Palmeiras x Corinthians

Confrontos no Dérbi não aconteceram no Pacaembu

Valdomiro Neto
05/04/2016
12:00
São Paulo (SP) 

A decisão do governo paulista de proibir torcida visitante nos clássicos do estado tem potencial enorme de inocuidade. Os confrontos entre torcedores têm sido verificados quase sempre fora dos estádios, algumas vezes a muitos quilômetros de distância. No domingo passado, por exemplo, a morte de um inocente ocorreu em São Miguel Paulista, na zona leste da capital, bairro afastado do Pacaembu, palco do Dérbi, que fica localizado na parte central da cidade. 

Os torcedores organizados utilizam os jogos como pretexto para dar vazão a suas rixas e vendetas contra rivais. Podendo ou não ir ao jogo, por que deixariam de armar emboscadas e ficariam na miúda em casa? Por que o lado impedido de comparecer às partidas refreará seus instintos bélicos apenas porque não pode ir a algumas partidas? Será que se sentem penalizados com essa supressão? 

O problema da violência ligada ao futebol parece muito mais de falência do estado, que não consegue combater efetivamente a barbárie que se manifesta de várias formas no cotidiano. Em um país que tem índices de violência equiparáveis a localidades em guerra civil, por que o futebol viveria contexto alheio, nórdico? 

O ponto nevrálgico parece ser a impunidade. É conhecida a ideia de que o Brasil prende muito e prende mal. Tem uma das maiores populações carcerárias do mundo sem que isso contenha os alarmantes índices de violência. Temos visto frequentemente membros de organizadas identificados em uma briga reaparecerem em outras e mais outras. A reincidência sugere certeza de que passarão impunes. 

Ainda que apenas 5% dos ingressos fossem destinados a torcedores visitantes nos clássicos e essa cota caísse muitas vezes nas mãos dos organizados, a proibição aumenta a sensação de que o torcedor "comum", imensa maioria de quem acompanha jogos de futebol, é penalizado pela ineficiência das autoridades. Além de conviver com o terror, deixando, por exemplo, de usar a camisa do seu time em ambientes públicos com receio de ser alvejado por esses trogloditas, fica privado de, se assim desejar, comprar bilhetes em clássicos nos quais seu time não seja o mandante. 

Nesses anos todos de barbárie - segundo levantamento do editor Rodrigo Vessoni, desde 1988 já são 296 as mortes por violência fora dos campos - já vimos várias ações proibitivas que resultaram em nada. Torcidas organizadas extintas (rebatizadas), interditadas em estádios, veto a bandeiras e instrumentos musicais, etc...  

Há quem defenda punição aos clubes como forma de pressioná-los a agir de alguma maneira para reduzir o espaço das organizadas. Nesse caso, também sobram dúvidas e inexistem certezas. O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, cortou laços com as uniformizadas alviverdes. Para a instituição, é ótimo que não haja esse vínculo descabido. Porém, para o problema macro não foi verificado resultado nenhum. Afinal, não estiveram membros da Mancha Alviverde envolvidos nos conflitos do último domingo e em muitos outros recentes?