Governador Geraldo Alckmin homenageou atletas olímpicos no Palácio dos Bandeirantes (Foto: Ciete Silvério/Divulgação)

Governador homenageou atletas olímpicos no Palácio dos Bandeirantes (Foto: Ciete Silvério/Divulgação)

Felipe Domingues
25/08/2016
16:39
São Paulo (SP)

- O investimento deve existir, até para construir uma nova geração de atletas que não precisem sofrer tanto quanto nós sofremos.

Essa frase foi dita por Francisco Barreto Jr., ginasta brasileiro que disputou duas finais na Olimpíada do Rio de Janeiro e, nesta quinta-feira, recebeu a medalha de mérito esportivo do governo do Estado de São Paulo, diretamente das mãos do governador Geraldo Alckmin, no Palácio dos Bandeirantes. A resposta, inclusive, foi com relação ao temor que os incentivos aos atletas, em seu próprio estado e no país, sejam cortados após o término dos Jogos.

No evento na capital paulista, alguns competidores da região receberam medalhas por suas participações na Olimpíada. Mas ao analisar o caminho deles até alcançar a disputa, nota-se que o investimento estadual na formação, auxílio ou treinamento dos atletas teve um papel pequeno.

Atualmente, o governo do Estado de São Paulo possui como seu programa primário de ajuda a atletas com potencial olímpico o Bolsa Talento, que repassa uma verba mensal com um valor que difere entre faixas de idade e realizações esportivas. Porém, como um competidor não pode receber mais de uma Bolsa ao mesmo tempo, ela é cancelada diante dos auxílios do âmbito federal.

'O investimento deve existir, até para construir uma nova geração de atletas que não precisem sofrer tanto quanto nós sofremos' - Francisco Barreto Jr., ginasta

- Eu tive o Bolsa Talento e parei de receber porque estava recebendo o Bolsa Pódio (Governo Federal), mas pelo tamanho de São Paulo, é preciso investir. Esse estado é muito grande, e quantos ginásios de qualidade para a prática de ginástica existem aqui? Precisamos de locais que comportem a quantidade de praticantes que temos - comentou Barreto.

A ginástica artística brasileira, por exemplo, realizou sua aclimatação prévia para a Olimpíada em São Bernardo do Campo. Enquanto os atletas que, futuramente, conquistariam três medalhas nos Jogos Olímpicos, treinavam, crianças e adolescentes dividiam o pequeno espaço da instalação e os equipamentos para a prática da modalidade com eles.

Em termos de ginásios para abrigar grandes competições que possam fomentar o interesse público pelo esporte, por exemplo, São Paulo volta a "sofrer". Na capital, apenas o Ginásio do Ibirapuera possui capacidade para recepcionar eventos de grande porte. Fora da cidade, por sua vez, existem um ginásio em Barueri e outro em São Bernardo do Campo.

- Nós da ginástica, no alto rendimento, temos poucas opções. Esses ginásios precisam atender a população. Precisamos de locais públicos para atender quem não tem condição de arcar com isso. Isso vai fazer diferença. Esse é o investimento que deve ser feito - completou Barreto.

Para o recém empossado secretário de Esporte, Lazer e Juventude de São Paulo, Paulo Gustavo Maiurino, na função desde junho desse ano, o ponto de vista é diferente. Para ele, os investimentos feitos pelo Estado estão "na medida certa", o que falta é a capacidade de gerir o dinheiro. 

'Esse estado é muito grande, e quantos ginásios de qualidade para a prática de ginástica existem aqui? Precisamos de locais que comportem a quantidade de praticantes que temos' - Francisco Barreto Jr.

- Temos o Bolsa Talento, o Centro de Formação de Atletas, e o Centro de Excelência. Não falta dinheiro, falta gestão. Isso falo por minha experiência profissional e por verificar, dentro da secretaria, como estão sendo feitos esses repasses. Precisamos estabelecer um critério objetivo para ajudar o esporte. Não é falta de dinheiro, isso pode ter certeza - analisou, antes de completar:

- Estamos tentando aperfeiçoar a gestão em todos os aspectos, para que isso repercuta na confecção de um novo modelo de investimento no esporte. O governador Geraldo Alckmin vem demonstrando preocupação com o esporte e me deu autonomia para a escolha da equipe para criar esse modelo. O investimento seguirá no mesmo nível ou até maior.

Enquanto as palavras do secretário Maiurino não se tornam realidade, os atletas seguem com o temor de que o investimento feito para os Jogos do Rio de Janeiro tenha sido apenas algo "passageiro".

Para os competidores olímpicos, a Olimpíada no país foi uma das principais chances de propagação do esporte olímpico no Brasil, mas, caso o bom resultado não se repita ou seja melhorado em Tóquio (JAP), em 2020, principalmente pela falta de investimento, esse avanço seja deixado para trás.

- Muito foi feito para o Rio, mas resultados olímpicos não se colhe de um dia para o outro. Se continuarmos com investimentos, com tudo que foi feito até agora, teremos um resultado ainda melhor em Tóquio. Estamos evoluindo e os resultados mostram isso. Existe o temor dos atletas desse ciclo terminar e não existir continuidade. Precisamos disso - comentou a nadadora Poliana Okimoto, medalhista de bronze na maratona aquática no Rio.

Nesta quinta-feira, a contagem regressiva para os Jogos Olímpicos de Tóquio marca 1432 dias. Para os atletas brasileiros, esse relógio nunca andou tão rápido. E, talvez, o temor por um ciclo olímpico nunca foi tão grande.