Marcio Porto
19/08/2016
14:58
São Paulo (SP)

Não faltou luta, sobrou dignidade. Faltaram gols. Depois de uma campanha de superação nas Olimpíadas do Rio-2016, o Brasil perdeu a disputa da medalha de bronze no futebol feminino para o Canadá, nesta sexta-feira, na Arena Corinthians. A derrota por 2 a 1, com superioridade canadense na maior parte da partida, acabou com o sonho das brasileiras de conquistarem a terceira medalha olímpica na modalidade depois das pratas em Atenas-2004 e Pequim-2008.

Antes de tudo, é preciso lembrar que as brasileiras, assim como as canadenses, já entraram em campo vencedoras. A partir de amanhã, quando começarem a absorver tudo que se passou nesta Olimpíada, voltarão a disputar jogos muito mais difíceis e ingratos: a busca pelo reconhecimento e condições de trabalho em uma modalidade abandonada.

Quando se atenta para a insistente falta de inspiração do ataque brasileiros nos últimos jogos, que chegou a 412 minutos sem marcar, é preciso lembrar do preconceito brutal contra as meninas. Ao criticar a falha na saída de bola de Rafaelle, que originou o primeiro gol de Rose, e de Tamires, no gol de Sinclair, é preciso lembrar da falta de apoio, dos campinhos para a base, de uma liga nacional pelo menos aceitável. Faltou mais protagonismo de Marta, como já havia sido contra Austrália nas quartas e Suécia, na semi, mas faltou e falta, acima de tudo, olhar com respeito para as meninas.

A torcida na Arena Corinthians, como foi em toda Olimpíada, fez sua parte. Apoiou o tempo inteiro, cantou, incentivou, mesmo contra as simpáticas canadenses, que se despedem com o bronze e o aproveitamento de 100% no estádio, em quatro jogos: venceram também Zimbábue, Austrália e França no local. Mereceram, e ainda possuem mais estrutura que o Brasil.

Mesmo com as condições adversas, de quem vinha de duas prorrogações seguidas em uma semana, o Brasil não deixou de fazer um jogo emocionante. O belo gol de Bia, faltando dez minutos para acabar, incendiou a Arena. A puxada de esquerda da forte atacante brasileira precisa ser exaltada. Tóquio-2020 está aí para você, Bia! Com sorte.

Fim de jogo, emoção das vencedoras, reconhecimento às brasileiras, pausa para a reflexão. Que seja o fim das comparações descabidas com o masculino que, além de uma cretinice, é uma espécie de auto-sabotagem. Impede o sujeito de contemplar um time que consegue jogar em alto nível apesar de contar com pouca ou quase nada de estrutura. Esse sujeito é o mesmo que pede para as mulheres "jogarem como homens" sem perceber que está arrotando a falência do próprio ser. É aquele que debocha da fragilidade das goleiras, mas reclama da "retranca" sueca montada à perfeição. Seria possível supor que, para esses, Diego Simeone merecia prisão pelo que faz com o Atlético de Madrid (ESP). Mas não, afinal, "é um time de homens jogando como homens".