Fellipe Lucena
23/10/2016
07:30
São Paulo (SP)

Alecsandro acaba de se livrar de uma acusação de doping que comprovou-se injusta, mas que o obrigou a ficar praticamente três meses sem jogar e o deixou para trás na luta por uma vaga no time titular do Palmeiras. Às 17h deste domingo, contra o Sport, no Allianz Parque, o escolhido para substituir o suspenso Gabriel Jesus deve ser Barrios. Mas bastam poucos minutos de bate-papo para perceber que é difícil abalar a confiança do Alecgol, que está prestes a atingir uma marca importante.

O camisa 29 do Verdão acumula 99 gols em Campeonatos Brasileiros por pontos corridos e tem certeza que marcará o centésimo ainda em 2016. Nesta entrevista ao LANCE!, ele detalhou os planos que faz para festejar o feito, colocou-se em um hall de quatro atletas que são "realmente goleadores" no futebol brasileiro e disse ter certeza de que estará “muito bem empregado” na próxima temporada, mesmo que não renove seu vínculo atual.

Fred, com 125 gols, e Paulo Baier, com 106, estão à frente de Alecsandro nos pontos corridos. Borges está empatado com ele, também com 99 gols

- Tenho contrato até o fim do ano no Palmeiras e espero renovar. A minha vontade de ficar é muito grande, mas ela tem que ser muito maior na diretoria, no treinador. Se eles me colocarem dentro do planejamento deles, com certeza vou ficar muito feliz. Mas se não me colocar também, com certeza ano que vem vou estar empregado, e muito bem empregado. Não podia falar, mas agora já estou falando, já recebi proposta de outros clubes do Brasil. Isso me deixa tranquilo, mas a minha vontade é permanecer - declarou o goleador.

Confira a entrevista na íntegra:

LANCE!: A proximidade do centésimo gol nos pontos corridos te deixa ansioso? É uma marca que você considera expressiva?
Alecsandro:
Primeiro, fico muito feliz de poder alcançar essa marca. Tenho certeza que farei o centésimo gol, não tenho dúvida disso. Prometi ao meu filho mais velho (Yan, de 11 anos) que faria. Passarei a ser o terceiro da lista, perdendo só para o Fred e para o Paulo Baier. Todos os gols são importantes, mas que esse seja um gol que não marque só para mim, mas também para quem esteja presente no dia. O Paulo Nobre já me prometeu uma placa, então fico muito feliz de saber que vou ser homenageado pelo Palmeiras.

Você já disse que, depois do centésimo gol, vai usar “Alegol” na camisa. Será permanente?
Seria merecido, né? Não sei se a palavra certa é coragem, mas não sei se eu levaria o Alecgol nas costas por todos os jogos ou só na camisa do centésimo gol. Com certeza farei uma camisa dos cem gols. De antemão, já digo que vou fazer um leilão dessa camisa para ajudar alguma instituição carente. Lógico que levar o nome Alecgol nas costas é um peso muito grande, eu tenho essa personalidade de colocar, mas confesso que não sei se colocaria em todos os jogos. Com certeza em um ou dois jogos eu vou usar.

E o número? Mudará para 100?
A intenção era jogar com a 99 primeiro, mas tenho medo de jogar com a 99 e já no mesmo jogo fazer o centésimo. Eu teria que ter a camisa 100 por baixo, senão ficaria sem sentido. E também precisa pedir aprovação da CBF uma semana antes, e eu não quero ficar, entre aspas, brincando com a numeração. Mas de repente posso usar a camisa número 100 em um jogo, acho válido. Se eu não jogar aqui, jogo na minha pelada de fim de ano. Sem problema (risos).

Por que você decidiu fazer essa promessa para o seu filho?
Ele viu uma matéria falando dos artilheiros dos pontos corridos. Meu filho ama o futebol, viu a matéria e pegou gosto pela coisa. Falou que queria que eu fosse o primeiro da lista. Na época, o Fred e o Paulo Baier já estavam alguns gols na frente, e eu até brinquei com ele: “Pô, vai ser difícil o pai pegar esses caras aí, mas eu vou tentar”. Aí ele falou: “Então eu quero que pelo menos você faça cem”. Acabei prometendo o centésimo.

E pode ser um gol ainda mais especial por ser na reta final do Brasileiro, um título que você não tem na carreira ainda.
No Brasil, não se valoriza muito o vice-campeão. É do sangue do brasileiro, eu mesmo sou assim. Não gosto de chegar em segundo, mas fui duas vezes vice-campeão brasileiro, uma vez pelo Inter e uma vez pelo Vasco. Fico muito feliz, porque é uma competição muito difícil. Quando cheguei aqui, até brinquei com o Cícero Souza, nosso gerente, que ele tirou meu título em 2009 (o dirigente estava no Grêmio). O Flamengo foi campeão naquele jogo que o Grêmio entregou para o Inter não ser campeão. Falei brincando que ele me tirou um título e que agora vamos conquistar juntos aqui. Graças a Deus, está tudo caminhando para que esse título venha. E é lógico, uma marca de cem gols, em qualquer campeonato que seja, é realmente muito expressiva. Ainda mais no Campeonato Brasileiro, que é o mais difícil do mundo ou um dos mais difíceis. Não sou eu que estou falando, vocês mesmo falam. Fazer cem gols no campeonato mais difícil do mundo, para mim, será muito gratificante.

"Me coloco no patamar hoje, dentro do Brasil, de dois ou três jogadores só. São aqueles que não passam quatro jogos sem fazer gol. Esses são os jogadores que eu considero realmente goleadores", disse

Como está a sua situação contratual? Deve mesmo ficar aqui no ano que vem?
Então, cara, eu sou muito sincero e muito verdadeiro. Confesso que o Brasil hoje vive uma carência muito grande, não falo nem de centroavante, mas de jogador que faz gol. Quando eu comecei o Brasileiro, até prometi para o meu filho também que seria artilheiro do campeonato. Essa vou ficar devendo para ele, mas se estivesse jogando todos os jogos não passaria batido. E ainda dei uma meta de gols para ele, falei que faria de 20 a 22 gols e seria o artilheiro. Até errei por muito, porque de repente o artilheiro esse ano vai ter a marca mais baixa de todos os tempos. Posso cravar que não passa de 19 gols, vai ser entre 16, talvez 17, mas não passa de 19. Por ter ficado vários jogos fora, por tudo que aconteceu, acabei não atingindo essa meta. Mas como eu falei, o Brasil está muito carente de jogador que faz gol, e eu me considero um jogador que faz gol. Me coloco no patamar hoje, dentro do Brasil, de dois ou três jogadores só. A gente pode falar no Gabriel Jesus, porque é o 9 da nossa Seleção Brasileira. Posso colocar o Fred, que é um cara que todo ano faz seus gols, com uma eficiência muito grande, e o Ricardo Oliveira. Me coloco dentro desses quatro jogadores, que são aqueles que não passam quatro jogos sem fazer gol. Esses são os jogadores que eu considero realmente goleadores. Então, me colocando dentro disso, acho que o mercado para mim abre muito para o ano que vem. Tenho contrato até o fim do ano no Palmeiras e espero renovar. A minha vontade de ficar é muito grande, mas ela tem que ser muito maior na diretoria, no treinador. Se eles me colocarem dentro do planejamento deles, com certeza vou ficar muito feliz. Mas se não me colocar também, com certeza ano que vem vou estar empregado, e muito bem empregado. Não podia falar, mas agora já estou falando, já recebi proposta de outros clubes do Brasil. Isso me deixa tranquilo, mas a minha vontade é permanecer. Ainda vislumbro um 2017 tão bom ou até um pouco melhor que 2016.

Você citou jogadores que construíram ou estão construindo suas histórias na Seleção. O que faltou para você?
Na minha época de 19, 20 anos, quando comecei a aparecer no futebol, havia grandes jogadores. Hoje a gente vê uma lacuna muito aberta na Seleção Brasileira. Essas mais recentes até que não, mas se a gente pegar as últimas 15 convocações da Seleção, em todas são trocados entre cinco e seis jogadores. Quando eu surgi para o futebol, se você pegasse qualquer pessoa, o cara conseguiria saber 18 ou 20 jogadores que seriam convocados. Na minha época era Ronaldo Fenômeno, Robinho, Adriano Imperador, Luis Fabiano, Grafite, o Fred um pouco atrás ainda, mas já tentando chegar, o Marcelinho Paraíba fazendo sucesso... Acho que é um pouquinho disso, de na minha época já ter alguns jogadores acima da minha média jogando muito bem. E também, quando eu estava bem, acabei indo para um centro ruim, os Emirados Árabes. E fui também para o Sporting, que apesar de ser na Europa, é uma praça não tão atraente. As duas vezes que saí do Brasil, acabei indo para praças que de repente não favoreciam uma convocação. Mas não me sinto frustrado, não, cara. Sei que joguei em alto nível, em alguns anos a nível de Seleção Brasileira, e tenho certeza que ainda farei muitos gols.

"Graças a Deus, nenhum torcedor vai me encontrar no aeroporto e me chacoalhar: 'Pô, você ferrou o meu time!'. Todo torcedor que me encontra agradece pelo título que eu dei para o time dele"

Você trocou muito de clube. Acha que isso foi bom ou ruim?
Acho que faltou permanecer um pouco mais em algum clube. Ficar cinco, seis anos no mesmo clube, ficar um pouco mais marcado. Mas o futebol brasileiro é muito dinâmico. O que você fez há três meses, e pode ser até menos tempo, às vezes é esquecido pelo torcedor, pela imprensa. Essa diretoria do Internacional é bicampeã da América e campeã do mundo, e o torcedor do Inter está querendo matar. A gente pode dar o exemplo do nosso rival, que é o Corinthians. Os caras foram campeões mundiais e meses depois a torcida invadiu lá e pegou o Guerrero pelo pescoço, o cara que fez o gol do maior título que o clube teve. No futebol, não levam em consideração o que você fez. Levam em consideração o que você está fazendo. Isso é muito injusto. Por viver isso, eu me preocupei muito em ficar muito tempo no clube e às vezes ser esquecido pelo que fiz. Graças a Deus, nenhum torcedor vai me encontrar no aeroporto e me chacoalhar: “Pô, você ferrou o meu time!”. Todo torcedor que me encontra agradece pelo título que eu dei para o time dele.

Qual o segredo para jogar em tantos grandes clubes, alguns grandes rivais, e ser respeitado?
Lembro que brinquei quando cheguei no Atlético-MG: “Agora me sinto um jogador de futebol de verdade”. Jogar no Cruzeiro e depois ir para o Atlético-MG é para poucos. Também fui para o Flamengo depois de ter jogado no Vasco. Para mim foi dupla honra, falei: “Agora me sinto jogador ao quadrado”. Para o atleta, ter esse reconhecimento, essa aceitação do torcedor, é uma honra. O torcedor do Atlético-MG me falava: “Eu quero que você jogue o que você jogou no Cruzeiro”. O torcedor do Flamengo falava: “Olha, lá no Vasco você foi campeão da Copa do Brasil, foi artilheiro, fez gol para caramba, é isso que a gente quer”. Lembro até que nosso assessor de imprensa brincou: “O Alecsandro é recordista de tirar foto no aeroporto, porque tira com torcedor do Atlético, do Cruzeiro, do Vasco, do Flamengo, do Inter, do Palmeiras, e vai embora...”. Isso me deixa muito feliz. Se eu pudesse, pararia no Palmeiras. Gosto daqui e espero conquistar mais títulos.

Pensa em jogar até quando?
Não adianta você pensar com o coração e não com a razão. Hoje eu me sinto em condições normais para continuar projetando metas para mim. Quando o Alexandre (Mattos) me ligou, eu falei: “Eu te entrego 20 gols na temporada. Se nada acontecer, se eu jogar a maioria dos jogos no ano, vou te entregar mais de 20 gols”. E se você pegar, nos últimos dez anos, foram poucos jogadores que fizeram 20 gols por temporada. No Brasil, acho que não passa de 15. Esse ano tive uma baixa, estou com 11 gols por enquanto, devo fazer mais uns dois, três, quatro gols. Mas com certeza passaria de 20 gols nesse ano. Eu tenho esse tesão e tenho condição, que é melhor do que o tesão. Tenho condição de fazer 2017 e acho que 2018 também. No próximo ano, o Alecsandro vai continuar sendo o Alecgol, independentemente de qual for a equipe que eu defender.