Lucas Pastore
06/08/2016
06:05
Rio de Janeiro (RJ)

O basquete está vivo nas comunidades do Rio de Janeiro. Mas não graças à Olimpíada, e sim graças a gente como Wanderson Geremias. Aos 39 anos de idade, o amante na modalidade está há 11 na batalha para que o esporte ajude a melhorar a vida de crianças de Santa Cruz, seu bairro, por meio do Cultura na Cesta. Por isso, acha que os Jogos são uma oportunidade perdida para o Rio de Janeiro deixar de ser uma "cidade sitiada".

Depois de ter jogado em tradicionais clubes do Rio de Janeiro, Wanderson migrou para o basquete de rua, onde começou a veia social de seu trabalho. Depois de fazer parte de projetos como o da Cufa (Central Única de Favelas) e no AfroReggae, decidiu voltar para o Cesarão, sua comunidade, no bairro de Santa Cruz. Nascia ali o Cultura na Cesta.

O nome se deu porque Wanderson sentiu que os mesmos alunos que impressionavam plateias por meio do basquete tinham vergonha de ler textos de apresentação publicamente por conta de seus problemas de alfabetização. Por isso, resolveu misturar as aulas de basquete com lições de português, especialmente envolvendo poesia. Essa é é a origem do nome do projeto.

Wanderson dá à comunidade a atenção que ele achava que a Olimpíada atrairia quando o Rio de Janeiro foi escolhido como cidade sede, e não a exercida pelas autoridades.

– Pacificação por meio de militarismo? Pacificação tem que ser com educação, com cultura, com esporte. Você tinha que usar s caras que estão aí para clínicas – opinou, em visita do LANCE! à sua casa, com crianças jogando basquete ao som de hip hop na tabela improvisada na rua.

Desde 2007, Wanderson tem tentado trabalhar o Cultura na Cesta, que se apresentou no último domingo por meio do Festival Cutura na Rua, como ONG, processo que tem sido atrapalhado burocraticamente pela ausência de uma sede.

Neste sábado, às 19h, quando a bola subir para Estados Unidos x China, jogo
que fecha o primeiro dia de disputas do basquete masculino, muita gente no ginásio estará realizando um sonho. Enquanto isso, na comunidade, Wanderson estará lutando para manter outros vivos.

Veja fotos do Festival Cultura na Rua (Breno Crispino/Divulgação):

Bate-bola com Wanderson Geremias:


Como surgiu a ideia do projeto?
Iniciei o trabalho ali na Cufa (Central Única das Favelas), no AfroReggae, fiz muita coisa com a Liga Urbana de Basquete, que foi um dos primeiros times de exibição aqui do Brasil. Eu fui da primeira leva, né, da primeira turma. Mas sempre sentia a necessidade de ficar cruzando a cidade para fazer alguma coisa. Tipo, eu fazia muita coisa na Cidade de Deus, em Madureira, fazia muita coisa fora do Rio, em outras cidades, mas aqui mesmo eu não fazia. E aí chegou
em 2005 e eu senti a necessidade de começar a fazer aqui. Comecei com cinco crianças dessa mesma forma que você está vendo aí. Cinco crianças, metemos a cara, de cinco passou para dez, vinte, cinquenta, quando chegou a 100 eu fiquei meio perdido né cara? Pô, criança pra caramba, e eu falei "o que eu tenho
que fazer? Eu tenho que me estruturar mais", né. Estruturar, buscar. Porque pô, não era só o basquete, entendeu?

Você tinha esperança de que a Olimpíada mudaria alguma coisa?
Cara, a gente tinha esperança, né? A gente sempre espera que vai mudar. Brasileiro é assim. Mas continua do jeito que está. Quem tem dinheiro ergue muros e vive preso, e quem não tem espera uma oportunidade. Assim, o Rio de Janeiro é uma cidade sitiada.

Quem é seu ídolo?
É o Paulo Adão, que foi o meu primeiro treinador que misturou isso tudo. Ele não era ligado ao basquete, mas amava esporte. Era um arquiteto, e ele sempre me ajudou, sempre me botou nesse meio cultural. Acho que essa veia cultural minha, dele sempre me ceder livros, sempre estar me incentivando ao estudo, não só ao esporte, eu herdei, então ele é acho que minha grande referência.