Joaquim Cruz

Treinador de atletas olímpicos e paralímpicos dos Estados Unidos, Joaquim Cruz ficará na sede do Flamengo, na Gávea, durante os Jogos do Rio, fruto de uma parceria do clube com o Comitê Olímpico dos EUA (Foto: Divulgação)

Jonas Moura
25/05/2016
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Único brasileiro campeão olímpico no atletismo em provas de pista, Joaquim Cruz escolheu os Estados Unidos como lar, mas nunca tirou os olhos do país de origem. O vencedor do ouro nos 800m em Los Angeles-1984 espera que os Jogos Rio-2016, em agosto, sejam um marco contra os envolvidos em escândalos de dopagem.

Aos 53 anos, o brasiliense falou ao LANCE! sobre sua missão atual no Comitê Olímpico americano, avaliou as chances do Brasil em casa e defendeu o banimento dos russos, hoje suspensos de competições pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (Iaaf).

– Não pode abrir de vez para vale-tudo – disse o ex-meio fundista.

Morando em San Diego (EUA) desde 2005, Joaquim treina atualmente três atletas olímpicos em um centro localizado na vizinha Chula Vista: Brandon Johnson (800m), Shannon Leinert (800m) e Raquel Landin (800m/1.500m). Todos tentam vaga na Rio-2016.

No esporte paralímpico, sua prioridade, o brasileiro tem pelo menos oito nomes com chances de estar nos Jogos e brigar por medalhas. O maior destaque é David Brown, recordista mundial nos 100m e 200m T11 (para atletas com deficiência visual).

LANCE!: Você é esperado no Rio durante os Jogos Paralímpicos, já que seus atletas são cotados a brigar por pódios. Mas o que estará fazendo na Olimpíada?
JOAQUIM CRUZ: Poderei vir como um dos treinadores pessoais, como fiz nas últimas duas edições. Se um atleta olímpico meu entrar na equipe, virei tanto na Olimpíada quanto na Paralimpíada. Mas isso só será definido ao fim das eliminatórias.

L!: Qual foi seu maior aprendizado com a experiência de trabalhar no atletismo americano?

J.Q.: Eu praticava muito periodização com o Luiz Alberto (de Oliveira, ex-treinador de Joaquim), com base em cada ciclo olímpico. Quando acabava uma Olimpíada, começávamos a preparação para a próxima. Nos Estados Unidos, quando me tornei treinador, precisei desenvolver melhor essa questão. Comecei a fazer parte do trabalho que o Luiz fazia, mas com pessoas da gestão, que realizavam o mesmo cinco ou até seis anos antes dos Jogos.

L!: O que não acontecia no Brasil, né?
J.Q.: De jeito nenhum (risos). Acontecia só com o Luiz Alberto, que fazia um planejamento, mas eu só executava. Quando passei a ser treinador, tive de fazer o trabalho dele e entender a mentalidade dos americanos. No início, o Luiz era tudo: treinador, amigo, massagista, pai, patrocinador, quem decidia se vai operar ou não. Se eu precisava de um tênis, ele fornecia. De repente, como técnico, comecei a trabalhar com uma equipe. Tenho ao meu lado nutricionista, psicóloga, fisioterapeuta, além da minha chefe, que prepara toda a casa, que libera a verba para viagens. É um grupo muito grande. No Centro Olímpico, tem a direção, as pessoas da logística, do alojamento, a parte de nutrição. É muita gente. E fica legal, porque você só tem de focar no seu conhecimento no esporte, no treinamento dos seus atletas, no que você faz de melhor.

L!: É por isso que você não voltou mais ao Brasil em definitivo?
J.Q.: Eu estou lá há 35 anos. Fui muito bem aceito pelo país. Na Universidade de Oregon, morei por sete anos, no auge na minha carreira. Era o atleta da casa, todos me viam muito bem. Fui para San Diego e demorei para encontrar minha praia, mas hoje sou muito bem aceito no Comitê Olímpico. Durante cinco anos, fui consultor. Com o tempo, eles sentiram que eu estava vindo muito ao Brasil. Sabiam que teria Olimpíada aqui e falaram "vamos contratar o Joaquim logo, que ele pode nos ajudar nos Jogos" (risos). Fiquei em tempo integral. Só tive quem me apoiasse. Eles me dão todas as condições. O nosso Centro de Treinamento, em Chula Vista, fica a 30 minutos da minha casa. É claro que tenho de apresentar resultados, e a maioria dos meus atletas sobem ao pódio, o que é bom para mim.

L!: Estar mais próximo do Brasil com a chance de o país sediar os Jogos não era sua vontade?
J.Q.: Não abandonei o Brasil, mesmo depois do meu sucesso. O desejo de estar mais próximo só acontece quando você se afasta, e nunca me afastei. Faço o meu trabalho lá. Às vezes, a gente some no período de setembro a abril, na preparação. Mas tenho meus projetos sociais em Brasília, em Taguatinga e em Ceilândia. Na CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), faço parte do programa “Heróis do Atletismo Brasileiro”. Costumo vir dar palestras e ter um contato com a garotada.

Joaquim Cruz conduziu a tocha em Taguatinga (Foto: Divulgação)
Joaquim Cruz conduziu a tocha em Taguatinga (Foto: Divulgação)

L!: O que espera do atletismo brasileiro nos Jogos do Rio?
J.Q.: Com o Brasil competindo em casa, é difícil saber. Ultimamente, não temos acertado muito, mas às vezes, a gente consegue. Se tudo der certo, podemos sair daqui com duas ou até três medalhas. No salto com vara, a Fabiana (Murer) terá de saltar o melhor da vida para subir no pódio. Tem condições. Só precisa sobreviver ao período de treinamento. Gostei do comportamento do 4x100m masculino na Califórnia, que eles venceram com 38s91 (Paulo André, Bruno Lins, Aldemir Gomes e Jorge Vides levaram o ouro no Mt. Sac Relays, em abril). Dois garotos fizeram o índice nos 800m. Um deles, o Kleberson (Davide), nunca gostou de sair de casa, e agora terá a oportunidade de correr dentro dela. Isso pode ajudar. E tem a maratona, que sempre pode dar uma medalha.

L!: O doping da Ana Cláudia Lemos pode afetar a preparação?
J.Q.: Não acompanhei o episódio da Ana de perto. Sei que estão tentando resolver, mas não imagino como irão abraçar. Mas é claro que abalou. Tanto ela como a Seleção toda. É uma atleta-chave no revezamento. Afetou toda a equipe. Elas não foram bem no 4x100m no Mt. Sac (no feminino, o Brasil terminou em quinto, com 44s57, com Bruna Farias, Kauiza Venancio, Franciela Krasucki e Vitória Rosa). Nós temos outras atletas, mas elas têm de acertar a passagem do bastão, né?

"É importante para o atletismo que a Iaaf dê o recado de que não irá tolerar situações como a da Rússia, um caso que envolveu todo o sistema" Joaquim Cruz

L!: Como viu o escândalo de doping russo e o impacto para o esporte?
J.Q.: É importante para o atletismo que a Iaaf dê o recado de que não irá tolerar situações como a da Rússia, um caso que envolveu todo o sistema. Os governos deverão ter cuidado com aquilo que apoiam a partir de agora. Este episódio prejudicou atletas que não se dopavam, mas que foram afetados pela decisão do país de permitir que o doping acontecesse. A Iaaf tem de colocar pressão não só na Rússia, mas no Quênia também.

L!: Considera justo que a Rússia seja impedida de disputar a Olimpíada do Rio no atletismo?
J.Q.: É justíssimo que a Rússia seja banida, porque quando uma pátria começa a liberar o uso de substâncias ilegais, ela está transmitindo ao seus filhos que é possível vencer a qualquer custo. Se todos resolverem fazer isto, não teremos mais competição. Não se pode abrir de vez para vale-tudo.

L!: Você mostrou engajamento em uma campanha para que atletas olímpicos participassem do revezamento da tocha olímpica. Como isso surgiu?
J.Q.: Foi um privilégio grande para mim ter carregado a tocha. Mas encontrei a seguinte situação ao conversar com a Kátia Rubio (historiadora, autora do livro “Atletas Olímpicos Brasileiros): temos quase 2 mil atletas olímpicos no Brasil. Pouco menos de 1,5 mil vivos. Foram 12 mil participantes ao todo, e alguns atletas de Brasília ficaram fora. Perguntei se eles não haviam sido convidados ou não quiseram, e ela disse: "Joaquim, talvez eles não encontraram uma forma de entrar no revezamento". Acho que se reservássemos 2 mil vagas, nós cuidaríamos dos atletas olímpicos. Os que fizeram a história, participaram do movimento. Eu não me sacrifiquei tanto, mas tivemos atletas como o Adhemar Ferreira da Silva, que na segunda medalha que ganhou, recebeu uma casa de presente e teve de devolver para preservar o status de amadorismo dele. Para continuar promovendo o movimento olímpico. E os filhos dos atletas que perguntam aos pais: "papai, mamãe, você não foi atleta olímpico? Por que não está participando?" E a resposta é: porque não fui convidado (a). Nós temos de assegurar que honraremos as pessoas que participaram do movimento. No presente, no passado e no futuro. Envolver a comunidade é importante.

L!: O Gabriel Medina, do surfe, que não é olímpico, foi chamado para conduzir a tocha. O que achou disso?
J.Q.: Não discordo que envolvam outros atletas, de esportes não olímpicos, ou cantores. Só não podemos esquecer quem trabalhou pelo nosso movimento. É questão de a gente encontrar os atletas e perguntar se eles querem participar. Não é difícil. Eu poderia dividir os meus 200m (distância que cada condutor percorre com a tocha) com outros. O importante é todo mundo fazer parte.

L!: No Parapan de Toronto, no ano passado, você correu na função de guia da atleta Ivonne Mosquera-Schmidt, dos Estados Unidos (devido a um problema de documentação dos guias). Podemos ver a mesma cena no Rio?
J.Q.: Aquilo não dá mais para mim, não. Com o tempo, você percebe que sua atleta melhora enquanto você só piora (risos).