Fellipe Lucena e Thiago Ferri
12/02/2017
08:00
São Paulo (SP)

"Era difícil contratar, era difícil convencer o jogador. Quando o cara olhava o clube com dificuldade financeira, na Segunda Divisão, já pensava: 'Hum, não sei se eu vou'. Era um momento de muita dificuldade". A lembrança é de Fernando Prass e, acredite, ele está falando sobre o Palmeiras, clube que hoje é o mais rico do Brasil e contrata atletas como Felipe Melo, Alejandro Guerra e Miguel Borja.

Em quatro anos, muita coisa mudou para o Palmeiras e Fernando Prass. Hoje ídolo e dono de dois títulos nacionais pelo clube, o jogador foi recebido com certa desconfiança em dezembro de 2012, quando o presidente ainda era Arnaldo Tirone. Diziam que seu salário seria muito alto e que não valia a pena romper a tradição de formar goleiros em casa. Nem é preciso dizer que os críticos quebraram a cara.

Ao mesmo tempo em que se firmava cada vez mais como um dos grandes nomes de sua posição na história do Palmeiras, Prass via o clube se agigantar novamente. No elenco atual, só ele roeu o osso na Série B e depois saboreou os títulos da Copa do Brasil e do Brasileiro. Essa história já tem um pouco mais de quatro anos e neste domingo terá seu 200º capítulo escrito na partida contra o Ituano, às 19h30, no Novelli Júnior.

- Quando cheguei a situação era totalmente oposta tanto dentro quanto fora de campo. Não tinha estádio, tinha 9 mil sócios, salário atrasado, dificuldade financeira, o grupo muito reduzido, na Série B. Hoje temos 130 mil sócios, um dos estádios que mais faturam e que é um dos melhores da América Latina, o clube está em uma situação financeira bem melhor, e dentro de campo a situação é inversa. A gente estava lutando para voltar para a Primeira Divisão e hoje somos campeões. Eu que vivenciei aquela fase e estou vivenciando essa consigo ter uma noção bem exata do que o Palmeiras andou - disse o camisa 1, nesta entrevista ao LANCE!.

Se depender de Prass, que em julho completa 39 anos, esse casamento terá pelo menos mais quatro temporadas: 

- Esse ano e mais três eu jogo tranquilamente. Depois, vou fazer que nem o Zé, ver como estou. Seria até irresponsabilidade minha dizer que jogo até os 44, porque não sei como vou estar fisicamente. Posso falar a curto prazo. Hoje, no ano que vem, no outro, estou tranquilo, não vai ser em dois anos que minha condição física vai cair. Pelo contrário, tenho feito um trabalho com o pessoal da fisiologia, da nutrição, justamente para que essa condição não caia. E vem dando certo, porque normalmente depois dos 32, 33 anos tu começa a perder massa muscular, e eu tenho feito o caminho inverso. Para ter uma noção, quando eu era mais novo eu tinha 12,5% de gordura e 91kg. Hoje estou com 94kg e 10% de gordura. Fisicamente não vejo problema nenhum para esses três, quatro anos. Depois vou sentir ano a ano.

Veja abaixo a entrevista completa do goleiro do Verdão:

Você sempre disse que precisava de um número maior de jogos para ser considerado ídolo. Chegar a 200 jogos já te dá essa condição?
Eu sempre falei de número de jogos e títulos. Quando fiz cem jogos eu falei que era pouco, porque hoje em dia o cara fica dois anos em um clube e faz cem jogos facilmente. Agora já começo a entrar em um número mais restrito. Conseguir fazer mais de 200 jogos em um clube grande como o Palmeiras não é tão fácil assim, não são muitos que têm isso. Em um clube grande, com uma competitividade enorme, tu conseguir ficar e fazer tantos jogos é sinal que o trabalho está sendo bem feito.

Você já vislumbra o número que pode atingir? 300? 350?
Eu penso sempre no que tenho de concreto. Tenho contrato até o fim do ano e até o fim do ano dá para fazer 60, 70 e poucos jogos. Meu objetivo é jogar o maior número de jogos possível em alto nível. É ultrapassar neste ano, no mínimo, a barreira dos 250.

Você fez um trabalho físico nas férias. Abriu mão do descanso para voltar bem?

Eu pude fazer tudo. Esse trabalho ou eu fazia pela manhã ou no fim da tarde, a maioria das vezes no fim da tarde, porque aproveitava para dormir até mais tarde. O Oscar (Rodríguez) e o Danilo (Minutti, preparadores de goleiros) me passaram um planejamento semanal. De semana em semana eles me mandavam no WhatsApp o trabalho da semana seguinte e deu para fazer praticamente 20 dias de um trabalho bem legal, para voltar em uma condição física boa.

"Para vocês parece que essa disputa só aconteceu agora, mas vou ser sincero: desde 2013, nunca comecei uma temporada ou entrei em uma semana sabendo que seria titular", diz Prass

Você já disse que tem como meta fazer o melhor ano da carreira. O que é preciso para isso se concretizar?
Jogar em alto nível de novo, voltar ao nível em que estava, e conquistar títulos de novo. Em 2015 a gente conquistou, 2016 também. Para ser o melhor ano da carreira tem o desempenho individual, óbvio, mas acima de tudo coletivo.

Com duas cirurgias no cotovelo direito, como fazer para não ter receio de fazer os movimentos e voltar bem?
Isso foi feito gradativamente. Sempre falei com o Oscar e com o Danilo que não queria pular etapas, justamente por isso. Se tu pula alguma etapa e não dá naturalidade à recuperação, tu fica com receio. Se tu faz a bola rasteira, depois a bola à meia altura, depois a mão trocada, teu cérebro vai recebendo a mensagem de que tu está bem. Se tu passa da bola rasteira direto para a bola de mão trocada no alto teu corpo não vai receber a mensagem de que tu está bom e pode fazer sem medo. Então tu vai fazer o movimento errado, de repente vai fazer uma compensação no movimento e causar outro tipo de lesão. Acho que consegui porque fui sempre gradativamente, sem pular etapa nenhuma, não tive nenhum susto por isso.

Olhando seu cotovelo direito, percebemos que ele é diferente do esquerdo.
É bem diferente. Até comentei com os médicos que tenho uma parte bem inchada. É onde está a dobra do fio (uma espécie de arame utilizado para fixar a fratura). Eu sentia dor ali porque a ponta desse fio beliscava a pele. Agora criou uma cápsula em volta, o corpo está protegendo, e fica inchado, mas me sumiu a dor. Com esse inchaço, ele acabou protegendo essa parte e me tirou a dor.

Em 2014 você pulou muitas etapas para voltar antes e ajudar o time a não cair?

O que eu fiz em 2014... Claro, consegui voltar, jogar, mas eu pulei muitas etapas. Voltei a treinar com bola em uma quinta, no sábado joguei um coletivo e na quarta estava jogando. Com muita dor e à base de remédios. Saía do treino com uma dor insuportável, ia lá na fisioterapia, botava o gelo e dava uma aliviada. Aí tomava analgésico, anti-inflamatório. Foi assim até o fim do ano, com o repouso consegui voltar sem dor, mas até ali foi muito complicado.

Um pouco antes de sofrer a lesão na Seleção olímpica, você comemorava o fato de não precisar mais usar a cotoveleira no dia a dia. Agora não vai tirar mais?

Na época eu fui tirando porque estava sem dor. Comecei a tirar nos jogos, depois comecei a tirar de alguns treinos e fui fazendo o "desmame", como a gente fala. Agora, mesmo sem dor, eu vou usar. Até porque é um equipamento que não incomoda nada, é bem discreto. Vou usar para prevenir.

O melhor ano da sua carreira até agora foi 2015?

É, posso falar 2015 e 2016. Apesar da lesão, tanto 15 quanto 16 foram muito bons. Em 2015 teve o título da Copa do Brasil, que para mim foi memorável, em 2016 até eu me machucar eu estava, na minha opinião, em um nível muito bom, fazendo boas partidas, muito confiante.

Substituir o Jailson e entrar nos minutos finais do jogo do título brasileiro representou o que para você?

Bate uma emoção grande. Nos dois primeiros dias depois da lesão ficou muito complicado raciocinar, entender as coisas. Depois, quando comecei a colocar a cabeça no lugar, o meu objetivo era voltar até o fim do ano para estar no jogo do título, estar na foto histórica que sai no jornal no dia seguinte. Eu trabalhei e deu tudo certinho para ficar à disposição.

Com esse trabalho forte que você fez, dá para dizer que fisicamente você pode estar até melhor do que em 2015?

Acho que estou no mesmo nível, porque no meio de 2014 eu pude fazer um trabalho físico por causa da lesão no braço. Agora calhou de pegar o fim da temporada e o começo da outra, então fiz um trabalho muito mais contínuo. Comecei em agosto, em setembro e outubro fiz praticamente só físico, novembro comecei a trabalhar com bola e dezembro foi parte física. Deu para cumprir os objetivos e chegar na pré-temporada com o grupo.

Ninguém aqui esconde que o grande objetivo da temporada é a Libertadores. Você já jogou duas pelo Palmeiras. Essa é a que o time vai chegar mais pronto?
A primeira, em 2013, foi muito complicado de jogar. A eleição era no fim de janeiro, o presidente assumia só em fevereiro, e o planejamento foi feito a partir dali. Jogamos com um grupo muito enxuto. O Souza, que é volante, chegou a jogar de centroavante. A gente jogava com muitas improvisações por causa dessa transição de presidência e a queda para a Segunda Divisão. A do ano passado já tinha uma expectativa muito grande, mas é o que muitas pessoas falam: Libertadores, para ganhar, tem de aprender a jogar. E tu só aprende jogando todo ano. Daquele grupo do ano passado, 80% estavam jogando pela primeira vez, nunca tinham enfrentado time uruguaio, nunca tinham jogado na Argentina. Nesse ano a situação é diferente, os jogadores que vieram têm experiência e os que já estavam aqui têm a vivência do ano passado. Não que seja um esporte diferente, mas é uma maneira diferente de se jogar, é um campeonato curto, é importantíssimo tu ter um desempenho perfeito em casa. E tu entender também como se joga lá fora, como é a arbitragem. Muitas vezes o brasileiro tem dificuldade na relação com a arbitragem, porque o que é falta aqui muitas vezes não é falta na Libertadores. O jogador que não está acostumado acaba se desequilibrando, achando que tem de ir para a porrada, mas na verdade o que tem de fazer é jogar futebol. Neste ano vamos estar mais preparados.

A chegada do Mina, que é colombiano, do Guerra, que é venezuelano, e do Borja, que é colombiano, contribui muito?

Eles, até por terem o espanhol como língua, podem nos ajudar. Para os times brasileiros, a comunicação com os árbitros é difícil. Parece que por não entenderem o idioma, os árbitros ficam sempre muito arredios com os brasileiros. Ajuda ter jogadores que falam o idioma, dá para ter uma comunicação melhor. E saber jogar a Libertadores também, eles estão acostumados. Além também de trazer conhecimento de outras equipes. Temos venezuelano, colombiano, paraguaio, é melhor para colher informações das outras equipes também, ajuda muito. Tem muitos times que têm um jeito particular de jogar. A gente jogou contra o Rosario e viu que eles tinham um jeito muito particular, tanto é que o Grêmio foi jogar contra o Rosario e veio pedir informação para a gente. Faz diferença.

Tem muito torcedor empolgado com os reforços e a manutenção do elenco, mas com um pé atrás com a saída do Cuca e a chegada do Eduardo Baptista. Dá para tranquilizá-los?

Muitas vezes o torcedor reclama que o clube só investe em medalhões e não dá chance para novas ideias. Nunca vai ter unanimidade, mas o que importa é o trabalho de campo. Até porque se fosse por nome, de repente Moisés, Tchê Tchê, Róger Guedes e Vitor Hugo não teriam sido destaques como foram. O nome você ganha com o tempo. O Cuca em começo de carreira não tinha o nome que tem hoje.

O que já mudou do Cuca para o Eduardo?

Tem algumas ideias diferentes em relação à parte tática, formação de equipe. O que mais usamos como exemplo é a questão da marcação. O Cuca, todo mundo sabe, tinha marcação individual. O Eduardo tem marcação por zona. São duas filosofias diferentes e a gente tem que tentar acelerar o processo. Trabalhamos com o Cuca por quase um ano com marcação individual, então é natural que o time tenha encorporado isso. Agora é assimilar e entender o mais rápido por isso essa marcação por zona.

O campeonato que o Jailson fez te surpreendeu?

No futebol é difícil prever as coisas. Quando o Vagner começou a jogar ninguém achou que teria problema, todo mundo confiou muito, pelos treinamentos, mas o goleiro é muito refém da equipe. O Vagner pegou uma fase em que a gente perdeu dois jogos e empatou um, foi um momento de oscilação. O Jailson pegou um momento em que o Cuca conseguiu dar uma mexida, para dar essa arrancada final. O goleiro depende muito da equipe. Claro que não só isso, tem a qualidade dele, mas já vi muito goleiro bom entrar, o time estar desacertado e estourar no goleiro, porque normalmente estoura no goleiro e no treinador. Mas acho que não só o Jailson. O Palmeiras conseguiu corrigir um erro que tinha lá atrás, que era não ter um grupo forte. Às vezes acontece a fatalidade de perder um ou outro jogador e, se não tiver um grupo, tu acaba perdendo um campeonato.

Como você enxergou a disputa por posição com ele neste começo de temporada? Você saiu do time por lesão, não por questão técnica, e teve de provar que merecia ser titular de novo.

Para vocês parece que essa disputa só aconteceu agora, mas vou ser sincero: desde 2013, nunca comecei uma temporada ou entrei em uma semana sabendo que seria titular. Sempre batalhei e conquistei a titularidade. Essa disputa sempre houve, só que agora se tornou mais midiática, os holofotes se viraram para nossa posição. Jogador em time grande não é titular, ele está titular. É uma condição temporária e cabe a ti prolongar essa condição.

O Palmeiras está renovando os contratos dos campeões. Você tem vínculo até dezembro. Já conversou?

Estou esperando aí (risos). Mas ainda não teve conversa comigo, não.