Thiago Perdigão
15/08/2016
01:50
Rio de Janeiro

Centro Olímpico de Tênis, Parque Olímpico da Barra, 21h22. Ali foi a primeira vez que consultei meu relógio para ver que horas eram. A final olímpica do tênis acabara minutos antes. Depois de publicar o que vi do título de Andy Murray sobre Juan Martín del Potro no LANCE!, fechei meu material de trabalho e acelerei em direção ao arredores do MPC, o centro de mídia da Olimpíada, que fica no fim do perímetro do Parque Olímpico. A distância não é longa, mas precisava ser muito rápido para vencê-la em menos de oito minutos. O objetivo? Chegar ao Engenhão para ver a final dos 100m, marcada para 22h25.

Não tinha como correr. O cansaço acumulado dos dias, o equipamento pesado nas costas, as gigantes bolhas nos pés e a forma física não tão boa impediam. Mas andei rápido. Naquele limiar entre andar e correr. Só diminui na checagem de credencial. Venci os metros até a saída do MPC para o grande estacionamento dos ônibus e olhei o relógio mais uma vez: 21h28. Teria de chegar ao local certo do coletivo às 21h30, hora que ele sairia em direção ao Engenhão.

Estava ali a minha última esperança de chegar a tempo de ver os 100m.

Quando passava pelo penúltimo ônibus antes do ponto do que eu precisava, o ônibus que eu deveria pegar fez a manobra para sair. Estava exatamente a distância de um ônibus para chegar à parada. Fiz sinal, me desesperei, mas o motorista, que ali possivelmente não tinha nem engatado a segunda marcha, não parou. Fez a volta na rotatória e, no último impulso, implorei para ele parar. Fui ignorado solenemente.

O ônibus posterior só sairia às 21h50. Quis ter esperança, já que a viagem leva cerca de 30 minutos. Seria muito em cima, ali já eram 21h32, mas nem pensei ao entrar nele. Quando sentei, senti uma grande frustração. Um sentimento difícil de explicar. "Ah, mas tem coisas bem piores nessa vida." Concordo. Mas a gente não escolhe se sentir bem ou mal em uma situação dessas. Me senti mal. Estava a minutos de ver a história do esporte e perdi aquilo por segundos.

Depois de alguns minutos, mais alguns colegas jornalistas foram entrando no coletivo. Todos, como eu, tinham esperança de ver Usain Bolt & Cia (mentira, era o Bolt mesmo) em ação. E todos ali sabiam que não seria tão fácil.

Os minutos passaram e a tensão aumentou. Todos queriam que o motorista saísse. Ele, obviamente, fez o certo e esperou até 21h50. Sentado, na sua posição, ouviu pedidos em inglês, espanhol, português e algumas línguas que não faço ideia de quais são. No fundo do ônibus, lamentei os segundos perdidos. "Ah, o Murray não deveria ter errado aquela bola." "Ah, mas se aquele rapaz não tivesse pedido para entrar no elevador..."

"Não custava nada o motorista anterior ter aberto a porta para mim." Esse era o pensamento quando o ônibus finalmente ligou. E não custava mesmo. Mas a frustração deu lugar a esperança. Mesmo que remota. Minha e dos meus colegas. "Faça igual ao Senna", pediu um em um português bem ruim. "Imitar o Schumacher não é nada mal também", falou outro.

Quando o ônibus saiu, todos se animaram, mesmo que minimamente. No Twitter e Whatsapp lia as notícias sobre o estádio. O coletivo parou para pegar uma jornalista atrasada. Ela teve mais sorte do que eu.

O caminho foi um dos mais longos que já vivi. Os metros em frente ao Parque Olímpico foram mais difíceis por conta dos semáforos. Quando o ônibus entrou na Linha Amarela, eu só queria que o motorista corresse como o Bolt. Mesmo que isso não fosse o certo. E ele respeitou os limites de velocidade.

A primeira vez que vi o Engenhão neste caminho, eram 22h16. Para mim, a frustração seria por segundos. Mas me postei em frente á porta e decidi que correria para dentro do estádio de qualquer forma.

Nas estreitas ruas perto do estádio, o ônibus encontrou mais dificuldades. Um semáforo atrasou mais um pouco. Um carro de passeio perdido rendeu xingamentos (desculpe!). O coletivo parou em frente ao Engenhão 22h21.

Ainda faltava a revista e todo o caminho dentro do estádio. Sabia que não chegaria à tribuna de imprensa. Então, a ideia era assistir no meio da galera. Na checagem, eu era o segundo da fila e o segurança disse que só entrariam os que estavam com uma pulseira, pois evento era restrito - na Olímpiada, para alguns eventos mais concorridos, a imprensa precisa de um ingresso além da credencial. Mas essa restrição só valeria para quem tem credenciais de televisão. A minha, de imprensa escrita, permitia que eu entrasse. Não dava tempo de discutir, joguei a mochila no raio x e passei.

Era a hora de esquecer daquelas dores relatadas ali em cima e correr.

Não faço a mínima ideia da distância. Só escutei o público vibrar com um jamaicano sendo apresentado. Não era o Bolt, percebi. Pensei, "não vai dar". Mas corri. Na primeira bifurcação, escolhi o caminho errado. A sinalização não era boa. Mas vi que na minha frente tinha a entrada do campo e corri naquela direção.

Quando cheguei, de cabeça baixa , vi apenas um vulto de um cara gigante, de roupa de atletismo, que passava por mim em um estreito corredor. No misto de correria e admiração, vejo que é Bolt. Paro. Ele para em frente a um pano preto. É anunciado. O estádio explode. Ele olha para uma das voluntárias que segura o pano. E entra. Tranquilo. Pronto para fazer seu trabalho.

O meu ainda não estava pronto. Não sabia por onde entrar nas tribunas. Vi uma escada. Acelerei e subi. Ao meu lado, vários funcionários e voluntários subiam também. Todos queria aproveitar aqueles menos de 10 segundos históricos.

A escadaria foi dura. Cheguei na arquibancada inferior. Todos de pé acompanhando os últimos segundos de aquecimento. Me ajeitei. Um homem, na minha frente, levantou o celular para filmar. Impediu que eu visse. Falei para ele baixar o celular e olhar para a pista. As imagens ele teria acesso facilmente. Mas ver aquilo ao vivo, nunca mais. Ele não aceitou muito bem o "conselho".  Não fiquei ali, arrumei outro espaço.

Na pista, todos se abaixaram para correr. 

Bolt correu e ganhou. E eu sai do meu lugar para ir para o corredor. Me encostei na parede daquele lugar semi deserto e, com lágrimas nos olhos, percebi que tudo aquilo tinha valido a pena. Venci a minha maratona. Vi mais uma lenda ao vivo. Ninguém tira isso de mim! 

Nem aquele motorista a quem dedico este texto....