Felipe Noronha
14/08/2016
07:10
São Paulo

No dia 23 de agosto de 2015, há quase um ano, Usain Bolt bateu Justin Gatlin na final dos 100 m no Mundial de atletismo por exatamente um centésimo de segundo (9s79 x 9s80). Gatlin tinha o corpo à frente a poucos metros da linha de chegada, mas perdeu o equilíbrio e viu Bolt esticar a cabeça para ultrapassá-lo. 

Não era difícil antes, e tornou-se quase padrão depois, ouvir comentaristas especialistas em atletismo afirmando que Gatlin "tremeu" ao ver seu principal rival, o recordista mundial da prova e praticamente imbatível desde 2008, chegar tão próximo na hora decisiva quando o americano havia feito tempos melhores nas eliminatórias e no restante do ano.


Será que, em um duelo de tão alto nível, entre os dois mais rápidos homens do planeta, ambos medalhistas de ouro na prova (Gatlin em 2004, Bolt nas duas edições seguintes), é possível que um deles perca pelo psicológico, e não pelo talento?

É. E pode acontecer neste domingo, quando ambos participam, primeiro, da semifinal dos 100 m no Rio de Janeiro e, quase com certeza, se encontram na decisão, a partir de 22h25.

Para o dr. João Ricardo Cozac, psicólogo especialista em esporte, não só isso pode ocorrer com Gatlin como o torcedor pode enxergar o psicológico do atleta esvair com suas próprias chances.

- É muito difícil o Bolt ser batido, e assim sua presença pode representar para o rival risco iminente de derrota. E aí qualquer pensamento que ele venha a ter são décimos a favor do Bolt - explica. E como o torcedor percebe isso?

- Em um tiro curto, um desvio muscular pode ser gerado por conta do nervosismo inesperado e isso pode decretar a derrota - diz. Ou seja, o psicológico pode fazer Gatlin, novamente, perder o equilíbrio, como perdeu na decisão do Mundial.


Mas Gatlin quer o ouro. Quer evitar que Bolt seja o primeiro homem a ganhar por três vezes a prova. E a experiência do corredor de 34 anos pode ser a fuga para qualquer "amarelada" psicológica.

- Ele é um atleta experiente, com rodagem, e se motiva ao ver o Bolt. Batê-lo seria uma façanha. Ganhar do Bolt, que é um atleta superespecial, diferenciado, o motiva - opina Rodrigo Scialfa, que trabalha com o esporte na psicologia. Ele acredita que uma vantagem para Gatlin é o pouco tempo de prova, o que dificultaria um abalo decisivo.

- Como a prova é rápida, esse tipo de atleta está focado, então pode não dar nem tempo dele pensar nisso em menos de 10 segundos, devido à concentração. O físico acaba sendo mais importante, porque ganhar do Bolt não é para qualquer um.

Físico ou psicológico? Equilíbrio ou queda de rendimento na hora decisiva? Bolt e Gatlin responderão neste domingo. É válido lembrar que, coincidentemente, o melhor tempo de 2016 é de Gatlin, e é o mesmo que lhe colocou em 2° na final do Mundial: 9s80. Mais um ponto que pode pressionar Gatlin em sua mente.