Luis Fernando Coutinho
13/08/2016
11:53
Rio de Janeiro (RJ)

Se dentro do ringue abaixar a cabeça foi um problema, fora dele é o que torna Julião Neto um atleta olímpico. Mais um brasileiro ficou pelo caminho no boxe masculino da Rio-2016 após sua primeira luta, depois de Patrick Lourenço e Adriana Araújo, ele foi eliminado após seu debute na competição neste sábado, pela categoria dos moscas (até 52kg). O pugilista acabou superado pelo americano Antônio Vargas na decisão dividida em luta equilibrada de três rounds. Foi provavelmente sua segunda e última olimpíada. Mas não se engane. Ele está para lá de satisfeito. 

Ex-jogador de futsal, ele conheceu o pugilismo aos 20. Hoje, aos 34, tem maturidade o suficiente para aceitar a derrota e refletir a respeito da oportunidade única que teve. Apesar do início bom contra Antônio Vargas (EUA), ele acabou advertido pelo árbitro da disputa após seguidas vezes abaixar a cabeça - o que é considerado movimento arriscado no boxe, podendo lesionar o rival -, o que, segundo ele, tirou seu foco e o fez sair superado do ringue. Ele acredita que o rival também deveria ter perdido ponto, mas aceita o resultado como poucos.

- A luta foi boa, dura, meu adversário é novo, mas é bom. Mas perdi nessa retirada de ponto. Aquilo acabou comigo. Não era para ele ter tirado ponto, tinha de ter deixado rolar. O árbitro me chamou atenção que eu estava mexendo muito a cabeça, mas ele também me deu bastante cabeçada, estou até dolorido. Mas fazer o quê? Quando tiraram o ponto acabou a luta, pensei que "já era". Quando o árbitro tirou aquele ponto, acabou comigo. O Vargas tinha que ter perdido ponto também. Mas estou feliz. Meu maior sonho já foi concluído aqui, comprei uma casa para a minha mãe, hoje ela vive num lugar bom. Ela chorava muito por isso. Então é só alegria  - afirmou, logo após o combate no ringue.

No futuro, Julião agora enxerga a carreira de treinador, onde vai trabalhar para tirar crianças da rua e introduzi-las no esporte em Guamá, Belém (PA). Eliminado da competição que acontece no Rio de Janeiro, onde se apresentou diante de seu país, ele lamenta a perda, mas só tem a agradecer.

- Valeu a pena! Queremos sempre ganhar a medalha, mas tenho de olhar para o céu e agradecer por tudo o que tenho na minha vida. Depois de começar aos 20 anos, comecei tarde, né? Conquistar o que conquistei não é fácil. Boxe é difícil pra caramba. Não sei nem dizer (a sensação de lutar no Rio). Queria a vitória para esse Brasil que tanto precisa, mas não deu - afirmou, emocionado.

A LUTA

1º round
Primeiro assalto começou com os rivais indo para a trocação franca. O duelo entre os pesos-moscas impressionou pela velocidade. Enquanto o brasileiro acertou golpes mais efetivos, Vargas teve um bom volume e era mais técnico. Julião atacava de guarda aberta e foi advertido duas vezes por acertar o rival com o antebraço.

2º round
No segundo assalto, Julião melhorou, ajustou a distância e acertou golpes mais fortes no rival, que diversas vezes buscou a curta distância para trabalhar.  O brasileiro acertou ao menos dois diretos poderosos em Vargas, que buscava trabalhar a velocidade. 

3º round
​A última etapa foi mais equilibrada, onde Julião se mostrou mais cansado. O brasileiro chegou a perder um ponto por ter sido advertido duas vezes durante o combate. No fim, triunfo na decisão dividida do americano.