunga na Copa América?
Não, ainda não conversei com ele, mas será uma experiência muito legal com um cara que me ajudou muito. Sempre me apoiou bastante, em praticamente quatro anos ao lado dele. Foi uma experiência muito boa com um cara diferenciado, que pode acrescentar muito com suas palavras. Pode formar um grupo vencedor.

Consegue imaginar como será o trabalho dele como auxiliar?
Acho que não foge muito da liderança que ele tem, que vem de dentro. É um cara predestinado, sábio e inteligente. Vai nos ajudar muito, pode ter certeza.

De onde vem essa capacidade de deixar a água passar e não guardar mágoas?
Acredito que da educação que meus pais me deram. Não tem porque guardar mágoas de uma pessoa. Quando alguém faz algo errado, você esquecendo e perdoando faz um bem para si mesmo. E eu sempre fui assim. Eu procuro, com a educação que meus pais me deram, pegar sempre o lado bom das coisas, para ninguém ter raiva de mim. Quando te passam raiva, acontecem coisas ruins com você. Deixo tudo para lá, vivo minha vida e sou feliz. Claro que ninguém tem sangue de barata e você sai bravo, magoado, mas tudo pode ser perdoado se explicado.

Você disse que tem três objetivos para os próximos meses. Quantos você vai conseguir alcançar e para qual você está mais ansioso?
Espero que os três, né? São três competições extremamente difíceis, a começar pela Copa América. Espero que eu tenha a sorte e a competência com meus companheiros para conquistar esse título, que seria importante individualmente e para a Seleção, que passa por momento complicado. No São Paulo, acredito que a Libertadores seria ficar marcado na história do clube um jogador criado na base e que sempre sonhou em vencer uma competição grande. E o ouro olímpico que é o sonho de todo jogador. Muitos ídolos nem tiveram chance de disputar uma Olimpíada, então fico com essa expectativa.

Voltando à Libertadores. Ver dez atletas da base inscritos pelo clube deixa que sensação?
É muito gratificante isso. Cheguei aos 12 anos na base e agora vejo dez garotos inscritos, jogando, outros entrando no Brasileiro, o Lucas Fernandes fazendo go... É gratificante ver tanta gente surgindo e pode apostar que várias que estão vindo agora têm condições de jogar. O futuro do São Paulo está nos garotos. Espero que sigam dando oportunidades, porque tem muita gente boa subindo e pedindo passagem.

Você chegar à Seleção é um prêmio a esse trabalho de base do São Paulo?
Claro! É uma das melhores bases do Brasil, uma estrutura invejável. Quando cheguei em Cotia, em 2006, não tinha nada disso e hoje é algo de outro mundo. E a condição que tem para formar jogadores é muito boa, os treinadores têm muita competência e muitos jogadores serão formados.

Rodrigo Caio e os garotos
Rodrigo Caio com os jovens da base do São Paulo

Assistiu a classificação do Atlético Nacional para enfrentar vocês na semifinal da Libertadores?
Sim, assisti. E já tinha visto outros jogos. É um time muito rápido e teremos muito trabalho, pode ter certeza disso. A partir de agora não tem jogo fácil, mata-mata é muito difícil. Mas temos condições. Não chegamos aqui por acaso. Já tive a felicidade de eliminá-los em 2013 pela Sul-Americana, ganhando por 3 a 2 no Morumbi e empatando em 0 a 0 na Colômbia e agora fico na expectativa de passar de novo. Precisamos fazer por merecer. Não pode acomodar, tem que jogar bola e manter o que está sendo feito para chegar à final.

Diante das possibilidades, foi o rival mais difícil?
É um dos melhores times da Libertadores, isso é claro. mas é difícil escolher. Do outro lado teria a altitude no Equador e no México, não tem como fugir. Tem que entrar igual, 11 contra 11 e quem jogar melhor vai passar, não tem segredo.

O que te preocupa mais no Atlético Nacional?
A velocidade, a transição rápida com os pontas e um time que tem muita técnica para tocar a bola. Eles não jogam só na marcação, então vão querer fazer gol no Morumbi e podem fazer por essa qualidade.

E acha que o Osorio torcerá para quem nesta semifinal?
Vai ser difícil, mas não vai ter jeito. Ele é colombiano, tem história lá.