Passagem da tocha olímpica por João Pessoa

Daniel, à esquerda, encerrando a condução da tocha em João Pessoa (Foto: Wander Roberto/Bradesco)

Daniel Bortoletto
04/06/2016
15:21
João Pessoa (PB)

- Pai, pode ir na minha frente. Você é um carregador da tocha olímpica.

A frase é do Thiago, meu filho, nove anos. Estávamos no quarto do hotel, em João Pessoa, na noite de sexta-feira. Iríamos lavar as mãos antes do jantar em família, já que Patrícia, minha esposa, e Luca, meu filho mais novo, nos esperavam no restaurante. Mas o gesto dele, representado por aquelas míseras 13 palavrinhas, me obrigaram a mudar por completo o texto que imaginava escrever para vocês.

Não seria mais justo escrever apenas sobre o meu sentimento ao carregar o fogo olímpico por 200 metros, em uma rua pouco iluminada do bairro Jardim Oceania, na capital paraibana, no início da noite, a convite do Bradesco, um dos patrocinadores do evento. A tal tocha tem mesmo muito poder! Eu, bem mais racional do que passional, não fazia ideia da dimensão, apesar de trabalhar com esporte há quase 20 anos.

A frase do meu filho ainda serviu como aperto de um botão no controle remoto. Ele acionou o play e daí várias imagens do minuto da corrida resolveram passar pelos meus olhos. "Sorria e segure firme a tocha", foram as instruções que recebi ainda no ponto de encontro, com outros 18 carregadores. Acho que fui aprovado nestes quesitos. Eu era o número 143. Mas estava curioso mesmo com as reações do meu "sucessor", Thiago, xará do meu filho, com a tocha 144 presa em um suporte na cadeira de rodas. E foi um sorriso genuíno, puro e tocante dado por ele assim que viu o fogo que eu carregava acender o dele. Três sensações que deveriam estar no topo da lista do tal espírito olímpico, cada vez mais profissional e artificial.

"Vamos retribuir, pessoal", disse outro carregador, dentro do ônibus já na volta do evento, após o ônibus fazer uma curva e se deparar com dezenas de pessoas gritando, acenando e aplaudindo o comboio. Ele tinha razão.

No meu grupo estava ainda o vice-campeão olímpico Zé Marco, parceiro de Emanuel no torneio de vôlei de praia dos Jogos de Sydney-2000. Um sujeito acostumado com o turbilhão de emoções de vencer ou perder um jogo decisivo. Um esportista habituado com fãs, autógrafos, fotos e que ainda assim ainda fica com olhos marejados ao ser aplaudido dentro do ônibus antes de correr os 200 metros com a tocha. Apenas a comprovação de que todos os atletas olímpicos em atividade e os já aposentados deveriam ter a mesma oportunidade de Zé Marco...

O dia 3 de junho já acabou. Mas será eterno na memória dos Thiagos, do Luca, da Patrícia, do Zé Marco, do Daniel e de tantos outros.

* O editor viajou a convite do Bradesco