Thiago Ferri
08/12/2016
09:40
São Paulo (SP)

Em 2014, o centenário do Palmeiras era um fiasco. Enquanto o time profissional acumulava frustrações, no sub-17 um garoto começava a chamar a atenção: o atacante Gabriel Fernando, com uma média de quase dois gols por jogo no Campeonato Paulista. Antes de um Choque-Rei pelo Brasileiro, eu vi o primeiro jogo do atacante, no dia 15 de novembro de 2014, também um clássico contra o São Paulo, na rua Javari.

Na véspera de um jogo importante do time de cima, estavam no estádio do Juventus: eu, do LANCE!, equipes da TV Globo, da Gazeta, empresários... Jesus, ou melhor, Fernando, era o centro das atenções. Naquele dia o centroavante já chamou a atenção pela qualidade e por fazer um dos gols que levaram o time à decisão do Estadual. A torcida foi em bom número para pedir o seu "fico" - a longa negociação para renovar estava começando. A entrevista após a partida, talvez a sua maior até então, foi emblemática.

- O que mais ouvi foi: "fica, Gabriel". Quero mandar para eles um recado: eu vou ficar no Palmeiras - disse o atacante.

Naquele ano, chegou a ser relacionado por Ricardo Gareca, mas subiu para o profissional apenas depois da renovação por cinco anos e a Copinha de 2015. Apesar da alta expectativa, ainda era apenas um garoto querido pelo grupo, que estava em desenvolvimento. Oswaldo de Oliveira foi criticado na torcida por não colocá-lo imediatamente, mas a maturação era necessária.


No último ano já vimos lampejos do camisa 33, como na vitória sobre o Cruzeiro, no Mineirão. Apesar de ter feito de tudo naquele 3 a 2 e da qualidade inegável, era difícil imaginar que dali um ano o garoto seria o titular da Seleção Brasileira e negociado por mais de R$ 100 milhões com o time comandado por Pep Guardiola.

Com o time abaixo do esperado com Marcelo Oliveira em 2016, Gabriel também demorou a engrenar. Chegou a ir para o banco na chegada de Cuca, mas logo recuperou a vaga e aí ele explodiu. Fez um primeiro turno de Brasileiro muito acima da média, quando ainda não era "o cara" do Palmeiras. Depois que assumiu este status, tornou-se mais caçado e seu ritmo caiu. Ainda assim, foi decisivo em partidas importantíssimas no título brasileiro, como contra Flamengo (1 a 1), Figueirense (2 a 1) e Atlético-MG (1 a 1).


A entrevista dessa terça-feira foi, talvez, a melhor que vi de Gabriel. Mais solto, falou sem a costumeira timidez e mostrou que mudou muito daquele menino com respostas curtas e sem jeito diante das câmeras em 2015, mas que desde o começo é tratado como uma "mosca branca" pela habilidade dentro de campo.

Foi rápida, mas a passagem de Gabriel Jesus rendeu dois títulos nacionais ao Palmeiras e serviu para marcar a recuperação da base do clube. Quando ele estava prestes a despontar, o Verdão iniciava a reformulação na formação, mas o sucesso serviu para impulsionar o trabalho iniciado por Erasmo Damiani e que segue com João Paulo Sampaio. Hoje, o Palmeiras é considerado um dos clubes que melhor trabalha a base.

Gabriel, por sua vez, já é uma realidade. Importante para a Seleção de Tite, terá também seu peso na equipe do badalado (e competente) Guardiola. Do "fico" dito na rua Javari há dois anos até o "tchau" no Allianz Parque e ratificado quarta na Academia, a ascensão foi inesperadamente meteórica. Uma medalha de ouro e dois títulos nacionais. Currículo de respeito do atacante de 19 anos.