Lea porta bandeira - Brasil

Lea T, à frente, puxou a delegação brasileira em seu triciclo durante a cerimônia de abertura da Rio-2016 (Foto: AFP)

Lucas Faraldo
07/08/2016
06:50
São Paulo (SP)

Um “detalhe” passou batido por boa parte do público que acompanhou a cerimônia de abertura dos Jogos na noite de sexta-feira: quem era a mulher no triciclo que puxou a delegação de atletas brasileiros no Maracanã?

Leandra Medeiros Cerezo, conhecida como Lea T, é uma modelo brasileira, negra e transexual. Convidada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para encabeçar o país-sede dos Jogos Rio-2016, ela trouxe a “campo”, junto com as centenas de atletas nacionais, uma pauta para lá de relevante: a busca por tolerância em tempos de ódio.

– Me chamaram mais como uma mensagem de inclusão, de paz. Vivemos num país onde as coisas não estão indo tão bem, existe muito preconceito. A festa da cerimônia pregou muito respeito às pessoas e ao planeta até. Pelo fato de eu sempre levantar essa bandeira, ser transexual, mulher, negra... Acharam interessante me chamar. Por eu ser brasileira, sempre ter lutado... Se bem que para mim não é nem uma luta, é uma coisa natural – conta, em entrevista concedida ao Lance! poucas horas após fazer história no Maracanã.

E põe história nisso! Lea T foi a primeira transexual a ter protagonismo em uma cerimônia de abertura de uma Olimpíada. E isso em pleno Brasil, país cuja intolerância mais mata transexuais e travestis no mundo: foram registradas 604 mortes entre janeiro de 2008 e março de 2014, em levantamento feito pela ONG Transgender Europe, rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero.  

Está mais do que na hora, portanto, de dar visibilidade a tal grupo de pessoas, como argumenta a própria modelo, que, antes de encabeçar a delegação verde-amarela sob olhares do mundo inteiro, ganhou capas das principais revistas de moda do planeta por ser a primeira transexual a assinar contratos de grande porte com empresas interessadas em seu trabalho.

– Foi uma boa lição. Machucou alguém o fato de uma transexual levar os atletas da comissão? No final está todo mundo feliz. Então vamos começar a integrar transexuais, gays, negros, índios! Por que não? Temos que falar disso na moda, no esporte, em todo lugar. O mundo precisa mudar agora, ou então será tarde demais.

Em tempo: no início do ano ano, o COI autorizou transexuais a competirem nas Olimpíadas nas modalidades correspondentes ao gênero ao qual se identificam, sem necessidade de fazer a cirurgia transgenitalização. Há, porém, regras a serem seguidas, como por exemplo o controle do nível de testosterona no caso da mudança de sexo biológico de masculino para feminino.

Admiração por Karol Conka e MC Soffia

Não só Lea T levou pautas ligadas à luta por igualdade para o Maracanã na noite em que o estádio talvez tenha recebido a maior quantidade de "holofotes" de sua história. No show que antecedeu a entrada das 207 delegações que competem na Rio-2016, as cantoras de rap Karol Conka e MC Soffia levantaram a bandeira do empoderamento feminino em suas canções.

Lea T, nos bastidores que antecederam e sucederam a cerimônia de abertura, disse ter se encantado com as cantoras:

– Conhecia Gilberto, Anitta, Jorge Ben Jor, a Regina Casé... Lá vi a Karol Conka e a MC Soffia que são super antenadas sobre essas pautas, esses assuntos. Essa juventude, aliás, está bem antenada que as coisas têm que mudar – disse a modelo, que é filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo e também foi acolhida pelos atletas e ex-atletas que participaram da festa no Maracanã.

Karol e Mc Sofia
Karol Conka e MC Soffia cantaram no Maracanã (Foto: Reprodução)

Polêmica na transmissão da TV

Durante a transmissão da cerimônia, as câmeras de televisão não deram tanto enfoque em Lea T, ao contrário do que aconteceu com as personalidades que pilotavam os triciclos das demais delegações. Alguns internautas utilizaram redes sociais para questionar se teria havido uma espécie de boicote das emissoras à causa trans. De acordo com Lea T, tudo não passou de uma confusão causada pela empolgação em desfilar no Maracanã:

– Foi um erro meu. Tínhamos que levar o triciclo, né? Ele não é fácil de ser pilotado. Em uma bicicleta, não dá para ir devagar. E o triciclo dava essa sensação da bicicleta, então acabei indo rápido. Eu podia, e devia (risos), ir devagar – esclareceu.

– Na hora que eu saí, fui acelerando muito, até pela emoção, e esqueci que estava no triciclo e não numa bicicleta, aí passei e não conseguiram me filmar. A equipe de funcionários até falou no final que eu corri muito. Me empolguei (risos), cheguei em casa arrasada quando fiquei sabendo que não deu para me filmarem direito, mas acontece.