Lucas Pastore
04/08/2016
06:10
Rio de Janeiro (RJ)

Com 23 jogadores na história da NBA, a França foi o terceiro país que mais emplacou estrangeiros na liga profissional americana, atrás somente de Canadá (32) e Sérvia (25). 12 nascidos no país europeu terminaram a última temporada sob contrato. Porém, na busca por sua terceira medalha olímpica após as pratas em 1948 e 2000, Les Bleus decidiram levar somente cinco, mesmo número de Austrália e Brasil e um a menos do que a Espanha. Entre os que ficaram fora está o ala-armador Evan Fournier, que, por ser "xará" de uma infecção genital, recebeu um apelido curioso nos Estados Unidos: "Não procure no Google".

A ausência pode causar estranheza depois das boas exibições de Fournier na última temporada. Com a camisa do Orlando Magic, o ala-armador apresentou médias de 15,4 pontos, 2,8 rebotes e 2,7 assistências em 32,5 minutos por exibição. Parecia nome certo na convocação francesa para quem acompanha a NBA.

Porém, no europeu do ano passado, o jogador teve atuação decepcionante, com médias de 6,8 pontos, 1,8 rebotes e 1,4 assistências por partida. Além disso, Fournier pediu dispensa do Pré-Olímpico das Filipinas, que teve a França como campeã. O bom desempenho de seus substitutos, segundo o técnico Vincent Collett, foi o suficiente para que o ala-armador ficasse fora da lista de relacionados para os Jogos.

Rudy Gobert, pivô do Utah Jazz, também pediu dispensa do Pré-Olímpico, mas depois foi convocado para jogar no Rio de Janeiro.

Fournier foi selecionado pelo Denver Nuggets na 20ª escolha do Draft de 2012, dois anos antes de ser trocado para o Magic. Quando foi recrutado, jornalistas americanas foram à internet para procurar informações a seu respeito e acabaram se deparando com as imagens da Síndrome de Fournier. Por isso, apelidaram o ala-armador de "Don't Google" - "Não jogue no Google", em tradução livre.

Além de Fournier, Alexis Ajinca, Axel Toupane, Damien Inglis, Ian Mahinmi, Joakim Noah e Kevin Seraphin foram os franceses que terminaram a última temporada da NBA sob contrato e não foram convocados para a Olimpíada do Rio de Janeiro.

Com a palavra: Dr. Lucas Chaves Netto, infectologista do HC-FMUSP e do Hospital Sírio Libanês:

A síndrome de Fournier a gente chama na medicina de uma fasciite necrotizante. No caso, a fasciite necrotizante da síndrome de Fournier é uma fasciite, uma infecção, de partes moles, ou seja, na região da pele, do tecido mais profundo, mas especificamente da fáscia. Fáscia é como se fosse a capa que envolve o músculo, e essa infecção na verdade acomete a região perineal, a região genital, seja masculina ou feminina.

Pode acometer qualquer faixa etária, de criança a idoso, mas a maioria do caso é de adultos de 30 a 60 anos. Se trata de uma desregulação local por algum fator externo, seja trauma local, seja algum processo infeccioso local, como uma foliculite, que é como se fosse uma espinha, ali na região do períneo, da genitália masculina ou feminina ou na região próxima ao ânus, ou ainda até casos como piercing na genitália, pessoas que injetam cocaína ou outras coisas para estimular a ereção na região do pênis, qualquer trauma local ali, qualquer abordagem cirúrgica. Em uma pessoa que tende a ter uma imunidade menor, que tem maior fator de risco – ou seja, alcoolismo, diabetes, idosos e qualquer outra monossupressão na presença de um microorganismo virulento. Qualquer bactéria que tenha uma propriedade mais virulenta, a hora que ela é inoculada em uma pessoa que tenha uma baixa reserva, pode causar essa infecção que é absolutamente dramática.

É uma infecção extremamente grave, porque a partir do momento que você tem essa inoculação do germe em uma pessoa que tem baixa reserva ali naquela região, ela se desenvolve muito rápido nesse plano que a gente chama de fáscia. Aí, é como se ela fosse descolando, a pele, o músculo, e vai progredindo. Você chega a ter uma taxa de progressão de 2 a 3 centímetros por hora. E são casos extremamente graves, caso que a aparência fica muito drástica, é algo que chama muito a atenção. Para isso, você precisa ter uma rápida identificação do quadro.

Geralmente, a pessoa pode ter febre, pode ter um pouco de prostração anterior, e aí vai ter muita dor local, na região genital ou perianal, e vai ter também vermelhidão local. E aí pode começar a sair pus, pode começar a ter um abaulamento, como se tivesse uma bola de pus lá dentro. O tratamento precisa ser urgente e imediato porque além do antibiótico que precisa ser de amplo espectro – porque na hora você nunca vai ter a identificação do agente, então você precisa dar um antibiótico que tenha uma cobertura super ampliada para pegar o que a gente chama de micro-organismos da pele, da flora intestinal e anaeróbios, que também são da flora intestinal mas produzem gás, e gás vai complicar ainda mais pela dissecção muscular que vai ter ali na região.

Mas mais fundamental do que o antibiótico é o desbridamento cirúrgico, é a abordagem cirúrgica. Porque se você não abrir, não fizer uma limpeza agressiva, não tirar todo o conteúdo purulento, só o antibiótico em si não resolve. Mesmo assim, mesmo tendo uma otimização do ponto de vista cirúrgico e do ponto de vista de antibiótico terapia, você chega a ter uma letalidade de até 75% nesses casos. Fica com uma aparência muito ruim, também por causa da abordagem cirúrgica, porque a pessoa precisa abrir e limpar tudo. Então, às vezes, fica absolutamente toda exposta a região da genitália e a região anal da pessoa. Acomete muito mais homens, chegando em uma proporção de dez para um, porque a mulher tem uma melhor drenagem da região, o que confere uma certa precaução para ela.