Tony Kanaan disputará em 2016 sua terceira temporada com a Chip Ganassi (Foto: Divulgação)

Tony Kanaan disputará em 2016 sua terceira temporada com a Chip Ganassi (Foto: Divulgação)

Rafael Valesi
05/02/2016
05:55
São Paulo (SP)

Em 2017, o mundo do automobilismo pode entrar em uma nova era em termos de segurança e design, com os debates na Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para o fechamento dos cockpits na Fórmula 1.

O tema voltou à tona após duas tragédias em 2015. A primeira foi na própria F-1, com o falecimento do francês Jules Bianchi, em julho. Um mês depois, foi a vez do inglês Justin Wilson vir a óbito, durante a etapa de Pocono da IndyCar. Em comum está o fato de que eles sofreram impactos violentos na cabeça. Assim, a proteção no cockpit viria para tentar evitar outros casos.

Mas, segundo o brasileiro Tony Kanaan, a solução proposta não é tão simples quanto parece. Presidente da associação de pilotos na IndyCar, o piloto da equipe Chip Ganassi diz que há uma série de fatores que precisam ser analisados.

Nesta entrevista ao LANCE!, o experiente corredor de 41 anos fala sobre a segurança nas pistas e sua 19 temporada na IndyCar, entre outros assuntos. Confira!

Qual é a sua expexctativa para a temporada 2016 da IndyCar?
Todo ano você quer começar pensando em ser campeão e em ganhar as 500 Milhas de Indianápolis. Em termos de equipe, estou em uma das melhores. Não somente as nossas expectativas, mas a de todo mundo, é a de brigar pelo campeonato e vencer as 500 Milhas. Estamos trabalhando para isso. Ainda não treinamos com o carro desta temporada. Isso só vai acontecer neste mês.

Em uma entrevista recente sua publicada no site de sua equipe, a Chip Ganassi, você comentou que algumas pessoas estão te achando velho para correr na IndyCar, aos 41 anos. O que tem a dizer sobre isso? E o que ainda te motiva a correr?
O que me motiva é o fato de ser piloto de corrida. As pessoas têm uma ideia muito errada. Quando você se torna uma pessoa de sucesso, quando conquista várias vitórias e dinheiro suficiente, os outros assumem que está na hora de você parar. Pensam que você já tem o que quer. Tenho sorte de ganhar dinheiro com o que eu faço, e essa nunca foi a intenção. A minha de motivação é a mesma de quando eu era moleque. Se eu tenho um título, quero ganhar dois. As pessoas falam que eu já ganhei tudo, mas na minha cabeça coloco que eu quero ganhar mais. O intuito é sempre o de correr. Não é uma questão monetária ou de troféus. A corrida é a minha vida. Em 2017, completarei 20 anos na Fórmula Indy (sic), são 32 anos de carreira. Acho um pouco absurdo dizerem que eu estou velho para fazer o que eu faço. As pessoas poderiam falar alguma coisas do tipo se eu não tivesse resultados. Aí você pode pensar isso. Minha maior preocupação é pensar que eu não estou mais rápido (para correr), o que não é o caso agora. Estou na melhor forma física da minha vida.

Então, você planeja ter mais temporadas pela frente na IndyCar?
Meu contrato com a Chip Ganassi é de dois anos, este (2016) será o último. Eu aprendi com tantas porradas que levei na minha vida. Se eu tiver um bom ano em termos de resultados, esse problema se resolve. Em 2013, ganhei as 500 Milhas de Indianápolis, e deu no que deu. No automobilismo, nada é previsível. Não dá para eu me preocupar ainda com o ano de 2017, no que será meu vigésimo ano correndo na Indy.

Estar na Indy no ano que vem, em sua vigésima temporada, deve ser uma de suas motivações então.
Tenho várias motivações. Tenho que trabalhar duro, eu ainda levo patrocínio para a equipe. Então, preciso trabalhar perante meus patrocinadores para fazer esse vigésimo ano.

O que vocês pilotos já sabem sobre o carro que terão em mãos nesta temporada na IndyCar?
A Indy deixou a Honda e a Chevy mudar quatro itens. Não sabemos quais são, e ainda não recebemos as peças novas. Não adianta nem treinar agora. Sabemos que a Honda deu uma melhorada no pacote aerodinâmico, então tudo pode mudar. Está tudo muito imprevisível, não tenho ideia de como vai ser. Mas estando na equipe Chip Ganassi, temos computadores que fazem simulações, tenho certeza de que isto nos dará uma vantagem.

A IndyCar não disputa uma corrida desde setembro. Já são quase cinco meses sem correr. O que acha do calendário da categoria?
Isso é muito ruim. Passar tanto tempo fora do carro é ruim. Precisamos treinar, não é o ideal. A categoria fez isso por uma questão de logística, e também para não coincidir com outras modalidades nos Estados Unidos. Com isso, tenho mais tempo para a família e corro em outras categorias. Para mim, o ideal seria se o campeonato terminasse em outubro, como era antigamente.

Neste ano também completará três anos da última corrida da IndyCar no Brasil. Você sente falta de não correr mais em casa?
Sinto uma falta gigantesca de correr com a minha torcida. Não tenho mais patrocinadores brasileiros hoje em dia por causa disso. Deu uma caída no número de empresas interessadas em me patrocinar. Quando eu corria no Brasil havia a possibilidade de oferecer mais para os clientes. É uma pena. Mas, para ser sincero, temos problemas maiores em nosso país. Como um brasileiro, morando fora, escutando as coisas que escuto sobre o Brasil, que temos uma bagunça que não se arruma, minha preocupação não é mais nem essa (corrida da IndyCar) hoje em dia. Com o dólar do jeito que está, a chance é zero. Vamos agradecer pelo que aconteceu. Não é a realidade hoje em dia, não é uma coisa que vai acontecer em um futuro próximo. Estamos precisando arrumar a casa.

Como você avalia seus dois primeiros anos na Chip Ganassi?
Foram dois anos bons, mas ao mesmo tempo meu companheiro de equipe foi o campeão (Scott Dixon, em 2015), então não foi tão bom para mim. O primeiro ano foi de adaptação em uma equipe diferente. No ano passado tive uma temporada boa em relação a resultados. Não ganhei corrida, mas sempre aconteceu alguma coisa nas chances que tivemos. Eu não estaria na equipe se não estivessem contentes. Contribuí para o time ganhar o campeonato. Se você olhar o campeonato, fui pior, mas é importante o trabalho em equipe. O Dixon, por natureza, foi um bom piloto a vida inteira. Ele é o que tem o maior número de vitórias, e teve um ano bom. Infelizmente o automobilismo é assim. No ano passado, por exemplo, ele foi o campeão na última prova, na última volta. E se o (Juan Pablo) Montoya tivesse me ultrapassado, quem teria levado o título era ele.

A IndyCar implementou algumas mudanças de segurança no carro, após a morte do Justin Wilson no ano passado. O que achou das alterações?
Eu sou o presidente da associação de pilotos na IndyCar. Antes de se tomar uma decisão sobre o que aconteceu, é preciso pensar muito. Quando você faz uma mudança, soluciona um problema e cria outros cinco para resolver. Nós estudamos muito o que seria feito. Teremos cabos de aço que vão segurar o bico e a asa traseira em acidentes e isso é bom, não teremos essas peças voando. Mas o automobilismo nunca será 100% seguro. As mudanças foram poucas, mas os estudos para se fazer uma categoria mais segura continuam. Nós inventamos o soft wall e o hans junto com a FIA (Federação Internacional de Automobilismo), e estamos trabalhando para melhorar o carro, para que seja um pouco mais seguro.

Uma das discussões em termos de segurança dos carros é o fechamento do cockpit. O que acha desta ideia?
Em um cockpit fechado, o que acontecerá se pegar fogo? E como que vamos sair, se o carro estiver de cabeça para baixo? É simples pensarem nas soluções, mas não pensarem nas outras coisas. Sempre serei o chato. Como vamos fazer para respirar dentro do carro? O cockpit fechado é o caminho, mas não é algo tão simples assim. Esta é a ideia atualmente, com a tecnologia que temos hoje em dia.

O que você prevê para a temporada 2016 na IndyCar em termos de competição?
Acho que as equipes boas sempre serão boas. Não adianta, pois os engenheiros sempre vão descobrir alguma coisa. É uma categoria em que sempre todos vão ter a chance de ganhar. O que vai mudar é a relação de forças entre a Honda e a Chevy. A Chevy tinha uma vantagem, mas a Honda fez algumas modificações para este ano.