Prass
Fellipe Lucena
20/02/2016
08:00
São Paulo (SP)

A máquina de café que fica na sala de imprensa da Academia de Futebol deixou Fernando Prass na mão na última quinta. Cumprindo seu ritual quase diário, o goleiro pediu licença aos jornalistas – como se precisasse – para pegar um copo da bebida antes do treino, cena que por muitos anos foi protagonizada por Marcos. O defeito do equipamento não tirou o sorriso do rosto do atleta mais querido do elenco. A sequência de quatro jogos sem vitórias, embora o deixe preocupado, também não. Prass está em paz, muito em função de um certo jogo contra o Santos, rival que o Palmeiras vai reencontrar às 17h deste sábado, no Allianz Parque.

– O título da Copa do Brasil ainda está muito recente, muito fresco na memória da torcida. Com certeza aumentou um pouco o carinho que eles têm por mim, muito pela maneira como se desenhou a final. É bom porque tu se sente orgulhoso de participar de um título importante, mas sabemos também que trouxemos uma cobrança maior e a Libertadores agora é uma prova disso – disse.

Nesta entrevista ao LANCE!, além de relembrar do último encontro com o rival, o camisa 1 falou do momento do Verdão e dos boatos sobre problemas de relacionamento no grupo. Curiosamente, disse que os jogadores até se cobram por se gostarem demais e terem receio de se confrontarem de forma mais dura. Veja:

O que o dia 2 de dezembro de 2015 mudou na sua vida?
Ah, cara, na minha vida? Difícil falar o que mudou. Claro que um título importante como a Copa do Brasil, da maneira que foi, por toda a história do ano anterior, quando passamos uma situação de muita dificuldade, faz a torcida ficar orgulhosa, eufórica. Mas acho que não teve nenhuma mudança muito drástica. Com certeza aumentou o carinho comigo porque foi incomum, acho que a Copa do Brasil nunca tinha sido decidida nos pênaltis, e para a surpresa de todo mundo, até minha, eu fechei a série batendo o pênalti. Também defendi um.

O título da Copa do Brasil jogou uma pressão extra sobre vocês?
Como tem a Libertadores, é tudo imediato. Ela começa logo no início do ano e é uma competição muito particular. Essa fase não é eliminatória, mas é de tiro muito curto, com dois jogos tu pode encaminhar uma classificação ou o contrário. Então gera uma ansiedade muito grande na torcida, mas não só do Palmeiras. A gente acompanha de perto os clubes brasileiros, todas as torcidas estão ansiosas e apreensivas pelos resultados da primeira rodada.

Quantas vezes já viu a final?
Ah, nas férias eu assisti bastante, viu? (risos). Acho que até serviu para trazer um pouco para a realidade, porque foi uma sensação que eu nunca tinha vivido, bater pênalti, encerrar a série. E a atmosfera desde que nós chegamos ao Allianz Parque foi incrível, então revendo isso tu começa a lembrar não só da parte final do jogo, mas de tudo, da chegada ao estádio... E nas férias, como quase não tinha futebol para ver, deu para saturar bastante vendo aquele jogo.

O futebol praticado hoje pelo Palmeiras está muito longe do que o time fez aquele dia?
Daquele jogo, acho que sim. Foi um jogo quase perfeito. Não posso dizer perfeito porque a gente teve um ou outro vacilo, mas o Santos quase não ameaçou. Teve aquela bola na trave no começo do jogo e depois o lance da bola parada, que foi o gol que levou para os pênaltis. Sem dúvida, foi uma partida de um nível muito alto. Se a gente conseguir chegar pelo menos próximo àquilo, certeza que a gente vai estar muito forte.

Acha que o reencontro com o Santos pode ter resquícios das confusões do ano passado?
Não sei, cara. Acho que isso fica muito mais para a torcida, porque se a gente fosse levar para dentro de campo todo o atrito, toda discussão, toda coisa mais ríspida que acontece no ano, teria muita coisa, não só contra uma determinada equipe, mas contra vários adversários. Tem jogos que são mais tensos naturalmente, por serem decisões ou por terem um caráter regional. A torcida, óbvio, vai lembrar. Vocês (imprensa) também vão lembrar. Mas dentro de campo, pelo menos eu acho, não vai ter nenhuma situação mais complicada por causa daqueles jogos.

Vai cumprimentar o Ricardo?
já tivemos um reencontro um pouquinho antes da reapresentação (em um banco). Vai ser normal. Não tenho vínculo com ele, não tenho amizade, mas respeito como profissional. Nunca precisei chegar ao ponto de não cumprimentar um atleta. Não tem problema nenhum.

Por causa daquela final, a torcida gritou seu nome quando o árbitro marcou pênalti contra o Linense. Pensou em bater?
Não, não... Até pensei que se jogassem a bola para mim eu ia ter que jogar para alguém (risos). Não é minha função. Sempre falei que tem jogadores que batem melhor do que eu. Mas é óbvio que se dentro de um jogo, de uma decisão, esses que batem melhor por alguma questão não puderem bater e o treinador pedir para eu bater, acho que é obrigação do jogador se apresentar para bater, desde que treine e tenha confiança.

Você disse após o jogo contra o River que um “zum zum zum” sobre problemas de relacionamento incomodou o grupo. Afetou a concentração?
Não atrapalhou, só que é ruim, cara. O próprio torcedor acaba acreditando nessas besteiras e vem nos questionar. No aeroporto questionaram, aqui em São Paulo as pessoas questionam. Chega um maluco, inventa uma história mirabolante, e como tem um alcance muito grande por estar na mídia, as pessoas veem como informação. Informação, às vezes, não verdadeira. As pessoas não têm a chance de verificar isso e acabam sendo induzidas a pensar essas coisas. E aí pode gerar uma série de problemas em relação à torcida, mas a reação que a gente teve foi de espanto, surpresa, de ver a que ponto chega um profissional que deveria ter responsabilidade no que fala, no que escreve, e não tem compromisso com a verdade, com a coisa certa. Isso não é só no futebol. Em qualquer área da sociedade sempre tem os bons e os maus profissionais e a gente tem que estar acostumado com isso, mas não abaixar a cabeça. Não só o jogador de futebol, a sociedade não pode tratar com normalidade, não tem que aceitar, mas tem que entender que infelizmente ainda acontece isso.

No Brasil, quando um time está em má fase, é comum que as pessoas suspeitem de problemas internos. Acha que essa cultura é muito superficial?
Às vezes as pessoas que analisam, não sei se por falta de conhecimento, por preguiça de analisar o jogo... Vejo muitas pessoas comentando e no meio do comentário elas se traem. São pessoas que não assistiram ao jogo todo, assistiram aos melhores momentos. Como é que tu vai comentar o jogo por um compacto? Às vezes as pessoas têm dificuldade para analisar o que está acontecendo na partida, as dificuldades que o time está passando. E óbvio, o caminho mais curto é apontar uma falha individual, uma falha do goleiro, do zagueiro, do atacante, ou falar que o grupo está rachado, não está unido, em vez de procurar analisar com profundidade o futebol mesmo, o posicionamento tático, as variações táticas.

Já esteve em um grupo rachado?
(Pensativo) Não, cara. É como eu falo, é normal uns se gostarem mais do que os outros, mas nunca tive problema de vestiário, de jogador estar brigado com um ou outro, não se falar e interferir no rendimento em campo. Mas claro que já peguei times que se dão melhor e outros que não se dão tão bem, mas que chegasse a influenciar em campo, não.

"A gente se dá muito bem. É até uma das cobranças nossas. Às vezes a gente tem um pé atrás, um receio de ser um pouco mais duro com o companheiro"

E como é esse grupo aqui?
Nesse grupo a gente se dá muito bem. E é até uma das cobranças nossas isso. Às vezes a gente tem um pé atrás, um receio de ser um pouco mais duro com o companheiro. Acho que às vezes tem de deixar, entre aspas, a amizade de lado e precisa fazer uma cobrança mais forte. Mas isso aí é questão de amadurecimento também, não é de um ano para o outro que a gente vai formar um grupo com 30 jogadores novos e tudo vai estar perfeito tanto dentro quanto fora de campo. A gente vai se conhecendo. Hoje, eu já sei muito melhor a maneira de cobrar cada jogador e a maneira com que cada um responde a essa cobrança.

Então, enquanto se fala de grupo rachado, o problema pode ser justamente o oposto?
O problema, na minha visão, não é relacionamento. Isso está fora de questão. O problema mesmo é a parte técnica dentro de campo. A gente tem que render mais, desde mim até o atacante, o Barrios, o Alecsandro. Tem de jogar mais, e isso passa por todo o time. A gente não pode se esconder, porque se a gente acreditar que o problema é o relacionamento, é grupo rachado, a gente não vai descobrir o verdadeiro problema, vamos continuar andando sem sair do lugar.

Contra o River, você percebeu uma evolução no desempenho?
A análise do futebol não pode ser muito simplista. A gente tem que analisar várias coisas: a característica do time que a gente enfrentou, a característica do campo, que de fora parecia bom, mas era muito ruim de se jogar, porque a grama era muito alta e prendia demais, tinha o vento, então dificultou muito a nossa adaptação. O River acho que é o pior time da América do Sul, pelo que estão falando (irônico). Se a La U tivesse passado, seria uma das maiores forças do nosso grupo. O River passou, e passou com categoria pela La U. Fez dois gols, não sofreu nenhum, então acho que a gente tem que ter um pouco mais de critério, porque muitas vezes as pessoas analisam pela estrutura do clube, pela camisa, pela tradição, pelo orçamento, e deixam de lado o mais importante, que é dentro de campo. O River mostrou que não é um time tão frágil como todos falam, porque se não teria tomado um passeio da La U, como muita gente já especulava. Acho que dentro das características desse jogo, foi um jogo bom, mas ainda não é o que a gente quer.

O fato de os outros brasileiros terem sofrido na estreia de alguma forma tranquiliza?
A gente não está preocupado que os outros sejam piores. A gente quer ser melhor que os outros. Por eles terem ido pior, para a gente não muda nada. Mas é claro que serve para avaliação, né? O São Paulo perdeu em casa para o The Strongest, o Grêmio perdeu para o Toluca... O Atlético-MG acho que foi o único que apresentou um futebol consistente, o próprio Corinthians ganhou aos 50 minutos do segundo tempo com um gol contra. Isso mostra que de repente não é só o Palmeiras que está encontrando dificuldades. Acho que o time de maior expressão era o Toluca. Os outros eram times até similares, com países com tradição no futebol até menor que no Uruguai. Mas a gente tem que se preocupar com a gente, eles não são da nossa chave.

Quatro jogos sem vencer te preocupam? É suficiente para abalar a confiança?
Não, abalar a confiança, não. Mas preocupa, óbvio, porque se a gente achar normal e aceitar atuações desse nível a gente não pode estar aqui no Palmeiras. Tem que melhorar, tem que melhorar bastante. A gente se cobra muito porque a gente tem como melhorar. Se não tivesse de onde tirar, se não tivesse condição técnica e tática para desenvolver mais, a gente aceitaria e iria tentar outras maneiras para vencer, mas a gente sabe que nosso time tem muito mais para dar.