Fernão Ketelhuth
20/11/2016
08:00
São Paulo

É uma cena engraçada. Um homem calvo de blusa verde-claro e credencial pendurada no pescoço atravessa correndo o campo do Allianz Parque, enquanto Fernando Prass comemora com Dudu e Robinho a conquista da Copa do Brasil. Ele leva um escorregão ao se aproximar do goleiro e cai de costas, saindo do enquadramento da câmera. Parece ser pisoteado pelos gandulas que pulam abraçados ao capitão do Palmeiras.

Quando reaparece na TV, segundos depois, José Reginaldo Nazello de Alvarenga Tripoli, o Xexéu, já está de pé, sem o agasalho, segurando com as duas mãos o rosto de Fernando Prass.

– O Dudu tirou sarro de mim um tempão por causa desse vídeo. Falou para eu calçar chuteira na próxima vez que quiser festejar um título com eles – conta Xexéu – Eu sei que não deveria ter entrado no gramado, mas não me controlei. Foi quase um desabafo depois de todas as dificuldades que o nosso grupo enfrentou quando assumiu o clube.

Conselheiro e assessor especial do Palmeiras, Xexéu Tripoli foi o braço direito de Paulo Nobre durante os dois mandatos do atual presidente.

Foi, também, o terceiro candidato a vereador mais bem votado na recente eleição municipal de São Paulo. Com 88.843 votos, ficou atrás somente de Eduardo Suplicy (PT) e Milton Leite (DEM) na corrida por uma das 55 cadeiras na Câmara.

O empresário de 54 anos concorreu pelo Partido… Verde.

Laços de família
Política e Palmeiras fazem parte da rotina de Xexéu desde o berço. Criado a meia dúzia de quarteirões do antigo Palestra Itália, ele herdou do pai, sócio do clube, o amor pelo Verdão. Passou infância e adolescência frequentando as quadras esportivas espalhadas ao redor do estádio, demolido em 2010 para a construção da arena.

"A maioria das pessoas que votaram em mim nem sequer associa o meu nome ao do Palmeiras" (Xexéu Tripoli)

O interesse pela política também vem da família. O irmão mais velho de Xexéu, Ricardo, é deputado federal pelo PSDB – foi pré-candidato a prefeito este ano. Já Roberto, um dos fundadores do PV, elegeu-se deputado estadual em 2014, depois de sete mandatos seguidos como vereador.

Os Tripoli têm como bandeira a proteção dos animais e do meio ambiente. Nada a ver com futebol.

– A maioria das pessoas que votaram em mim nem sequer associa o meu nome ao do Palmeiras, até porque eu não sou de aparecer. Fui eleito, principalmente, por causa do bom trabalho realizado pelos meus irmãos – reconhece.

A campanha contou com a colaboração de Nobre. O presidente fez uma doação no valor de R$ 120 mil, declarada ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Foi também um dos mentores da candidatura.

– Um dia, eu chego ao clube e vejo o Paulo conversando com os meus irmãos. Eles estavam discutindo o meu futuro político e eu não sabia – recorda-se, rindo.

No ringue
Xexéu guarda no celular um vídeo de 31 anos atrás. De bigode e capacete, ele aparece sobre um ringue trocando socos com um adversário de envergadura maior.

A paixão pelo boxe o colocou na política palmeirense. Foi em 2009, meses após a eleição de Luiz Gonzaga Belluzzo. Praticante da modalidade (chegou a disputar uma luta profissional), Xexéu procurou o novo mandatário para lhe sugerir o projeto de resgatar o departamento de pugilismo, que estava fechado havia quase 60 anos. Belluzzo topou pagar o salário dos professores desde que o empresário, já integrante do Conselho Deliberativo, arcasse com a montagem da estrutura, incluindo a compra dos equipamentos necessários. Deu certo.

– Tirando o ringue, tudo o que está lá, na academia do clube, fui eu quem levei. Virei diretor de boxe e continuei colaborando em outras áreas – conta.

Eleito pela primeira vez em janeiro de 2013, Nobre nomeou Xexéu diretor administrativo. Queria alguém que soubesse dizer “não” num momento de sacrifício financeiro – o Alviverde havia acabado de ser rebaixado para a Segunda Divisão e tinha pendências com jogadores do elenco, entre eles Barcos.

"Comprei muita briga, aguentei cara feia, mas fiz o que precisava ser feito, com erros e acertos" (Xexéu Tripoli)

O primeiro “não” foi guardar em uma gaveta o contrato que o ex-presidente Arnaldo Tirone havia negociado com o meia argentino Riquelme. O documento estava pronto.

– Tínhamos uma conta de R$ 7 milhões prestes a vencer e não havia um real no caixa. Como a gente podia contratar o Riquelme? – pergunta – Comprei muita briga, aguentei cara feia, mas fiz o que precisava ser feito, com erros e acertos. Hoje, as pessoas têm uma noção melhor do nosso trabalho, das coisas boas que a administração do Paulo vai deixar para o Palmeiras.

Xexéu rememora o dia em que proibiu os sócios de levarem alimentos para a sauna recém-reformada na sede social. Choveram reclamações em sua sala. É uma experiência que ele pretende carregar para a Câmara Municipal.

– No Palmeiras, tive de lidar diretamente com as pessoas, com as suas necessidades e demandas. Foi algo novo para mim e certamente isso vai ter sua importância no meu mandato como vereador.

BATE-BOLA

Xexéu Tripoli, assessor de Paulo Nobre e vereador eleito em São Paulo

“O Paulo Nobre é doente pelo Palmeiras”

Como foi sua relação com o Paulo Nobre durante estes quase quatro anos de gestão?
Foi ótimo, não tenho do que reclamar. Tivemos divergências, como sempre acontece quando duas pessoas querem fazer o melhor, mas o Paulo me respeita e me ouve. Uma das qualidades dele é escutar o que você tem para dizer.

Como avalia a administração dele?
Digo que o palmeirense deveria levantar as mãos para o céu e agradecer que o Paulo assumiu o clube num momento de grande dificuldade. Ele é doente pelo Palmeiras, vive pelo Palmeiras dia e noite. Fez todo o possível para ajudar.

Pode dar um exemplo?
Você não imagina quanto custa uma viagem como essa que trouxe de jatinho o Gabriel Jesus, após ele jogar pela Seleção Brasileira… e o Palmeiras não gasta um centavo, sai tudo do bolso do presidente. Vão me chamar de puxa saco por elogiá-lo, mas tudo bem, não tem problema. O Paulo é um cara especial.

Como foi o início da gestão?
Foi difícil. Pegamos o time na Série B, com contas para vencer e o clube passando por uma reforma grande, por causa da construção da arena. Havia descontentamento do sócio e do torcedor. Eu entrei na frente de muita bala para proteger o Paulo, que era muito visado, pelo cargo que ocupa. Sofremos muito, recebemos ameaças.

"O Maurício Galiotte cresceu no clube, se preparou para esse momento. Tem tudo para fazer uma boa gestão" (Xexéu Tripoli)

Quais ameaças?
Em 2013, antes de um jogo da Série B, eu ofereci carona para o Paulo e (José Carlos) o Brunoro (então diretor do clube). Perto do Pacaembu, onde jogaríamos, demos de cara com a Mancha Verde. O presidente havia acabado de romper com a torcida. Os caras vieram para cima do meu carro, deram tapa no vidro. Sorte nossa que apareceram dois policiais e a situação se acalmou.

Maurício Galiotte será o próximo presidente do Palmeiras - é candidato único na eleição de 26 de novembro. Como imagina a próxima gestão?
Vejo um cenário favorável para ele e para o Palmeiras. O Maurício cresceu no clube, se preparou para esse momento. Tem tudo para fazer uma boa gestão, focada na questão financeira, na responsabilidade.

Qual será o seu papel e o do Nobre na administração do Galiotte?
Não sei, isso você tem de perguntar para ele. Fazemos parte do mesmo grupo e estamos dispostos a colaborar, tendo cargo ou não. Essa é uma questão menor. O Paulo já se consolidou como uma liderança importante no Palmeiras.

É possível ajudar o clube na Câmara?
Acredito que sim. Vou conversar com a Secretaria de Esportes sobre possíveis parcerias para os esportes olímpicos. Sou ligado ao boxe, sei da importância do esporte na formação do cidadão. A questão ambiental também pode ser associada ao verde do Palmeiras. Pensamos em ações nesse sentido.