Bruno Paulo 2

De olho em gol na final, Bruno Paulo quer acabar com 'zoeira' de melhor amigo Camacho (Foto: Ana Canhedo)

Ana Canhedo
08/05/2016
06:50
Sorocaba (SP)

Esqueça álcool, noitadas e amizades ruins. Tudo isso agora faz parte apenas do passado do atacante Bruno Paulo, formado nas categorias de base do Flamengo e hoje titular do Osasco Audax. O finalista do Campeonato Paulista estará em campo neste domingo, às 16h, para enfrentar o Santos na Vila Belmiro e tentar dar mais um presente à família: o título inédito. Antes do estadual, Bruno deu ao irmão gêmeo, Breno Sergio, uma lanchonete em Niterói, Rio de Janeiro, e garante que agora só foge da concentração se for para comer um X-Tudo, a especialidade da hamburgueria.

- Um X-Tudo é bom, né? Daquele jeito que a gente gosta lá no Rio, maionese, batata palha, essas coisas... Às vezes, dá uma vontade de fugir só para comer uma besteira, né? - brinca, em conversa descontraída com a reportagem do LANCE! em Sorocaba, cidade escolhida pelo técnico Fernando Diniz para preparar o time durante todo o mata-mata do estadual.

Mas nem sempre foi assim. Inúmeras vezes, Bruno Paulo 'fugiu' de concentrações, treinos e jogos para se esbaldar em noitadas regadas a muito álcool e gastos exorbitantes. E foi por isso que não vingou após subir ao profissional do Flamengo e chegou ao fundo do poço ao não poder ajudar a mãe em casa. A tristeza de Dona Esther ajudou o atacante a ser reerguer, em meados de 2014, depois de anos chegando virado aos treinos praticamente todos os dias.

- Um dia minha mãe me ligou, eu dava tudo para ela, mas um dia ela me ligou dizendo que precisava disso, disso e disso e eu não tinha como dar, então parei para pensar, sabe? Vi o que estava acontecendo, acho que então comecei a acordar para a vida. Era no Red Bull Brasil isso, ainda bem que deu tempo de voltar e dar a volta por cima. Ela estava passando dificuldade, faltava coisa para comer... Moramos eu, ela e meu irmão, mas hoje sou quase um pai para eles. Graças a Deus consigo ajudar todo mundo, não só os dois - fala, e ainda completa:

- A lanchonete eu consegui comprar antes do Paulistão, graças a Deus. Meu irmão jogou bola comigo no Flamengo, mas não vingou, logo desistiu, sobrou para mim (risos). No começo, garoto novo ainda consegue dormir pouco e correr bem, mas agora, rapaz, se eu fizer isso não consigo mais jogar...

"Diniz foi me ensinando as coisas, como marcar, coisa de jogo, mas me ensinou mais fora de campo... Ele faz a gente perceber que precisamos ser homens na vida'' 

Feliz e se sentido bem no Audax, Bruno sabe que as coisas irão mudar após o Paulista. Enquanto seu empresário cuida nos bastidores da transferência para o Corinthians, o atacante tenta pensar apenas em melhorar a média de gols na competição - até aqui, foram apenas dois marcados - e a felicitar Dona Esther no Dia das Mães com o título, coroando não só a retomada pessoal, mas também o trabalho de quem lhe ''ensinou a ser gente''.

- Minha mãe quase morre do coração na arquibancada, ela tem acompanhado desde o jogo contra o São Paulo, torcedora demais. Chegar em casa e ver a alegria dela hoje não tem preço. E eu me sinto bem aqui no Audax, estou feliz, em paz. Com o Diniz é uma amizade que não tinha visto no futebol ainda, ele me ensinou a ser homem, mais do que dentro de campo.

Bruno Paulo foi formado no Flamengo ao lado de Guilherme Camacho, camisa 11 do Audax e também responsável por sua retomada no futebol. Os dois chegaram a morar na casa do meio-campista no período em que o atacante passava por dificuldades. Hoje, Camacho faz questão de brincar com o ''irmão'' pela seca de gols.

- Eu agradeço muito ao Guilherme e a família dele, aos pais, cheguei a morar com eles no Rio. Ele é meu irmão de consideração e hoje podemos aproveitar juntos esse momento, bom demais. Mas agora ele fica enchendo meu saco pela falta de gols (risos), espero que o gol venha nessa final, no momento certo, igual foi contra o Corinthians! - finaliza.

Camacho e Bruno
Bruno Paulo e Camacho sempre foram grandes amigos (Foto: Audax)

BATE-BOLA BRUNO PAULO AO LANCE!

'As noitadas acabavam com minha perna, me lesionava muito'

Fala um pouco da sua história... O que aconteceu antes de chegar ao Audax?
Eu errei muito no passado. Se eu tivesse a cabeça que tenho hoje lá no Flamengo, eu estaria bem hoje. Foi bom para aprender, hoje em dia eu não faço mais. Sei que se fizer, não rendo. Garoto novo, não tinha nada e do nada começou a ter um monte de coisa, amizade, você acha que é teu amigo e é tudo mentira. Hoje em dia eu paro para pensar, penso 10x antes de fazer.

Ninguém te aconselhava naquela época?
Na hora ninguém aconselha, né? Estava tudo bem para todo mundo. Sempre tem. Acham que todo jogador é rico, aí vamos no embalo e gastamos o que não tem. Aprendi muita coisa com a vida, isso é passado. 'Minha mãe precisando e eu fazendo besteira'. Eu era moleque, todo que era bonito eu queria comprar. Comecei a ganhar dinheiro com 18, 19 anos, não tinha nada. Esqueci um monte de gente quando comecei a ganhar dinheiro, fiquei amigo de famoso e vi que na vida não é assim. Sou muito mais feliz agora.

É casado? Namora? Tem filhos?
Estou aí. Não tenho filho, não. Não fiz merda. Merda não, claro que não é isso que quero dizer, porque ter filho é uma bênção, mas tem que ser no momento certo, sabe? E ainda não é... Estou aí (risos).

O Audax é seu grande momento? O quanto Diniz te ajudou?
Eu acho que venho muito bem desde o Red Bull, porque antes eu me machucava muito. Essas coisas de balada acabavam com a minha perna, quase todo dia chegava virado. Treinava sempre assim. Hoje estou bem e feliz. Foi difícil, é complicado para um atacante marcar ali na beirada. Diniz foi me ensinando, Diniz me ensinou muito, a ser gente. Sou assim por causa dele, não é só futebol, tem que ser homem fora de campo também. Dentro tem que aprender, po, quanto xingo em tomei aqui (risos). Não sei ainda muita coisa, estou aprendendo... Time grande tem muita amizade falsa, o Diniz falou isso, que é tudo ilusão, a cabeça é no meu trabalho, estou fazendo minha parte e é isso.

Sua mãe vai acompanhar a final in loco?
Minha mãe está aqui desde o jogo contra o São Paulo, ela quase morre do coração nos jogos vendo da arquibancada, está tudo bem, é bom ela estar aqui porque eu vejo ela e me dá força. Nunca vi minha mãe tão feliz, chegar em casa e ver ela assim me dá forças para conquistar meu objetivo.