(Foto: Divulgação/Portuguesa)

Jorge Manuel Marques Gonçalves, ex-presidente da Portuguesa, durante evento (Foto: Divulgação/Portuguesa)

Melissa Gargalis
25/04/2016
15:08
São Paulo (SP)

Na próxima quinta-feira, às 19h, acontecerão as eleições presidenciais na Portuguesa. Com o clube imerso em dívidas, apenas uma chapa candidatou-se até o prazo limite do dia 18 de abril. Trata-se da chapa “Renascimento: Novos Rumos”, encabeçada por José Luiz Ferreira de Almeida e seu irmão, José Paulo Ferreira de Almeida, candidato à vice-presidência. José Luiz, inclusive, é velho conhecido do clube. Em 2013, ano do rebaixamento Rubro-Verde à Série B do Campeonato Brasileiro, ele foi o vice-jurídico de Ilídio Lico, presidente-executivo na ocasião.

Sabendo da investida do candidato, o ex-presidente da Lusa, Jorge Manuel Marques Gonçalves, que renunciou o cargo no final do mês passado, espera que a nova administração possa encontrar soluções para corrigir as falhas administrativas que o clube vem apresentando desde que foi rebaixado.

- Eu acredito que tenha que mudar a mentalidade. A Portuguesa é um clube bastante tradicional e que precisa reconhecer que ela, com seu próprio esforço, está em uma situação muito difícil. Para isso, as pessoas deveriam se abrir para buscar apoio de fora do clube, com profissionais, pessoas competentes e da comunidade. Não acredito que internamente podemos resolver tudo – disse, em entrevista ao LANCE!

Ainda, para o ex-presidente, um dos motivos que dificulta o retorno da Portuguesa para as divisões de elite do futebol brasileiro é justamente o acumulo de déficits.

- A dívida alcançou um montante que é muito difícil de pagar sem ter novas receitas. Mas, para isso, temos que melhorar e muito o futebol e ter um esforço enorme de marketing. Fomos muito pouco eficientes nisso também. Eu renunciei com as mesmas dívidas de quando entrei – afirmou, traduzindo em números a situação financeira do clube:

- É basicamente em torno de 100 milhões de débitos tributários, uns 50 milhões de débitos trabalhistas e uns 20, algo em torno disso, de débitos de natureza civil – revelou.

Impeachment

A renúncia de Jorge Gonçalves aconteceu no dia 30 de março, apenas três dias depois do desligamento do técnico Ricardinho com o clube. A decisão de deixar a presidência foi decorrente de uma série de fatores, mas principalmente por conta da realização de uma reunião entre os conselheiros do clube, sem que ele fosse convocado

- No dia, eu não fui convocado para essa reunião. Eu não fui chamado para apresentar nenhuma defesa prévia, nada. Então, não faria sentido eu aparecer lá – afirmou, contando que não conseguiu ter apoio dos outros membros dos conselhos:

- Eu não consegui convencer muita gente de que nós deveríamos ter outro tipo de atitude. Aliado a isso, apontaram uma série de irregularidades que eu teria cometido e que eu não concordo que sejam irregularidades. Mas, já que o problema era a minha presença à frente do clube, achei melhor sair – disse Jorge Gonçalves, explicando também sobre as irregularidades mencionadas:

- Questionavam a contratação de um escritório de advocacia para tocar os assuntos jurídicos. Não tinha nenhum escritório especializado em direito esportivo, nem em direito cível. Na época em que eu cheguei, não tinha nem o vice-jurídico, ninguém queria se comprometer a desenvolver um trabalho sem o mínimo de apoio - contou, relembrando o rebaixamento do clube em 2013:

-  Temos um histórico de que boa parte das nossas ações trabalhistas teve erros ou falta de uma interpretação correta da legislação, nos levando a condenações altíssimas. Por isso, as contratações de escritórios especializados. Esperava que com o tempo, o clube conseguisse obter novas receitas e acertar tudo isso. O que eu não poderia fazer, era deixar como estava e correr o risco de passar novamente por isso (rebaixamento) - justificou.

Perguntado sobre os responsáveis por introduzir o processo de impeachment, Gonçalves preferiu não citar nomes, mas disse que as pessoas que o fizeram tiveram boa intenção, apesar de definir seus pensamentos como ‘ultrapassados’.

- Prefiro não entrar em nomes, acredito que fizeram isso com a maior boa vontade. O problema é que essa boa vontade, essa ambição, trouxe a Portuguesa até onde ela está. As pessoas não saem dessa visão, que eu acho que é ultrapassada. O clube deve ser profissional, não deve depender da gentileza de mecenas que vão depositar dinheiro, isso não existe. A estrutura do clube tem que ser profissional, os advogados têm que ser bem remunerados, os jogadores, todo mundo – declarou.

Em contrapartida, o presidente interino da Portuguesa, Leandro Teixeira Duarte, disse que a reunião só aconteceu porque o ex-presidente faltou com algumas obrigações estatutárias. Ainda, segundo o atual presidente do Conselho Deliberativo, a decisão foi tomada por conta da recomendação do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF).

- Sobre o processo de impeachment, na verdade, o ex-presidente (Jorge Manuel Marques Gonçalves) faltou com algumas obrigações estatutárias. Dentre elas, a aprovação de um orçamento e a apresentação de um balanço referente ao período que ele esteve à frente da administração do clube. Era, inclusive, impossível para nós aferirmos o quanto o clube arrecadava e gastava efetivamente, porque não tínhamos documentos para isso - afirmou Leandro Duarte.

Salários atrasados

Depois da confirmação do zagueiro Luan Peres e do assessor da Portuguesa, Felipe Higino, ao LANCE!, sobre o não pagamento de salários e direitos de imagens para os jogadores, o ex-presidente garantiu que desconhecia qualquer irregularidade que envolvesse a questão salarial e assegurou que saiu do clube com os salários em dia.

- Havia uma regra dentro da diretoria na qual só poderíamos contratar jogadores dentro da receita que estávamos gerindo. Acho estranho, porque todas as informações que eu recebia era de que os salários dos jogador, CLT, estavam em dia. O que pode ter é algum direito de imagem. A notícia de que eram três meses de atraso, eu desconheço. Posso dizer que até o dia 30 de março tudo estava sendo pago corretamente e que tinha arrecadação e patrocínio para tocar o time até o final do Campeonato Paulista - esclareceu.

Já o presidente interino, Leandro Duarte, disse que o clube irá pronunciar-se somente em esfera superior, no Tribunal de Justiça Desportivo.

- Como a Portuguesa, na sua história recente, sofreu o pior golpe da sua história com o rebaixamento e, neste momento, vem sofrendo com administrações, que eu costumo dizer, hemorrágicas, o clube preferiu se manifestar nesta questão salarial no órgão competente tão somente. Ou seja, dentro do Tribunal de Justiça Desportivo para que possamos ter esse processo conduzido sem nenhuma interferência externa. Entendemos que naquele ano (2013), a publicidade dada trouxe prejuízo ao clube. Por já termos passado por uma experiência similar, preferimos conduzir diferente desta vez - concluiu.