Ana Canhedo
02/06/2016
09:00
São Paulo (SP)

Aos 50 anos, Muller lembra com clareza da edição de 1996 do Campeonato Paulista. O ex-atacante era parte crucial na engrenagem ofensiva palmeirense e levava consigo o apelido de garçom, justamente por deixar frequentemente seus companheiros de cara para o gol. Ainda assim, foi um dos artilheiros da campanha, com 15 gols. Das memórias daquele ano, porém, algumas ainda incomodam. Negociado com o São Paulo antes da decisão da Copa do Brasil, não disputou a final do torneio nacional e assume a culpa pelo revés do Verdão diante do Cruzeiro na última partida, que culminou com o vice-campeonato - o Palmeiras perdeu o jogo decisivo, no Palestra Itália, por 2 a 1. 

- Não ganhou muito por conta de eu não ter jogado. Se você pegar os jogos, em todos sempre teve minha participação, não só em gols, mas em passes para gols. Diziam que eu era o garçom do time, termômetro da equipe. Deixava o Luizão na cara do gol, Rivaldo também, eu tinha isso comigo. Lógico que o pessoal da Parmalat (parceira na época) não se deu conta disso, achavam que não precisavam de mim porque já era um timaço. Mas o grupo não pensava assim, nem o Vanderlei (Luxemburgo) - conta ao LANCE!, e ainda aponta qual teria sido a opção para que as partes ficassem satisfeitas:

- Eu queria ter jogado com seguro, joguei todos os jogos. Mas eles não aceitaram. Eu fiquei triste, não aceitaram. Como vou trocar o certo pelo duvidoso? Não queria ter saído nunca do Palmeiras, eu tentei de todas as maneiras a renovação, o time era uma seleção. Como eu ia sair de uma equipe entrosada assim para um time desfigurado que era o São Paulo? Falei para me fazerem um seguro só para essa partida, final é final, é a coroação do trabalho. Queria a todo custo jogar. Depois do jogo era outra coisa, poderiam fazer 50 reuniões... Fiquei triste porque era um título que faltava para mim, mas, infelizmente...

CONFIRA UM BATE-BOLA COM MULLER: 

LANCE!: Já sabia que aquele time viraria um timaço? 
Já em 1995 eu percebia que aquele time seria um timaço, porque a base foi mantida, então em 96 chegaram apenas algumas peças pontuais para completar a equipe. Chegaram Luizão, Djalminha e Júnior, por exemplo, e como já tínhamos a base sólida, o Vanderlei Luxemburgo precisou apenas encaixá-los. Na pré-temporada, a gente já dizia que o Palmeiras ia passear naquele Paulistão, nos amistosos a gente via que ia arrebentar, estávamos bem demais. Sem dúvida nenhuma foi o melhor time pelo qual eu joguei, era praticamente formado por caras da Seleção Brasileira.

E como era sua relação com o próprio Vanderlei?
Era de amizade, uma irmandade mesmo. Ele sabia o quanto e o que eu poderia dar para o time. O Vanderlei fala a língua do boleiro, isso ajuda bastante, essa harmonia era muito boa, ele sabia sempre lidar com o jogador.

Faltaram mais taças para aquele grupo especial?
​A gente tinha a consciência de que era apenas um negócio para a Parmalat, a gente sabia que aquele time não iria permanecer junto tanto tempo assim. Na concentração, já avisaram que iam desfazer aquele time, um ou dois anos mais juntos iríamos ganhar tudo que tivesse pela frente. O time era compacto, a gente estava ganhando por 3 a 0 no Palestra Itália e já tinha perdido uns seis gols, era sempre assim. No Paulistão, era goleada todo jogo, era muito grande a chance da gente vencer. Com o Allianz, só não garanto que íamos vencer fora de casa, mas o time tinha identidade, era entrosado. Tinha o Luizão lá na frente sozinho e eu rodando por todo lado. Ficou uma tristeza, né? Era uma família, vida de jogador é assim, fica mais fora do que dentro de casa. Eu fiquei muito triste nesse sentido, sabia que ia cada um seguir sua vida.

Nem todos os jogadores do banco de reservas foram usados, e tinham nomes bons no grupo, como Marcos, Roque Júnior... Como era isso? 
Hoje você vê muita gente falando que é preciso ter elenco bom, que falta elenco e não sei mais o quê. Eu discordo, acho um discurso bem fajuto. Aquele time do Palmeiras fez 102 gols e o Vanderlei usava uma vez ou outra o Alex Alves e o Paulo Isidoro no time titular, se entraram em dez partidas foi muito. Guardadas as devidas proporções de lesão ou suspensão. Não entendo isso que falam de elenco, banco é banco.

Mas os reservas não se incomodavam?
O Roque Júnior era banco nesse time, sabíamos da qualidade dele, ele não jogou no Paulistão e nem na Copa do Brasil, nem por isso estava insatisfeito. O grupo era muito unido, fechado. Os principais jogadores, eu, Cafu, Velloso, Clebão, trazíamos para dentro do grupo quem não jogava. O grupo não tinha aquela coisa egoísta, a gente sabia que tínhamos que estar fechados. Fizemos duas pré-temporadas, uma delas a inter né, em Serra Negra. Foi muito bom aquilo.

Ainda conserva os amigos daquela época?

Falo bastante com o Luizão, o Velloso, Cléber, Amaral, e Flávio, principalmente o Flávio, temos bom relacionamento.

Hoje vê esse título e esse feito valorizados ou acha que caiu no esquecimento? Foi dado o devido valor a vocês?

No geral, brasileiro tem memória curta, o torcedor ou o quer que seja, não dá o devido valor ao times do passado, Flamengo, Atlético-MG, Internacional, não tem o reconhecimento que deveria ter, entendeu? Até hoje, o Torino (ITA) me convida para participar do aniversário, não ganhei nenhum título, mas até hoje me reverenciam, hoje no país temos grandes ídolos no passado e no presente.

QUEM É ELE
Atacante: Muller
Nome: Luis Antônio Corrêa da Costa
Data de nascimento: 31/1/1966, em Campo Grande (MS)
Jogos pelo clube: 69 (50 vitórias, 10 empates e 9 derrotas)
Gols no Paulistão-96: 15
Gols pelo clube: 33
Período no clube: 1995 e 96