Fellipe Lucena
22/01/2016
08:00
São Paulo (SP)

Enquanto o Palmeiras festeja o lucro gerado pelos 14 meses de funcionamento do Allianz Parque, a WTorre vive crise financeira e soma dívidas relativas à arena. A construtora ainda não viu a cor do dinheiro arrecadado com os eventos no local.

Toda a receita que o Allianz Parque gera para a WTorre é usada para pagar o Banco do Brasil por um empréstimo de R$ 350 milhões feito durante a reforma - o preço total da obra ficou estimado em cerca de R$ 680 milhões. O valor recebido até agora não foi divulgado, mas a operação da arena em 2015 foi superavitária e considerada um sucesso. A dívida com o Banco do Brasil, portanto, diminuiu de forma satisfatória. Mas está longe de ser paga.

A empresa tem sobrevivido com o dinheiro gerado por outros empreendimentos. Já era sabido que os valores vindos do estádio só viriam de fato após a quitação dessa pendência, mas a WTorre esperava conseguir um novo empréstimo para as despesas da operação da arena. A situação do país, porém, fez com que esta nova operação não fosse aprovada. A busca agora é ter uma linha de crédito fora do país.

É por isso que a WTorre deixou de pagar diversas empresas que prestaram serviços no Allianz Parque. Na semana passada, a Revista Época revelou que há 367 protestos por dívidas registrados em cartório, em valor aproximado de R$ 15 milhões.

Pessoas ligadas à construtora confirmam que várias dívidas estão em aberto, mas ponderam que o momento mais crítico da crise financeira foi entre agosto e setembro do ano passado e que os principais parceiros estão sendo chamados para equacionar os débitos. Há casos, porém, em que a WTorre contesta o valor cobrado porque o serviço entregue não teria sido como combinado.

O Palmeiras fica com toda a renda líquida de seus jogos, o que já gerou mais de R$ 55 milhões desde a inauguração do estádio. Já os principais ganhos da WTorre vêm dos naming rights, aluguel da arena para shows e outros eventos, venda de camarotes e venda de cadeiras.

O clube julga que a construtora tem o direito de comercializar 10 mil cadeiras – parte delas começou a ser negociada em 2015, com sucesso –, enquanto a empresa diz ter poder sobre todos os assentos. Essa discordância na interpretação do contrato é discutida na arbitragem desde o início de 2014.

WTorre x principais parceiras

Traffic - Empresa atuou como uma espécie de imobiliária na venda de camarotes e tem direito a comissão a cada contrato firmado. Mas o envolvimento da Traffic no escândalo de corrupção na Fifa fez a WTorre romper a parceria. A Traffic acredita ter direito a receber valores correspondentes até o fim dos contratos já assinados pelos camarotes, mas a WTorre alega que precisará encontrar um novo parceiro para executar o serviço de pós-venda que a Traffic faria e contesta o valor, embora já tenha sido condenada pela Justiça a pagar mais de R$ 2 milhões.

AEG - A WTorre considera que a empresa não conseguiu entregar o que prometeu. A ideia da parceria era que a AEG trouxesse um modelo de gestão inspirado em arenas de outros países, além de ajudar na busca por patrocínios e eventos. Pessoas da construtora ouvidas pelo L! dizem que o trabalho foi satisfatório antes da abertura do estádio – foi a AEG quem intermediou a venda dos naming rights para a Allianz –, mas que a relação “engasgou” depois disso. A WTorre, portanto, quer renegociar o valor a ser pago e diz que a parceria não está desfeita.

Construtora não teme a falência

Apesar da crise, a WTorre nem considera a hipótese de fechar as portas. Caso isso acontecer durante a vigência do contrato com o Palmeiras, que tem mais 29 anos, o Banco do Brasil assume o Allianz Parque por ter um valor a receber da construtora pelo empréstimo feito para a reforma.

Entre os prestadores de serviço que cobram dívidas da WTorre, há quem tenha entrado com pedido de falência. Já houve acordo com eles. Crise à parte, a empresa está construindo um porto no Maranhão e um teatro anexo ao shopping JK Iguatemi.