Prova de vela é mais uma a revelar as belezas naturais do Rio de Janeiro

Competição de vela com cenário lindo de fundo no Rio de Janeiro (Foto: GREG BAKER / AFP)

Luiz Fernando Gomes
21/08/2016
07:05
Rio de Janeiro (RJ)

Sim, nós ainda temos problemas de segurança, ainda vivemos uma crise econômica e política, o país ainda está contaminado pelo vírus da corrupção e as deficiências da saúde e da educação, do transporte público e da moradia ainda continuam as mesmas de sempre. Nosso dia a dia amargo, a partir de segunda, voltará a dominar o noticiário da TV, dos sites, as páginas de jornais.

Mas há um outro lado nessa história.

Sim, aos olhos do mundo, o Rio nunca mais será como antes. Quem chegou aqui com medo da zika, de ser trucidado por um assaltante no meio da rua ou de contaminar-se com as águas infectas da Baía de Guanabara, sai deslumbrado com o que viu. E com o que sentiu. Sai apaixonado pelo carioca e por sua cidade. Quem não veio terá se arrependido. Esse é o espírito que fica entre os gringos.

É verdade que os australianos encontraram uma zorra na vila quando chegaram, que faltou comida nos primeiros dias de Jogos no Parque Olímpico, que a água da piscina esverdeou, que o despreparo de funcionários em se comunicar em inglês por vezes desconcertou os turistas, que sobraram lugares nas arquibancadas e que o sistema de transporte não foi perfeito, complicando a vida de quem tinha de circular pelas madrugadas. Sim, tudo isso aconteceu.

Mas, e daí? Nada é perfeito. Nem em Londres, muito menos em Pequim, tudo foi perfeito. Cada um com seus problemas, mas os problemas estavam lá. Sabem qual foi a diferença, então?

Em que outro lugar do mundo alguém competiu na vela e recebeu medalhas de frente com um Pão de Açúcar e diante de um cenário como a Baía da Guanabara? Ninguém lembrou das águas poluídas naquele momento mágico, podem ter toda certeza disso.

Em que outro lugar do mundo uma prova de remo foi disputada em uma lagoa sob o sovaco do Cristo, entre montanhas e áreas verdes em contraste com a ocupação urbana? E onde mais atletas poderão desfrutar o mar de uma das mais famosas praias do planeta ou pedalar por uma floresta urbana única no mundo?

Mas podemos ir mais além. Em que lugar do mundo uma torcida agiu como torcida brasileira. Vibrou, aplaudiu, se emocionou com esportes que nunca tinha visto antes e dos quais entende muito pouco. E vaiou também. Talvez mais do que deveria, é fato. Mas longe, muito longe de ser um bando de animais como aquele francês pretensioso da vara, o tal de Renaud Lavillenie, que se comparou a Jesse Owens, procurou fazer o mundo acreditar. Os atletas em geral, perguntem pra eles, adoraram estar e competir aqui.

O Rio venceu!

Venceu o preconceito de Ryan Lochte e sua trupe de nadadores bêbados que tentou fazer da nossa insegurança o álibi da sua safadeza. Venceu a agressão elitista da midia americana ao biscoito Globo - nunca bocas de tantas partes do mundo devoraram tanto as bolinhas de polvilho. Venceu a marcação cerrada de parte da mídia nacional - especialmente uma parte da imprensa paulista -, sempre procurando pelo em ovo talvez para amainar certa dor de cotovelo.

O Rio venceu, enfim, o complexo de vira-lata que tanto persegue o brasileiro.

Sim, erramos muito, por vezes perdemos feio dentro e fora das quadras, das piscinas, dos campos. Perdemos na vida. Temos milhares de problemas para resolver, muitíssimo além do esporte e de uma Olimpíada. Mas não somos melhores nem piores, não podemos mais ou menos do que os outros. Somos só diferentes. Até no jeito de errar e de enfrentar nossas mazelas. Que cada um fique com as suas.