Ana Canhedo, Ale Guariglia e Gabriel Carneiro
10/10/2016
08:05
São Paulo e Santos (SP)

Era julho de 1932 quando São Paulo vivia o início do que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista*. O Campeonato Paulista, então, parou e o Santos, à época presidido por Malaquias Guerra Júnior, como apoiador das causas do movimento, decidiu doar todos os troféus** de valor em posse do clube para a campanha. Queria a vitória. Três meses depois, Urbano Caldeira e Vidal Sion, por algum dinheiro, trazem de volta ao acervo santista as taças anteriormente doadas. Ali, Urbano, que morreria em março do ano seguinte, fazia um de seus últimos esforços pelo clube alvinegro. 

Caldeira, não à toa, dá nome à Vila Belmiro. Foram mais de 20 anos de dedicação extrema ao clube da Baixada Santista. Chegou ao Santos com 23 anos, era funcionário da alfândega e foi transferido à cidade litorânea. Em pouco tempo, aproximou-se do futebol e do time. Disputou todas as partidas do Campeonato Paulista de 1913, ano seguinte à fundação do Santos Futebol Clube. Foi centroavante, técnico, vice-presidente e até jardineiro do clube.

A relação de amor com a Vila Belmiro começou em 1916, quando o Santos conseguiu o terreno para construir uma praça esportiva. Fundamental no projeto, organizou as buscas pela área e, mesmo sem ser parte oficial da comissão, trabalhou como operário nas obras. Um dos funcionários mais dedicados e assíduos no desenvolvimento do estádio, foi homenageado no bastimo do palco: Estádio Urbano Caldeira. Homenagem prestada 11 dias após seu falecimento, em março de 1933.

Sem herdeiros, a herança do santista apaixonado é simbólica. Seu nome, grafado no alto do portão da Vila, já faz parte da história...

Hoje, cem anos depois da construção da Vila Belmiro, Urbano é memória. Seu nome, estampado no portão principal do estádio, é o fundo das fotos de torcedores, para os quais a lenda é apenas um ilustre desconhecido. E não só para os fãs do Alvinegro. Para a família, Urbano Caldeira é motivo de honra, mas não presença constante. Pouco a pouco, de geração a geração, a história de amor de um homem com um clube foi se perdendo...

- A gente tem orgulho dele, de ter sido nosso parente e ter se dedicado tanto a esse clube tão famoso do futebol. Nós não vamos com tanta frequência ao estádio, não tivemos essa ligação tão forte com ele para guardar suas coisas, é mais na memória e nas histórias que contam. Urbano era solteiro, um homem elegante e interessado em ajudar o Santos. Essa é a memória que temos dele - conta Mônica ao LANCE!, sobrinha-neta de Urbano Caldeira.


Sem herdeiros, o legado do santista apaixonado é simbólica. Seu nome, grafado no alto do portão da Vila já faz parte da história do Santos. Mesmo com a corrosão causada pelo tempo e com a distância de gerações da família, de alguma maneira a dedicação de Urbano Caldeira sempre estará presente.

- Eu acho que a Vila pode até mudar de nome, mas sempre vai tê-lo como patrono. Isso não nos abala. Urbano era um homem atuante. Para ele, a coisa era mais forte. Para a gente foi ficando mais apagada. Não acredito que uma eventual mudança vá diminuir a importância dele, vai estar sempre na história e na memória - completa Mônica.

Foram 44 jogos e dois gols com a camisa do Peixe, de 1913 a 1918. Em 1927, já atuante nos cargos de direção do clube, ajudou a formar a famosa equipe do Ataque dos 100 gols. Das mãos de quem ajudou a plantar a grama do estádio aos 100 anos da Vila Belmiro, Urbano Caldeira está preservado pela eternidade.