arqueira graziela paulino dos santos

Graziela começou a praticar o tiro com arco em 2014 (foto: Reprodução Facebook)

Guilherme Cardoso
05/03/2016
06:05
São Paulo (SP)

Faça uma pesquisa na internet com a palavra “índio” e uma das primeiras imagens que vai aparecer é a de um indígena com um arco e uma flecha na mão. Algo normal? Não era para Graziela Paulino dos Santos, a Yaci, da etnia Karapãna. Mas desde 2014, o equipamento se tornou uma coisa comum na vida dela, que agora sonha com uma vaga nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em agosto.

Aos 20 anos, a índia natural de Novo Airão, no Amazonas, pouco imaginava em sua infância que poderia ter a chance de disputar um dos eventos mais importantes do esporte mundial. Mas desde a última sexta-feira, ao lado de outras dez atletas, ela participa da seletiva olímpica nacional, em São Paulo (SP). Serão quatro fases até a definição dos oito classificados (quatro de cada naipe) para a Olimpíada Rio-2016.

Apesar do sangue indígena, Graziela nunca tinha se interessado anteriormente pelo arco e flecha, ou melhor, tiro com arco. Na verdade, nem conhecia o esporte. Na comunidade em que morava com o pai, a mãe e os irmãos (segundo ela, são seis no total), a rotina era praticamente a mesma todos os dias.

– Vivia em uma comunidade, em uma casa de madeira, em uma vila no interior. Não é que nem uma tribo, é mais civilizado. De manhã, acordava, tomava café, ajudava minha mãe no almoço e a lavar a louça. À tarde, descansava, assistia à televisão e, depois, estudava. Então, ia dormir – disse a atleta ao site do LANCE!.

– Só atirava (com o arco e flecha) quando tinha algum evento no Dia do Índio. Ia bem – completou.

Mas tudo isso mudou em 2014, quando ela decidiu participar de uma seletiva do Projeto Arquearia Indígena do Amazonas, da Fundação Amazonas Sustentável. A ideia da iniciativa era selecionar e treinar índios para possibilitar a participação deles nos Jogos Rio-2016.

E Graziela passou a se destacar. Em novembro de 2015, conquistou a medalha de ouro nas duplas no 41 Campeonato Brasileiro Outdoor de Tiro com Arco, em Goiânia (GO), com Nelson Silva, também de uma tribo indígena, da etnia Kambeba. Já em janeiro deste ano, ela ficou em primeiro lugar no torneio classificatório para a seletiva olímpica – sendo a quarta colocada no geral.

– Não estava esperando por isso. Mas foi uma competição legal, porque tive uma bom resultado – disse a atleta, que nas respostas curtas, não consegue esconder toda a timidez.

Os bons resultados têm uma explicação. Morando atualmente na sede do projeto, Yaci tem uma rotina regrada. São pelo menos dois períodos de treino diariamente, o primeiro com início às 8h. Se não bastasse, ela ainda está na faculdade, na qual tem cursado Ciências Contábeis.

– Não vamos ser atletas a vida toda. Estão preocupados com a gente estar na escola, ter uma outra carreira. Gosto das duas coisas – afirmou.

Se antes nem se imaginava no tiro com arco, hoje Graziela sonha alto. Ela participa do projeto com dois de seus irmãos e se tornou uma inspiração para a família. Na seletiva olímpica, além dela, são outros dois indígenas: Dream Braga da Silva e Nelson Silva de Moraes, no masculino.

– Nunca acompanhei e nunca vi uma Olimpíada. Mas tenho ideia de que seja uma coisa grande e legal. Seria uma vitória só de disputar. Mas se não conseguir agora, quem sabe em 2020 – afirmou a arqueira.

A SELETIVA OLÍMPICA
Datas
– 1ª seletiva: 4 e 5 de março;
– 2ª seletiva: 26 e 27 de março;
– 3ª seletiva: 16 e 17 de abril;
– 4ª seletiva: 30 de abril e 1 de maio.
- Os locais ainda serão definidos pela Confederação Brasileira de Tiro com Arco (CBTarco).
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A equipe
Integrará a Seleção Brasileira de tiro com arco três atletas do gênero masculino e três atletas do gênero feminino, com mais um reserva para cada naipe. Os dois primeiros de cada gênero na seletiva garante vaga na Rio-2016. Os outros dois atletas será definidos pela comissão técnica.
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Nos Jogos
Dos quatro integrantes de cada naipe para os Jogos Olímpicos, três serão titulares e um reserva. A definição também será feita pela comissão técnica.
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Estão na disputa
São dez atletas de cada naipe na disputa da seletiva olímpica. O destaque é Marcus Vinícius D’Almeida, principal arqueiro do Brasil na atualidade e esperança de medalha nos Jogos Olímpicos.

A INSPIRAÇÃO:

Cathy Freeman
A australiana Cathy Freeman, especialista nos 400m no atletismo (foto:AFP)

Cathy Freeman

A australiana Cathy Freeman serviu como inspiração para a criação do Projeto Arquearia Indígena do Amazonas. A atleta se tornou a primeira aborígene a disputar uma Olimpíada por seu país, em Atlanta-1996, quando levou a prata nos 400m rasos. Em Sydney-2000, ela faturou o ouro nessa mesma prova, além de ter acendido a pira olímpica na abertura dos Jogos.