Bernardo Cruz e Jonas Moura
20/04/2016
17:56
Rio de Janeiro (RJ)

Maior nome da história da natação brasileira, Cesar Cielo está fora dos Jogos Olímpicos Rio-2016. Nesta quarta-feira, no último dia de provas do Troféu Maria Lenk, disputado no Estádio Aquático do Parque Olímpico, o paulista não conseguiu terminar a classificatória nacional com um dos dois melhores tempos do país nos 50m livre, sua especialidade. Ele nadou para 21s91, abaixo de Bruno Fratus (21s71) e Ítalo Manzine (21s89), e se despediu do torneio com um bronze e lágrimas nos olhos.

O campeão olímpico em Pequim-2008 e tricampeão mundial (2009, 2011 e 2013) saiu da piscina aplaudido pela torcida, composta exclusivamente por familiares dos atletas e convidados. Em um primeiro momento, pediu desculpas aos seus pais por não ter alcançado o objetivo. Após a cerimônia de premiação, mais calmo, abriu alguns sorrisos e reconheceu os fatores que o levaram a fracassar: a ascensão de uma nova geração, aliada à queda de seu rendimento desde 2015.

– É muito difícil, mas não vou falar que foi completamente uma surpresa. Quem acompanha a natação sabe que tive um ano passado ruim. Neste, não tive forças para levantar. Tentei o máximo que pude, mas realmente não consegui. Minhas marcas foram muito acima do que eu queria. No esporte de alta performance, você não pode parar no tempo. É mérito do Bruno e do Ítalo, mas perdi para mim mesmo – disse Cielo, de 29 anos, em coletiva após a prova.

"Tentei o máximo que pude, mas realmente não consegui. Minhas marcas foram muito acima do que eu queria. No esporte de alta performance, você não pode parar no tempo. É mérito do Bruno e do Ítalo, mas perdi para mim mesmo" - Cielo

A princípio, o resultado encerra qualquer chance de Cielo participar da Olimpíada do Rio. O atleta já havia batido o índice nos 100m livre (48s99), mas registrou apenas o sétimo melhor tempo da equipe brasileira (48s97). Marcelo Chierighini (48s20) e Nicolas Oliveira (48s30) se garantiram na disputa individual e no revezamento 4x100m livre, que terá ainda os titulares João de Lucca e Matheus Santana. Para fazer parte da Seleção como reserva, Cielo precisaria do aval da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), já que o quinto melhor tempo é de Gabriel Santos, de 20 anos (48s89). Neste caso, a inscrição não precisa ser por tempo. Mas o veterano admitiu que sua função na equipe agora é outra.

– Vou virar torcedor e espero deixar um legado da minha carreira. Fui um cara que trabalhou com intensidade o tempo inteiro e representou o Brasil da melhor forma possível enquanto pude. Agora não vou poder, mas quando pude, dei o meu máximo – declarou o nadador.

Apesar disso, o diretor executivo da CBDA, Ricardo de Moura, não descartou qualquer possibilidade. O dirigente afirmou que nenhuma decisão será tomada de cabeça quente. Só reforçou que, até então, os classificados eram os nadadores que atingiram os melhores tempos.

De manhã, Cielo assegurou o índice dos 50m (de 22s27) ao fazer 21s99, resultado melhor que o de Manzine até aquele momento. Em competições oficiais, o astro não nadava abaixo da marca mínima da Federação Internacional de Natação (Fina) desde o Maria Lenk de 2015, há mais de um ano (21s84). O feito desta quarta parecia dar início a uma reviravolta na carreira. Mas uma surpresa negativa estava reservada para a tarde.

Quando os competidores já aqueciam para a decisão, o Estádio Aquático sofreu um apagão. O problema foi causado por uma falha em uma das unidades de energia, que abastece a iluminação da piscina. Fileiras de refletores que iluminavam a área começaram a apagar, para que o sistema fosse restabelecido. A prova de Cielo acabou atrasando quase uma hora. Mas ele minimizou o fato. Agora, só quer pensar em descansar e planejar o futuro, que ainda não sabe bem como será.

– Não quero decidir nada agora. Certamente vou dar uma pausa em treinos, até porque não existe motivo para treinar na segunda-feira. É relaxar e absorver o fato da melhor maneira possível. Já tive piores momentos do que o de hoje (ontem). Vou sentar com a minha família e conversar – declarou o único nadador brasileiro campeão olímpico.

A maior esperança do Brasil agora está em Fratus, que vai para sua segunda Olimpíada. Em Londres, ele terminou em quarto lugar. Por dois centésimos, perdeu o bronze para Cielo. Aos 26 anos, é hoje a esperança da natação brasileira na Rio-2016.

– A ausência do Cielo é a prova da renovação do esporte. A beleza do esporte olímpico é essa – disse Fratus.