Marlon Acácio (Foto:Divulgação)

Marlon Acacio após um treinamento no Parque dos Atletas, no Rio de Janeiro (Foto: Guilherme Cardoso)

Guilherme Cardoso
02/08/2016
07:05
Enviado Especial ao Rio de Janeiro (RJ)

Ele ocupa apenas a 77ª colocação no ranking mundial. Se classificou para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro somente por conta da cota continental. Mas isso, pouco importa. Afinal, aos 34 anos, o judoca Marlon Acacio, de Moçambique, quase ficou fora da Rio-2016 por outros motivos. Afinal, tinha se aposentado em 2008 para poder trabalhar e pagar suas dívidas.

Sul-africano de nascimento, o lutador defendeu sua nação até os Jogos de Pequim-2008. Ainda na categoria até 73kg (está atualmente no meio-médio, até 81kg) e conhecido como Marlon August, foi eliminado na segunda luta pelo brasileiro Leandro Guilheiro. Foi aí que ele tomou a decisão que poderia mudar sua vida.

Com uma dívida de US$ 6 mil na época e sem qualquer patrocínio para competir, Acacio decidiu largar o esporte. Foi trabalhar com os pais em uma empresa de importação em Joanesburgo para conseguir se sustentar.

– O judô na África precisa ser pago do seu próprio bolso. Então, tiive muita dificuldade para conseguir pagar as coisas para comer. Vivia na casa do meu treinador, dormia no chão só para continuar a treinar. Não conseguiria fazer a próxima Olimpíada (Londres-2012) assim. Tinha de pagar minhas dívidas – disse ao site do LANCE!.

– (A dívida) para um jovem da minha idade era muita coisa. E isso sem ter um trabalho. Só fazia o que podia para viver – completou.

Ao largar o esporte e começar a trabalhar, Acacio resolveu sua situação financeira. Mas sentia falta de praticar o judô. Até por isso, a aposentadoria durou apenas quatro anos. O problema agora seria convencer os sul-africanos a incentivá-lo no atual ciclo olímpico, o que não deu certo. Novamente, a solução veio de seus pais, nascidos em Moçambique.

– Cansei daquilo. Essa vida normal não era para mim. Trabalhar das 9h às 17h, ganhar dinheiro, gastar à noite... Gostava do esporte. Decidi, então, voltar com calma, devagar. Tentei entrar na seleção da África do Sul, consegui, mas não fomos competitivos. Queria disputar os Jogos Olímpicos, mas eles estavam de olho em 2020. Então, como tinha passaporte de Moçambique, fui para lá. Conversei com os gerentes e consegui – falou o judoca, após mais um período de treinos no Rio de Janeiro.

Acacio ainda tem um emprego. Em Joanesburgo, trabalha com a criação de websites e aplicativos para celular. E conta com uma ajuda financeira de Moçambique por conta do judô. O foco agora, está mesmo na Rio-2016. Sem resultados expressivos na carreira, ele sabe que é difícil levar uma medalha no Rio. Mas não custa sonhar.

CONFIRA UM BATE-BOLA COM MARLON ACACIO:

Competindo por Moçambique, você tem mais apoio do que quando lutava pela África do Sul?
Marlon Acacio: Para mim, Moçambique é melhor. Não tem muitos atletas, mas tentamos ajudar os competidores. Eles sempre conhecem quem está fazendo resultados, quem está tentando. Tenho mais ajuda do que na África do Sul. Consegui uma bolsa olímpica lá.

O que você tem achado do Brasil? Já conseguiu sair para conhecer o Rio de Janeiro?
MA: Ainda não sai da Vila (Olímpica). Estive no Brasil e no Rio de Janeiro antes para disputar algumas competições. Quando vi que os Jogos seriam no Brasil, falei que tinha de vir para fazer “samba”.

O que espera da competição olímpica?
MA: Quero ganhar lutas. Isso é o que eu quero fazer. Tenho confiança que eu posso. Vi uma campeã dizendo que são cinco lutas, 25 minutos. É fazer o que eu posso nesse tempo. Para isso que eu vim aqui: ganhar lutas.

Você atualmente mantém um trabalho, além do judô. Conseguiu se desligar para disputar a Olimpíada?
MA: Agora, estou totalmente fora desse negócio. Para estar aqui, eu já não fazia mais as coisas nos últimos anos, olhava somente para os e-mails. Comecei a passar as demandas para outras pessoas. Dessa maneira, é melhor. Se começo a trabalhar, esqueço o que eu vim fazer aqui.

QUEM É O JUDOCA?
NOME: Marlon Acacio

NASCIMENTO: 9/7/1982 - Joanesburgo (AFS)

ALTURA E PESO: 1,80m e 81kg

CATEGORIA:
 Meio-médio (até 81kg)

PARTICIPAÇÕES OLÍMPICAS: Pequim-2008 (na categoria até 73kg) e Rio-2016