Jonas Moura
02/05/2016
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Quem ainda lamenta a ausência de Cesar Cielo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em agosto, pode começar a olhar com mais atenção para Bruno Fratus. Aliás, já deveria ter feito isso.

Aos 26 anos, o atleta do Pinheiros é uma das apostas da natação brasileira em provas individuais e, desde o ano passado, vem obtendo marcas mais expressivas do que o recordista mundial nos 50m livre.

Ao nadar para 21s37 no Open de Palhoça (SC), em dezembro, Fratus confirmou o que previa no decorrer de meses de trabalho: ele é, de fato, um forte candidato ao pódio nos Jogos em casa. A classificação foi selada no Troféu Maria Lenk, em abril, quando o atleta garantiu uma das vagas na prova, com Ítalo Manzine.

O tempo obtido em Santa Catarina foi o segundo melhor do ano passado, empatado com o americano Nathan Adrian, e atrás apenas do francês Florent Manaudou, que fez 21s19 e é favorito ao ouro em agosto.

Elementos não faltam para que o carioca de personalidade forte pense até em bater o recorde de Cielo, de 20s91, selado em 2009, quando os trajes tecnológicos eram permitidos.

O nadador admitiu que o fim das baladas, o casamento com a ex-nadadora Michelle Lenhardt e a maturidade o fizeram alcançar o auge físico e mental. Reconheceu que houve avanços na cultura esportiva brasileira, mas criticou o apego da mídia à “novela” em torno de Cielo, que acabou fora da Rio-2016.

– Acho que nós deveríamos valorizar mais o feito de quem conseguiu a classificação, e fazer menos drama e novela em cima de quem ficou fora da Olimpíada – afirmou Fratus, em entrevista exclusiva ao LANCE!.

E como os preparativos para se tornar um campeão ultrapassam as horas de treinos na piscina, o brasileiro, que mora em Auburn (EUA), contou de onde tem tirado inspiração para se virar em momentos críticos: nos esporte americanos.

Bruno Fratus
Fratus é destaque do Brasil nos 50m livre (Foto: Satiro Sodre/SSPress)

LANCE!: Como avalia sua preparação para os Jogos até o momento? Está como você esperava?
Bruno Fratus: Tem sido tudo ideal. O Pinheiros, a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) e o COB (Comitê Olímpico do Brasil) não têm deixado faltar nem um grão de arroz. Quando falamos de torneios nacionais, sul-americanos e até mundiais, sempre tem aquele atleta que dá uma “miguelada”, se poupa, tem planos diferentes. Mas, com Jogos Olímpicos, não. Todos estão dando o melhor. A preparação está ótima.

L!: O que pensa sobre o aumento da expectativa sobre seu nome do último ano para cá. Hoje, você é o melhor velocista brasileiro...
B.F.: É engraçado, porque há pouco tempo eu era só revelação, revelação, revelação. Às vezes, penso: “já estou nadando há anos e sou revelação?” Agora, pulo de revelação para o papel do líder. De promessa, do nada virei o cara. Mas acho que todos esses títulos pertencem exclusivamente para a mídia e os torcedores. Sempre fui o Bruno que começou a competir porque gosta de nadar rápido e de ganhar. Mais do que gostar de ganhar, detesto perder. Desde o primeiro dia de treinos até agora, quase às vésperas da Olimpíada do Rio, eu sou assim. Independentemente do rótulo que tentem colocar em mim.

L!: Você ficou fora do pódio por dois centésimos na Olimpíada de Londres. A lembrança daquele fato ainda passa pela cabeça?
B.F.: Passou. Diria que passa cada vez menos na minha cabeça, porque as motivações vão mudando à medida que os novos episódios acontecem na nossa vida. As histórias que me motivam, que me colocam para frente, hoje são outras. Elas se reciclam.

Bruno Fratus e Cesar Cielo
Cesar Cielo  e Bruno Fratus: rivalidade (Foto: Satiro Sodre/SSPress)

L!: Qual é a sua maior motivação hoje, nesse seu novo momento?
B.F.: O que mais me motiva hoje é a possibilidade de alcançar o maior resultado da carreira na frente da família e dentro do meu país. Não digo coroar para não dar uma conotação de encerramento. Quem me conhece sabe que sou muito patriota. Tenho certa cultura e educação cívica. Entendo a função do atleta na sociedade e acho que cumpro esse papel. Posso servir de referência para as gerações que virão depois da minha. Alcançar este resultado na frente de todo mundo e no meu país é algo que irá potencializar meu dever como atleta.

L!: Acha que os brasileiros conseguiram criar uma cultura esportiva com a oportunidade de sediarmos os Jogos no Brasil?
B.F.: A cultura esportiva brasileira já evoluiu muito desde 2009, quando o Brasil foi escolhido sede. Antes de 2009, considero que o povo brasileiro era praticamente analfabeto em relação a isso. Até porque, antes disso, quantas vezes víamos o LANCE! cobrir algo que não o futebol? Hoje, vemos pessoas que, em vez de ir lá e criticar o Cesar (Cielo) por não conseguir (a vaga), reconhecem o legado dele. É uma prova de que o povo educou-se em termos de cultura esportiva.

L!: Mas, na última seletiva, muito se falou sobre o Cielo não se classificar e pouco foi dito sobre o Ítalo Manzine e sobre você.
B.F.: É natural a cobertura em cima do Cesar, pois é o maior expoente do Brasil. Quem lê as notícias quer saber sobre quem já conhece. Mas é uma prova daquela pontinha de cultura esportiva que ainda falta ser evoluída, de saber mais sobre os outros atletas. Eu acho que deveríamos valorizar mais o feito de quem conseguiu a vaga e fazer menos drama e novela em cima de quem ficou fora dos Jogos.

"A prova mais rápida da natação foi nadada em 20s91, com traje de borracha. Não vou dizer que esta marca é o limite onde quero chegar, mas tento quebrar. Tenho certeza de que posso ser absurdamente mais rápido do que 21s37"

L!: Até hoje, seu melhor tempo nos 50m livre foi 21s37. Aonde você acredita que pode chegar?
B.F.: O céu é o limite. A prova mais rápida da natação foi nadada em 20s91 (por Cielo), com traje de borracha. Não vou dizer que esta marca é o limite onde quero chegar, mas é a marca que eu tento quebrar. Não me apego a nenhum número, mas tenho certeza de que posso ser absurdamente mais rápido do que 21s37. Meus treinos mostram que eu posso. Estou no meu auge físico e psicológico. Muito melhor decidido em várias questões que antes eu tinha alguns problemas, há quatro anos.

L!: Que tipo de problemas?
B.F.: Hoje, sou casado, planejo construir uma família, pago impostos, estou mais maduro. Não sou mais o moleque que acaba a competição e vai para a balada, o cara que chega ao fim de semana e vai fazer besteira. Tenho objetivos muito mais claros do que há um tempo atrás. Sei o que preciso fazer para alcançar meus objetivos.

L!: Quebrar a barreira da uma vida mais desregrada e alcançar a rotina atual foi difícil para você?
B.F.: Você, como jornalista, gosta de escrever e de ler, né? Eu acho um saco (risos). Não sou muito fã de literatura. É a mesma coisa. (Nadar) é o que eu faço, é a carreira que escolhi. O que vocês chamam de sacrifício, eu considero rotina, disciplina. A conotação que vocês dão para rotina é totalmente diferente da que eu dou. Se eu não pensasse desse jeito, não deveria estar fazendo o que eu faço. Foi fácil (me superar), porque amo o que eu faço. Se eu tivesse problemas para superar as dificuldades que falei, eu não estaria no ramo certo.

L!: Que impressão tem do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos em meio a tantos problemas no país, seja na política, economia ou nas obras?
B.F.: Acho que todo lugar passou por isso. Londres (ING) teve seus atrasos, Pequim (CHN) também. Atenas (GRE) foram gigantes os atrasos. É inerente à preparação dos Jogos. Não deve haver nada mais complexo de organizar do que este evento. Naturalmente, haverá percalços pelo caminho. Mas não tenho dúvidas de que estará tudo pronto, lindo, limpinho e varrido em agosto.

L!: Como é a sua convivência com os atletas mais novos da Seleção?
B.F.: Quem é mais novo chega com bastante humildade, de fininho. Quem já está no time há muito tempo procura passar a experiência. Todos se ajudam. Não gosto de competir nos 100m livre, mas não chego lá, faço o meu nos 50m e vou embora. Encho o saco quando eles saem da linha na alimentação, coloco ordem quando é hora de dormir. Quero sempre ajudar.

L!: Fora da natação, em quem você tem se inspirado no esporte?
B.F.: Sou muito apaixonado e passional quando o assunto é esporte. Não tenho vergonha nenhuma de admitir isso. Quando eu tinha meus 15, 16 anos, olhava o Giba jogando e falava "é esse tipo de atleta que eu quero ser". Ultimamente, como moro nos Estados Unidos, tenho seguido muito futebol americano e basquete. Mas sou fã de esportes em geral. Não gosto muito de futebol. No máximo, assisto a uma final de Copa do Mundo ou Libertadores, Champions, pois gosto de assistir atletas de alto rendimento medindo suas performances em situações extremas, de pressão. Um Super Bowl, uma final de NBA ou de UEFA são impagáveis. É o extremo da cobrança que existe sobre o atleta.

L!: Já que você falou dos esportes americanos, tem torcida para algum time na NFL e na NBA?
B.F.: Simpatizo muito com o Seattle Seahawks, pois acho o Marshawn Lynch, que agora se aposentou, e o Richard Sherman verdadeiros personagens. Eles “mitam” muito. Quando cheguei aos Estados Unidos, em meu primeiro ano lá (2013), ganharam o Super Bowl. Acabou que eu elegi como meu time na NFL. Na NBA, não tenho uma torcida única. Assisti a todos os últimos jogos da carreira do Kobe (Bryant), e tenho acompanhado o Stephen Curry e o Golden State Warriors, que quebrou o recorde de vitórias (de 72, na temporada regular) do Chicago Bulls.

Bruno Fratus
"Aqui não", diz Fratus após confirmar vaga (Foto: Satiro Sodre/SSPress)

AQUI, NÃO!

Após garantir a medalha de ouro nos 50m livre no Troféu Maria Lenk, no Rio de Janeiro, no dia 20 de abril, e confirmar uma das vagas na Olimpíada do Rio de Janeiro, Bruno Fratus virou para a arquibancada e disse “aqui, não”, em direção ao local onde estavam os familiares e amigos dos competidores. A mensagem pareceu transmitir um desabafo diante da forte concorrência que existia na prova mais rápida da natação. O outro classificado foi Ítalo Manzine, enquanto Cesar Cielo, recordista mundial e único nadador brasileiro campeão olímpico até hoje, terminou em terceiro lugar e ficou fora da Rio-2016.

A CARREIRA

Jogos Olímpicos
Em sua primeira participação no evento, em Londres (ING)-2012, Fratus terminou a prova dos 50m livre na quarta colocação, com 21s61, dois centésimos abaixo de Cesar Cielo, que faturou o bronze.

Campeonatos Mundiais
Fratus levou o bronze nos 50m livre no Mundial de Kazan (RUS), no ano passado, com 21s55. No revezamento 4x100m livre, integrou a equipe brasileira, quarta colocada.

Jogos Pan-Americanos
O nadador conquistou a medalha de ouro no 4x100m livre em Toronto (CAN), no ano passado. Em Guadalajara (MEX)-2011, também foi campeão, tanto no 4x100m livre quanto no 4x100m medley. Nos dois eventos, conquistou a prata nos 50m livre.